quinta-feira, 18 de setembro de 2008


Consciente de cada um dos meus passos, de cada um dos meus gestos, inicio a dança do deitar, ao som do silêncio.
Cada acto ganha relevo. Até o de colocar o ponto final na frase. Sempre que a caneta se debruça sobre o papel, ou dele se ergue, uma espécie de clic dourado se produz. E durante a escrita há um roçar contínuo, segmentos de volteados indefiníveis, como um sussurro velado, ou um raspar suave, ameno, que a estética do traçado sobre a superfície branca realça. O tic tac do relógio torna-se nítido, os ruídos próprios da noite cercam este casulo onde os sons controlados, baixos, sons de dança da deita, nos deleitam...
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Ilona Bastos
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terça-feira, 16 de setembro de 2008



Com grinaldas me enfeitei,
Com túlipas me vesti,
Com rosas me perfumei,
Com amor me dei a ti.
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Ilona Bastos
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sábado, 13 de setembro de 2008

Na contra-capa desta edição antiga da Guimarães Editores, que num impulso decidi sacar da estante para reler, diz simplesmente: “Um mestre do conto americano”.
Refere-se, tal apresentação, a William Saroyan, cujas palavras, ainda agora recordadas, me deixam um nó na garganta.
Este conto, “O Riso”, é certamente de mestre! Como o é “Da terra donde eu venho as pessoas são bem-educadas”, que me fez olhar as Harley Davidson com os olhos do sonho, e cuja lembrança me atraiu ontem à noite para a lombada deste livrito em papel amarelado, que dá pelo surpreendente título de “O Índio do Packard”.
Já anteriormente me interessara por Saroyan, aquando da primeira leitura desta colectânea. Sentira-me, então, profundamente tocada pela sua escrita, e procurara conhecer o autor e a sua obra.
Aprendi, na ocasião, que William Saroyan nasceu em Fresno, Califórnia, em 1908, filho de um emigrante arménio que faleceu tinha William apenas dois anos de idade. Tendo passado vários anos em orfanatos, aos dezasseis Saroyan decidiu ser escritor. E, desde então, até falecer, em 1981, criou uma extensa obra literária, na qual se incluem contos (de carácter essencialmente autobiográfico), novelas, romances, peças teatrais, ensaios e memórias.
Pela peça “The Time of Your Life”, foi-lhe atribuído o prémio Pulitzer, em 1939 – galardão que recusou com o fundamento de que “a riqueza não tem o direito de patrocinar a arte”. Aceitou receber, no entanto, o New York Drama Critics Circle Award.

O seu romance mais famoso é “The Human Comedy”, 1942, no qual se incluem algumas das páginas mais tocantes da moderna ficção norte-americana. A sua adaptação para o cinema valeu a William Saroyan o prémio da Academia para a Melhor História (prémio que deu origem ao Óscar de Melhor Roteiro Original).
Relativamente ao seu estilo, pode ler-se, na Biografia de William Saroyan inserta no Authors’ Calendar do site Pegasos:

“(…) as suas histórias celebravam o optimismo perante as atribulações e dificuldades da época da Depressão. Vários trabalhos de Saroyan basearam-se nas suas próprias experiências, embora a sua abordagem dos factos autobiográficos possa ser considerada poética. O seu conselho a um jovem escritor foi o seguinte:” Tenta aprender a respirar profundamente; a saborear realmente a comida, quando comes; a dormir realmente, quando dormes. Tenta ao máximo estar completamente vivo, com todo o teu poder, e quando te rires, ri perdidamente.” Saroyan trabalhou incansavelmente no sentido de aperfeiçoar um certo estilo de prosa, que resultou cheio de entusiasmo pela vida, com pendor impressionista. O estilo tornou-se conhecido como “Saroyanesque”.”

Pesquisando na Internet, encontrei extensa informação sobre este premiado e aclamado autor, que, através das suas histórias, tão humanas e originais, tocou o meu coração. Navegarei por essas páginas e procurarei saber mais sobre William Saroyan. E, claro, não deixarei de procurar as suas obras nas livrarias.
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Ilona Bastos

George Gershwin, Rhapsody in Blue, com Bernstein ao piano

1ª Parte

quinta-feira, 11 de setembro de 2008


Como gostei da leitura de “Deus é Amor”, a primeira carta encíclica de Bento XVI!

