sábado, 27 de setembro de 2008

Que me perdoem, mas as palavras que agora saboreio não são minhas, são de outros: de Heinrich Boll, nos seus contos irónicos; de Marco Pólo, na narrativa das suas aventurosas viagens. Nestes textos – e noutros, tantos, que por meus olhos pairam, sedutores – encontro consolo para os pensamentos melancólicos que me povoam.


Seja como for, são as imagens, o que neste momento me atrai. É a câmara que me compensa. É o jogo da luz, das cores e das formas, que me prende.
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Ilona Bastos
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No Outono
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Escuta-me! Só sou, verdadeiramente, no Outono.
Só sou, verdadeiramente, quando as folhas
iniciam o processo de amarelecimento nas árvores.
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Começo a ser com as primeiras nuances
a desprenderem-se, brandamente, dos ramos,
a balançarem, quase imperceptivelmente, no ar,
a pousarem, tímidas, a um canto da calçada.
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Cresço no acumular de ousadias douradas pelo passeio.
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Sou nas primeiras manhãs de céu encoberto,
as árvores despojando-se de véus esvoaçantes na aragem...
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Esquece o Verão insensato em que não fui.
Procura-me no Outono.
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Ilona Bastos
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sábado, 20 de setembro de 2008

Seria talvez curioso indagar o motivo por que a minha atenção se detém, agora, nas coisas minúsculas. Por exemplo, porque se foca o meu olhar, deleitado, na sombra da árvore que no alcatrão se estampa e ali dança ao vento - recortadas as elipses dos ramos e das folhas, sobre as quais planam e vão poisar, amachucadas, levemente amareladas, as folhas, elas próprias, num estalido seco e arrastado…


Ainda o Outono não chegou, e já as folhas se espalham pela rua, voejantes.
Hoje debrucei-me, escolhi, apanhei uma série de folhas de diferentes formas e cores, e trouxe-as para fotografar.
Depositei-as em cima da secretária e deixei-as, para ir tratar do almoço.
Quando regressei, um cheiro a clorofila espraiava-se agradavelmente por todo o escritório.
E, a partir daí, foi o prazer de me dedicar às folhas, observá-las cuidadosamente, espiá-las, inquiri-las, surpreendê-las com a lente curiosa da máquina fotográfica.

.Ilona Bastos

Tens razão: é muito bom olhar o quarto e ver a cama feita.
Todo o nosso raciocínio se torna mais linear, acompanhando a superfície longa da colcha bem esticada.
O Feng Shui elege a arrumação e a limpeza como essenciais ao nosso equilíbrio e bem-estar! Agora compreendo isso.
E, no entanto, houve um tempo, na minha juventude, em que tudo isso me era indiferente. Distanciavam-se, os meus pensamentos, do que me cercava. E podia cair o mundo, à minha volta, sem que me distraísse minimamente do livro a cuja leitura me dedicava!
Perguntassem-me “O quarto desarrumado, não te faz impressão?”, e responderia, surpreendida “Que quarto? Que desarrumação?”
Não, assim, hoje em dia, que tudo em meu redor me afecta, quase como por osmose…
Agora, para me concentrar preciso das doses certas de silêncio e ruído, de calma e movimento, de ordem e desordem…
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Ilona Bastos


Franz Schubert (1797-1828) Sonata em Si b maior, No. 21, D 960- I. Molto moderato [1/2] Maria João Pires (piano) França, 1986

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O caminho é este. Porque a vida é isto - absorver a cada novo dia novos factos e sensações. Assim é realmente viver! Rendermo-nos a um novo romance, a um novo blog, a um novo filme, a novas fotografias de uma beleza inesperada, a uma nova música…
Agora é Strong, de Reamonn, que me leva por uma fenda indetectada de mim própria e me transporta a recantos longínquos, desconhecidos, onde me retém, cativa.
Logo, quando percorrer as ruas do costume, as mesmas pedras serão diferentes, as mesmas paredes estarão renovadas, as mesmas pessoas, inovadas, só porque eu não serei a mesma de ontem, mas uma mistura do que fui com tudo o que entretanto absorvi.

