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quarta-feira, 8 de outubro de 2008


Fauna & Flora: As Flores, as Folhas e o Vento
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As flores são lindas!
Reguei-as há pouco e balançam na aragem.
Não as plantei, nem sei como se chamam, embora lhes reconheça os traços, o tom róseo das pétalas, o amarelo dos estames.
Não são bastardas nem párias. São flores de jardim, ou pelo menos de vasos bem guardados e cuidados.
Aqui, à varanda, não sei como chegaram. Mas nesta floreira já nada estranho. Dela surgiram e cresceram as mais belas e variadas plantas, cuja origem desconheço.
Antes assim!
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Na marquise, surpreendentemente, voltam a nascer as orquídeas – já a haste se eleva com naturalidade para a luz da manhã! E neste súbito assomo de vida (desistira já de ver brotar orquídeas destes bolbos discretos…) leio o sinal do renascimento, e fico feliz!
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Na rua, é o vento…
Brando, fresco vento, que leve levanta o meu cabelo e voa.
Vai o pensamento na suave carícia deste vento verde que as árvores agita…
Vento brando, fresco, que é brisa de Outono.
Ali se distrai, nas folhas em dança pela calçada.
Vento que é dourado, vento que é castanho, vento que não estranho, pois meu coração habita.

Ilona Bastos
Lisboa, 18 de Outubro de 2007
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Rimsky-Korsakov - Scheherazade (4/5)

Moscow Symphony - Arthur Arnold, conductor - Live from The Hague

quinta-feira, 18 de setembro de 2008


Consciente de cada um dos meus passos, de cada um dos meus gestos, inicio a dança do deitar, ao som do silêncio.
Cada acto ganha relevo. Até o de colocar o ponto final na frase. Sempre que a caneta se debruça sobre o papel, ou dele se ergue, uma espécie de clic dourado se produz. E durante a escrita há um roçar contínuo, segmentos de volteados indefiníveis, como um sussurro velado, ou um raspar suave, ameno, que a estética do traçado sobre a superfície branca realça. O tic tac do relógio torna-se nítido, os ruídos próprios da noite cercam este casulo onde os sons controlados, baixos, sons de dança da deita, nos deleitam...
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Ilona Bastos
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sexta-feira, 5 de setembro de 2008


Apaixonei-me, a dada altura, pelos haicais, esses tercetos de origem japonesa que ganharam impulso com Bashô e que devem obedecer a regras bem precisas.
Escrevi, então, uma série deles.
Embora duvide ter logrado criar verdadeiros haicais, a realidade é que consegui passar ao papel algumas ideias que há muito me acompanhavam, mas nunca encontrara forma de exprimir
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Límpido o céu
O vento traz uma nuvem
Matinal passeio
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Na manhã nublada
Um raio de sol brilha
Num sorriso belo
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Parou de chover
O sol inunda os campos
Piam os pardais


O longo abraço
Da cortina sobre si
Mostra o arvoredo

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Na janela aberta
O espanta espíritos
Atrai os sonhos

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A janela aberta
O sino e a cortina –
Uma valsa ao vento.

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Na mimosa flor
Que da árvore voou
Vi o Universo

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Folhas douradas –
No Verão, são notícias
Do bom Outono

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Pólen a pairar
Em raio de sol poente
Planta um jardim
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Ilona Bastos


Há sensações que pairam sobre nós como gigantescas nuvens negras, parte de um cenário que é o da nossa existência, e ao qual não podemos escapar, ainda que mudemos de terra, de hábitos, de pensamentos …
Ainda que riamos, que conversemos, que sintamos temporariamente segurança e alegria, que pensemos ter afastado para bem longe do nosso cérebro essa cúpula cinzenta do desânimo, ela permanece, persiste e volta a envolver-nos...
Pergunto-me, então, se o que constitui o nosso âmago, aquilo que mais intrinsecamente nos caracteriza e define, é essa permanência plúmbea que em gestos expressivos conseguimos por vezes iludir, ou se, pelo contrário, nós somos verdadeiramente esses gestos, a luta, a persistente conquista de um acto mais azul, uma ideia mais clara, um sentimento mais transparente…
É essa a questão: se quiser descrever-me intimamente, devo começar por esse medo e essa dúvida que, como pano de fundo, me acompanham – e terei, assim, de me considerar estruturalmente medo e dúvida? Ou, precisamente ao contrário, hei-de definir-me pelos rasgos de coragem, pelas certezas encontradas, pela luta diariamente travada para iluminar os meus dias?
Na verdade, se puder considerar esse plúmbeo céu como comum a todos os humanos, então vê-lo-ei como exterior a mim própria. E serei uma brava guerreira, combatendo sem tréguas o desânimo, o medo, a dúvida, empunhando bem alto a chama da fé, alumiando cada dia com a luz da esperança, e assim construindo, com garra, inteligência e generosidade, o caminho da felicidade
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Ilona Bastos

quarta-feira, 27 de agosto de 2008


Perfeitos, ainda há pouco, o vento e o sol transformam-se por momentos: sobrepondo-se o primeiro, enfraquecendo o segundo.
Mas, é breve, este momento de desconforto, e logo regressa a harmonia.
Retorna o vento ao seu lar – talvez a copa desta frondosíssima árvore que diante de mim se ergue e se espraia, imponente na dimensão do seu tronco, poderosa nos movimentos dos seus ramos e folhas…
Quanto ao sol – é o sol das seis e meia de uma tarde de Agosto!
Um e outro, vento e sol, aliam-se na criação deste cenário fantástico, em que a areia brilha, calma e clara, e as árvores, nos tons verdes e escuros próprios de jardim romântico, prometem simultaneamente sossego e aventura, ousadia e segurança.
Para quem está no jardim agora, não existe outro mundo que não seja este. Diluídos na sinfonia das folhas agitadas, os ruídos dos automóveis apagam-se, as vozes atenuam-se. Não há senão paredes palacianas e chilrear de pássaros, e espantadas frases titubeadas por uma criança. Se o cão ladra, a ave responde. E o vento, poderoso, vocifera, mas cala-se de novo. Movimenta-me o cabelo, fazendo crer que é carícia. Volta-me as páginas do livro, mas recoloca-as no seu lugar, como se o fizera por engano. Encaminha as folhas caídas, pelos carreiros fora, qual brincadeira inocente. E os ramos acenam, soberbos. O sol sorri, tudo desculpando. É folguedo de juventude, este desacato do vento a transformar a paisagem.
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Ilona Bastos