Apreciei, em particular, a primeira parte, de cariz filosófico. Aí se faz a distinção entre “ágape” e “eros” (o primeiro, o amor que dá, o segundo, o que almeja receber), para finalmente se afirmar que o Amor envolve equilibradamente ágape e eros.

Aprendi que o agapante é a flor do amor. Do grego “ágape”. E esse nome, que outrora me parecera tão feio, ganhou outro encanto, nova dimensão, uma certa doçura. Olho então os canteiros de agapantes e vejo berços de amor.


Tenho, agora, uma visão muito mais nítida do que deve ser o Amor entre seres irmãos: ágape é perdão, aceitação, tolerância, envoltos em benevolência.
Esse Amor, como o pressinto, não envolve crítica, nem sarcasmo, nem ironia, nem desconfiança, mas uma infinita bondade! Evidentemente, não inclui cólera, nem revolta, nem ciúme ou inveja, antes, incrível sapiência.
Assim, se o meu irmão me magoa, se é mordaz, ofensivo, malévolo, eu perdoo, porque o compreendo, porque vejo para além da sua acção, reconheço o seu íntimo sofrimento, o seu medo, a sua amargura, as suas perdas, as rejeições de que foi alvo… Posso até reconhecer e aceitar-lhe os vícios, os que não consegue vencer, nem se atreve sequer a combater.
Se tudo isto eu vejo, sem crítica e com bondade, não consigo zangar-me com o meu irmão – antes tenho de ser paciente, abraçá-lo, encaminhá-lo no trilho do Bem.
Compreendo este sentimento e sei que consigo alcançá-lo por vezes. No entanto, falta-me a paciência e, se me testam para além do que me parece possível suportar, reajo vivamente.
Dai-me, Deus, a infinita paciência, e a clarividência para conseguir ver, sempre, sempre mais longe!
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Ilona Bastos

terça-feira, 9 de setembro de 2008


A inspiração pode surgir de onde menos a esperamos: da simples folha de árvore, pousada sobre o empedrado escuro do passeio; da lagartixa que nos espreita da fresta do muro; das conversas e desabafos daqueles que por nós passam, tantas vezes alheados de tudo o que não seja o seu próprio mundo…
Daí a necessidade de estarmos atentos ao que acontece em redor. Isto é, se queremos entender a realidade e descrevê-la!
Certamente que a nossa atenção é parcial e direccionada. Se observamos a lagartixa – a sua cabecita esperta, listrada de verde, surgindo da pedra – ignoramos o comboio troante, que avança soberbo sobre a paisagem. Se escutamos as conversas passantes, abstraímos da flor, que o vento arrancou, e veio pousar, desconsolada, no chão.
Mas, que fazer, se não podemos acompanhar simultaneamente tudo o que nos rodeia?


Pétala macia
Que no regato flutua
É veleiro audaz.

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Eis a Primavera!
Botões florescem no vaso
Pintado no quadro

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Estranha sensação –
Viver a um só tempo
Inverno e Verão!

Ilona Bastos

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Que maravilhoso milagre é este de estar viva, de saúde, rodeada dos que amo, e com a possibilidade de me alimentar e satisfazer as mais básicas necessidades!
Basta esta simples reflexão para que os olhos eleve ao céu, respire fundo e me compenetre da paz que sobre mim desce. E, com a paz, nasce a capacidade de raciocinar, ver em redor, sentir o odor das flores que se espraia para além do jardim, e que o vento (sim, o mesmo vento que faz dançar as sombras sobre a mesa onde escrevo) espalha pela rua aleatoriamente, sem escolher ou preterir, na sua doação de um presente odorífero.



Com o seu regresso, uma súbita sensação de felicidade. Leve, conversava e ria com alegria. Como se o sol tivesse recomeçado a brilhar e a tempestade voasse para longe! O meu coração amainou, e tudo, em meu redor, apareceu feliz!