Este, o segredo de viver, transformando-nos.
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Ilona Bastos

Em direcção ao futuro…

Olhando a mulher sentada, abatida, diante de si, a advogada pondera se é possível receber-se o mais duro de todos os golpes e continuar-se optimista, reconstruir-se a vida e seguir-se em frente, carregando o conhecimento proveniente da experiência amarga, mas avançando sem azedume, corajosamente, em direcção ao futuro…

Aquela mulher que a encara do outro lado da secretária, de rosto branco crescentemente tingido de manchas avermelhadas à medida que vai contando o drama da infidelidade do marido, é uma mulher bela. Vista na rua, trajando roupas elegantes - o passo enérgico dos quarenta anos, o cabelo pintado de castanho acobreado, ondeado e bem penteado -, parecerá jovem e feliz. E, contudo, encontra-se à beira de perder o emprego, tal a impossibilidade de se concentrar nas funções que lhe estão atribuídas. As filhas culpam-na (ou simplesmente abandonam-na) neste transe que desde há alguns meses se abateu sobre a família. A raiva, o furor, a ira, o desespero, a mágoa, a amargura, assomam-lhe alternada ou concomitantemente à face, enquanto expõe impetuosamente o seu caso.
A advogada concorda com a cliente – por empatia, para lhe fazer a vontade – aceitando que a sua questão é de difícil resolução. Mas para ela não é, na realidade. Trata-se de uma clara situação de adultério, de violação dos deveres conjugais, de incumprimento da obrigação de fidelidade, e a senhora pode muito simplesmente instaurar uma acção de divórcio contra o marido que a atraiçoa. Basta-lhe decidir.
Mas a mulher revolve-se entre dúvidas, fúrias e desamor. Fala e chora. Gesticula muito com as mãos. Os seus dedos, bruscos, cortam o ar e esmagam-se violentamente sobre uma folha de papel maculado por uma escrita vulgar, traçada a esferográfica azul, prova triste e inexorável da sua irremediável fatalidade.
A mulher confessa-se. Não se sente preparada para um processo litigioso. Não encontra, em si, coragem para confrontar o marido. Mas não aguenta, por mais um dia que seja, manter a situação tal como há longos e penosos meses se arrasta. E, então, debate-se, grita e chora…Quer agir e parece-lhe não conseguir sair do mesmo sítio.
Por momentos cala-se, procurando um lenço dentro da carteira. Os gestos tornam-se vagos, quase indolentes, no momento em que limpa as lágrimas e assoa o nariz.
A advogada acompanha-lhe o silêncio. Toma algumas notas, dá-lhe tempo para se recompor. E a cliente dobra cuidadosamente o lenço. Guarda-o sem pressas.
Mas quando levanta a cabeça, a determinação do seu olhar é mais eloquente que as palavras, tão inesperadamente voluntariosas:
- Chegou o momento de dizer basta. Tenho que avançar em direcção ao futuro!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008


Consciente de cada um dos meus passos, de cada um dos meus gestos, inicio a dança do deitar, ao som do silêncio.
Cada acto ganha relevo. Até o de colocar o ponto final na frase. Sempre que a caneta se debruça sobre o papel, ou dele se ergue, uma espécie de clic dourado se produz. E durante a escrita há um roçar contínuo, segmentos de volteados indefiníveis, como um sussurro velado, ou um raspar suave, ameno, que a estética do traçado sobre a superfície branca realça. O tic tac do relógio torna-se nítido, os ruídos próprios da noite cercam este casulo onde os sons controlados, baixos, sons de dança da deita, nos deleitam...
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Ilona Bastos
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terça-feira, 16 de setembro de 2008



Com grinaldas me enfeitei,
Com túlipas me vesti,
Com rosas me perfumei,
Com amor me dei a ti.
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Ilona Bastos
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sábado, 13 de setembro de 2008

Na contra-capa desta edição antiga da Guimarães Editores, que num impulso decidi sacar da estante para reler, diz simplesmente: “Um mestre do conto americano”.
Refere-se, tal apresentação, a William Saroyan, cujas palavras, ainda agora recordadas, me deixam um nó na garganta.
Este conto, “O Riso”, é certamente de mestre! Como o é “Da terra donde eu venho as pessoas são bem-educadas”, que me fez olhar as Harley Davidson com os olhos do sonho, e cuja lembrança me atraiu ontem à noite para a lombada deste livrito em papel amarelado, que dá pelo surpreendente título de “O Índio do Packard”.
Já anteriormente me interessara por Saroyan, aquando da primeira leitura desta colectânea. Sentira-me, então, profundamente tocada pela sua escrita, e procurara conhecer o autor e a sua obra.
Aprendi, na ocasião, que William Saroyan nasceu em Fresno, Califórnia, em 1908, filho de um emigrante arménio que faleceu tinha William apenas dois anos de idade. Tendo passado vários anos em orfanatos, aos dezasseis Saroyan decidiu ser escritor. E, desde então, até falecer, em 1981, criou uma extensa obra literária, na qual se incluem contos (de carácter essencialmente autobiográfico), novelas, romances, peças teatrais, ensaios e memórias.
Pela peça “The Time of Your Life”, foi-lhe atribuído o prémio Pulitzer, em 1939 – galardão que recusou com o fundamento de que “a riqueza não tem o direito de patrocinar a arte”. Aceitou receber, no entanto, o New York Drama Critics Circle Award.