Diz-me! Diz-me que me compreendes, que me queres, que me amas! Diz-me que o próximo momento será melhor que o presente, e que não estarei só, nem infeliz! Diz-me que os meus sonhos vão tornar-se realidade, e que a realidade é tão bela quanto o mais belo e florido campo! Diz-me que, ao chegar, os pássaros saudar-me-ão com o seu chilrear, e as rosas com o seu perfume! Diz-me... diz-me o que tanto desejo ouvir!

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Ilona Bastos


domingo, 7 de setembro de 2008



Allegro, allegro vivace! Avancemos para a vida com alegria, mesmo se a cabeça dói ou o olhar se entristece. Allegro, allegro vivace! Avancemos alegremente para a vida!

Hoje não escrevo, porque é domingo, e ao domingo o meu pensamento fecha. Ao domingo, acordo tarde, com dores de cabeça. Ao domingo vou almoçar com a família. Ao domingo vagueio pela Internet, ávida de algo. Ao domingo estendo a roupa e faço o jantar. Portanto, ao domingo não escrevo, e o meu pensamento fecha.
Posso reler o que escrevi e fazer emendas, mas não escrevo. Posso desenhar letras, com elas formar palavras e articular frases, mas não escrevo. Posso até fingir que escrevo, mas não escrevo. Acabarei inevitavelmente por comer os morangos que sobraram do jantar, mas não escrevo!
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.Ilona Bastos

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sexta-feira, 5 de setembro de 2008


Apaixonei-me, a dada altura, pelos haicais, esses tercetos de origem japonesa que ganharam impulso com Bashô e que devem obedecer a regras bem precisas.
Escrevi, então, uma série deles.
Embora duvide ter logrado criar verdadeiros haicais, a realidade é que consegui passar ao papel algumas ideias que há muito me acompanhavam, mas nunca encontrara forma de exprimir
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Límpido o céu
O vento traz uma nuvem
Matinal passeio
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Na manhã nublada
Um raio de sol brilha
Num sorriso belo
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Parou de chover
O sol inunda os campos
Piam os pardais


O longo abraço
Da cortina sobre si
Mostra o arvoredo

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Na janela aberta
O espanta espíritos
Atrai os sonhos

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A janela aberta
O sino e a cortina –
Uma valsa ao vento.

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Na mimosa flor
Que da árvore voou
Vi o Universo

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Folhas douradas –
No Verão, são notícias
Do bom Outono

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Pólen a pairar
Em raio de sol poente
Planta um jardim
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Ilona Bastos


Há sensações que pairam sobre nós como gigantescas nuvens negras, parte de um cenário que é o da nossa existência, e ao qual não podemos escapar, ainda que mudemos de terra, de hábitos, de pensamentos …
Ainda que riamos, que conversemos, que sintamos temporariamente segurança e alegria, que pensemos ter afastado para bem longe do nosso cérebro essa cúpula cinzenta do desânimo, ela permanece, persiste e volta a envolver-nos...
Pergunto-me, então, se o que constitui o nosso âmago, aquilo que mais intrinsecamente nos caracteriza e define, é essa permanência plúmbea que em gestos expressivos conseguimos por vezes iludir, ou se, pelo contrário, nós somos verdadeiramente esses gestos, a luta, a persistente conquista de um acto mais azul, uma ideia mais clara, um sentimento mais transparente…
É essa a questão: se quiser descrever-me intimamente, devo começar por esse medo e essa dúvida que, como pano de fundo, me acompanham – e terei, assim, de me considerar estruturalmente medo e dúvida? Ou, precisamente ao contrário, hei-de definir-me pelos rasgos de coragem, pelas certezas encontradas, pela luta diariamente travada para iluminar os meus dias?
Na verdade, se puder considerar esse plúmbeo céu como comum a todos os humanos, então vê-lo-ei como exterior a mim própria. E serei uma brava guerreira, combatendo sem tréguas o desânimo, o medo, a dúvida, empunhando bem alto a chama da fé, alumiando cada dia com a luz da esperança, e assim construindo, com garra, inteligência e generosidade, o caminho da felicidade
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Ilona Bastos

quarta-feira, 3 de setembro de 2008


Fauna & Flora: Aquarela do Brasil

É um belo casal de periquitos! Ele, de uma delicada plumagem amarela, dá pelo nome de Tom Jobim. Ela, de verde vestida, chama-se Adriana Partimpim. Em conjunto, tratamo-los por Pimpins.
A lembrança destes nomes, algo surpreendentes, surgiu-me quando os trazia para o seu novo lar e me recordaram uma deliciosa aguarela, maravilhosamente desenhados e coloridos, em contraste com o cinzento da rua e dos passantes automóveis, adereços grosseiros desta paisagem urbana.
“Parecem uma Aquarela do Brasil”, pensei. E, numa bizarra associação de ideias – afinal, não escolhi Ary Barroso para baptizar as criaturas – entendi prestar homenagem aos dois talentosos artistas brasileiros.
Na nossa casa, os Pimpins vivem na marquise, de onde assistem ao nascer do sol, e se abrigam ao anoitecer. Têm poleiros feitos de ramos de árvores, bebedouro com água e vitaminas, ossos de choco onde afiam os bicos, algumas guloseimas com sementes, frutos secos e mel, comedouros, e uma ampla banheira, para se refrescarem.
Faz-me lembrar uma luxuosa piscina das termas, este recipiente branco, coberto por uma abóbada transparente, onde os periquitos se banham.
A base da alimentação destas lindas aves é uma mistura de sementes de vários feitios e cores, entre as quais me é possível identificar a alpista e o sésamo. Constituem, para mim, um mistério, esses outros grãos redondinhos e brilhantes em vários tons de caramelo, bege e dourado, que os periquitos depenicam com prazer.
Olhando para a comida dos periquitos enquanto alimento, nunca me consciencializei de que é constituída por sementes, ou seja, gérmen, promessa, base de vida.
Assim, foi com surpresa que hoje encontrei, ao lavar a piscina dos Pimpins, uma pequena planta composta por duas tenras folhas ligadas a um só caule, terminando numa pálida e diminuta raiz.
Recuperada do espanto, apercebi-me de que aquele pequeno milagre de vida surgiu da imersão, em água, de uma das minúsculas sementes que constituem o essencial das refeições dos periquitos. Tão simples como isso!
Basta uma semente e uma gota de água para que a vida nasça, exaltada, veemente. E é suficiente um pouco de sol para que se expanda, ilimitada, em raízes, caules, folhas, flores e frutos!
Com que facilidade nos esquecemos da riqueza, complexidade, simplicidade e fascínio do milagre da vida que brota desta bendita Terra, que temos urgentemente, absolutamente, que começar a respeitar!
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Ilona Bastos
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segunda-feira, 1 de setembro de 2008


Não era minha intenção transformar este recanto numa galeria de exposições. Mas parece-me agora que me limito a expor aqui as minhas pinturas fotográficas e verbais.
Tentemos um conto...
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A obra-prima

O escultor levou dezoito anos a criar a sua obra-prima.
Ergueu-a a partir do nada, ou seja, utilizando o material simultaneamente mais básico e mais complexo que se pode imaginar.
Ao longo dos anos fê-la crescer, dedicando-lhe os momentos mais inspirados do seu tempo, do seu desvelo, do seu carinho.
Quantas noites não passou sem dormir, desencantando soluções para as dificuldades que a obra lhe suscitava! Quanta alegria não o invadiu, ao reconhecer ter acertado nas opções feitas em cada etapa da sua construção! Quantas lágrimas não chorou ao imaginar, por vezes, que o objecto do seu enlevo poderia não atingir o destino que lhe fora traçado!