O seu romance mais famoso é “The Human Comedy”, 1942, no qual se incluem algumas das páginas mais tocantes da moderna ficção norte-americana. A sua adaptação para o cinema valeu a William Saroyan o prémio da Academia para a Melhor História (prémio que deu origem ao Óscar de Melhor Roteiro Original).
Relativamente ao seu estilo, pode ler-se, na Biografia de William Saroyan inserta no Authors’ Calendar do site Pegasos:

“(…) as suas histórias celebravam o optimismo perante as atribulações e dificuldades da época da Depressão. Vários trabalhos de Saroyan basearam-se nas suas próprias experiências, embora a sua abordagem dos factos autobiográficos possa ser considerada poética. O seu conselho a um jovem escritor foi o seguinte:” Tenta aprender a respirar profundamente; a saborear realmente a comida, quando comes; a dormir realmente, quando dormes. Tenta ao máximo estar completamente vivo, com todo o teu poder, e quando te rires, ri perdidamente.” Saroyan trabalhou incansavelmente no sentido de aperfeiçoar um certo estilo de prosa, que resultou cheio de entusiasmo pela vida, com pendor impressionista. O estilo tornou-se conhecido como “Saroyanesque”.”

Pesquisando na Internet, encontrei extensa informação sobre este premiado e aclamado autor, que, através das suas histórias, tão humanas e originais, tocou o meu coração. Navegarei por essas páginas e procurarei saber mais sobre William Saroyan. E, claro, não deixarei de procurar as suas obras nas livrarias.
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Ilona Bastos

George Gershwin, Rhapsody in Blue, com Bernstein ao piano

1ª Parte

quinta-feira, 11 de setembro de 2008


Como gostei da leitura de “Deus é Amor”, a primeira carta encíclica de Bento XVI!

Apreciei, em particular, a primeira parte, de cariz filosófico. Aí se faz a distinção entre “ágape” e “eros” (o primeiro, o amor que dá, o segundo, o que almeja receber), para finalmente se afirmar que o Amor envolve equilibradamente ágape e eros.

Aprendi que o agapante é a flor do amor. Do grego “ágape”. E esse nome, que outrora me parecera tão feio, ganhou outro encanto, nova dimensão, uma certa doçura. Olho então os canteiros de agapantes e vejo berços de amor.


Tenho, agora, uma visão muito mais nítida do que deve ser o Amor entre seres irmãos: ágape é perdão, aceitação, tolerância, envoltos em benevolência.
Esse Amor, como o pressinto, não envolve crítica, nem sarcasmo, nem ironia, nem desconfiança, mas uma infinita bondade! Evidentemente, não inclui cólera, nem revolta, nem ciúme ou inveja, antes, incrível sapiência.
Assim, se o meu irmão me magoa, se é mordaz, ofensivo, malévolo, eu perdoo, porque o compreendo, porque vejo para além da sua acção, reconheço o seu íntimo sofrimento, o seu medo, a sua amargura, as suas perdas, as rejeições de que foi alvo… Posso até reconhecer e aceitar-lhe os vícios, os que não consegue vencer, nem se atreve sequer a combater.
Se tudo isto eu vejo, sem crítica e com bondade, não consigo zangar-me com o meu irmão – antes tenho de ser paciente, abraçá-lo, encaminhá-lo no trilho do Bem.
Compreendo este sentimento e sei que consigo alcançá-lo por vezes. No entanto, falta-me a paciência e, se me testam para além do que me parece possível suportar, reajo vivamente.
Dai-me, Deus, a infinita paciência, e a clarividência para conseguir ver, sempre, sempre mais longe!
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Ilona Bastos

terça-feira, 9 de setembro de 2008


A inspiração pode surgir de onde menos a esperamos: da simples folha de árvore, pousada sobre o empedrado escuro do passeio; da lagartixa que nos espreita da fresta do muro; das conversas e desabafos daqueles que por nós passam, tantas vezes alheados de tudo o que não seja o seu próprio mundo…
Daí a necessidade de estarmos atentos ao que acontece em redor. Isto é, se queremos entender a realidade e descrevê-la!
Certamente que a nossa atenção é parcial e direccionada. Se observamos a lagartixa – a sua cabecita esperta, listrada de verde, surgindo da pedra – ignoramos o comboio troante, que avança soberbo sobre a paisagem. Se escutamos as conversas passantes, abstraímos da flor, que o vento arrancou, e veio pousar, desconsolada, no chão.
Mas, que fazer, se não podemos acompanhar simultaneamente tudo o que nos rodeia?


Pétala macia
Que no regato flutua
É veleiro audaz.

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Eis a Primavera!
Botões florescem no vaso
Pintado no quadro

*

Estranha sensação –
Viver a um só tempo
Inverno e Verão!

Ilona Bastos