Quanto sofrimento, quanta felicidade, quanta angústia, quanto alívio não lhe causou essa ambiciosa obra, cuja finalização, pensava, lhe traria a compensação e o total reconhecimento pelo esforço despendido…
Lateralmente – pois o escultor tinha que ganhar a sua vida – concebia pequenas estatuetas em barro, que vendia em feiras do artesanato e lojas para turistas. Como oleiro, das suas mãos nasciam cântaros e jarros de belíssimas formas e elegantes linhas, encanto dos apreciadores que nelas vislumbravam ânforas gregas ou romanas e sonhos de longínquas ilhas plantadas num mar de azul intenso, coberto de céus com nuvens alvíssimas pincelando extensões grandiosas até ao horizonte.
Quando interrogavam o escultor acerca da sua obra-prima - à qual o próprio se referia, amiúde, como sendo de importância fundamental -, este sorria, feliz, respondendo vagamente: “A minha obra está à vista de todos!”.
Dezoito anos volvidos, o criador deu a obra por concluída. Não que o desejasse, é verdade - na sua ânsia de perfeição, poderia continuar ad eternum a modelá-la, retocá-la, acarinhá-la.
Foi a própria criatura que se assumiu perfeita! Proclamou-se livre, fez uma declaração de intenções e pediu dinheiro emprestado. Mochila às costas, apanhou o comboio, rumou à cidade. E aí se instalou.
Inicialmente, o escultor sofreu tormentos, preocupado com a saúde, a felicidade, o futuro do seu filho…
A passagem do tempo desvendou, porém, ao seu espírito inquieto, a realidade: a obra ganhara autonomia. Por si mesma encontrava soluções, tomava decisões, alegrava-se, chorava, vivia, criava! Criatura que era, tornara-se criador: da sua vida, da sua imagem, do seu percurso, da sua própria obra.
Do espanto à aceitação foi um passo. E actualmente o escultor dedica-se inteiramente a fazer nascer ânforas e sonhos, que o tornam conhecido pelo mundo inteiro.
Não surpreendentemente, o filho é também artista: pinta quadros maravilhosos, que começam a atrair a atenção dos grandes coleccionadores. Não somente o traço, as cores e as texturas, mas também a técnica, revelam uma originalidade que assombra e deleita.

Porém, a sua obra-prima não se encontra exposta nas galerias, nem é objecto de interesse para os especialistas e críticos.Trata-se, com efeito, de uma criatura pequena e activa, com faces rosadas, olhos castanhos e caracóis no cabelo. E o seu nome é Maria.
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Ilona Bastos
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sábado, 30 de agosto de 2008


Compreendo a satisfação dos que pensam ter encontrado, na leitura de textos estrangeiros, na visita a solos estranhos, alguma pista do que é a Verdade.
Mas, no meu íntimo mora a convicção de que tanto a encontrarei a ela – à Verdade – nestas ruas familiares da cidade amada, como em quaisquer outros locais distantes.
Não o fez Fernando Pessoa, sem quase sair de casa?
A Verdade encontra-se tanto nas prelecções elaboradas do sábio de Oxford, como no discurso chão do agricultor alentejano. Tanto nos Campos Elísios ou no Tibete, como nas pedras molhadas da rua das traseiras.
Só é preciso saber vê-la, saber lê-la, saber escutá-la. E se a não encontrarmos aqui, não a encontraremos em mais lado nenhum, com certeza.
Compreendo, também, o encantamento perante a inteligência revelada pelos tais sábios estrangeiros. Nada me é tão agradável como o odor da inteligência: da palavra superiormente dita, do raciocínio lucidamente delineado, do clima supra humano que se gera quando a inteligência mostra os seus traços, exibe as suas formas, revela o seu corpo! Cria-nos a ilusão de que nos encontramos mais próximos da Verdade!
Mas trata-se de mera ilusão – agradável, doce, deliciosa ilusão!

Pequenas centelhas, aqui e ali, inesperadamente, trazem-nos à vida: ontem, imprevisivelmente, a “Janela indiscreta”, de Alfred Hitchcock; hoje, Sonnenblummen”, de Manfred W. Juergens.
Contrariamente ao que muitos pensam, a Arte é essencial à nossa sobrevivência.

Que estranha, mas bela, visão!
As folhas jovens, de um verde pálido (perfeitos, os recortes das suas tenras faces), espalhadas profusamente pelo empedrado negro.
Se não houve vento, se não houve chuva, se o Outono vem longe, como se compreende este cenário belo mas inusitado?

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Ilona Bastos