terça-feira, 30 de setembro de 2008

O RISO


Semblante sério,
Cabelo grisalho,
Barba branca,
Olhar educado,
Óculos de intelectual,
Idade madura.
Debruçado sobre o livro
As palavras pronuncia
Em tom recatado e poético .
E, quando menos se espera,
Arqueiam-se os lábios em sorriso,
Os sons desdobram-se em riso,
Abrem as asas e voam.
Escancara-se a boca, feliz,
Solta-se a gargalhada,
Uma, duas, três vezes,
Pela sala correndo veloz,
Quase risada feroz,
Em celebração da vida.
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Ilona Bastos

Lisboa, 20 de Setembro de 2004

Beautiful video by Esceha57


Ideia de Vida

Em redor, um silêncio manchado,
pincelado aqui e ali
de portas que se abrem
e são bruscamente arremessadas,
de passos, de falas, de automóveis
que rodam e guincham lá fora...

Através dos vidros,
subtil, quase incolor,
quase transparente,
o balancear das folhas
que as árvores agitam
suavemente...

Mas aqui, nesta sala,
mal soam ruídos ou gestos,
senão o meu roçar do lápis
sobre o papel...

O espaço preenche as quatro paredes
praticamente intacto
de sons e movimentos.
Imóveis, as mesas e cadeiras recortam-se
lineares, elegantes e plenas
das três dimensões.

A porta entreaberta,
a janela, as persianas,
na parede um telefone que não toca,
acentuam esta ideia de espaço,de existência, de vida!
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Ilona Bastos

domingo, 28 de setembro de 2008

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Pela música viajo no tempo e no espaço.
No dedilhar desta guitarra transporto-me para a Andaluzia,
refresco-me à sombra de verdes ramos,
ao som cristalino de uma fonte,
num encantador pátio sevilhano.
No repenicar saltitante desta flauta visito os bailes
da Idade Média, da antiga Europa.
Neste coro sublime percorro os claustros de um mosteiro,
atenta ao esvoaçar ligeiro das borboletas brancas
sobre os canteiros, no jardim.
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Ilona Bastos
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Bach - Brandenburg Concertos No.3 - i: Allegro Moderato

Bwv1048, Freiburg Baroque Orchestra - Video by Bacholoji

sábado, 27 de setembro de 2008

Que me perdoem, mas as palavras que agora saboreio não são minhas, são de outros: de Heinrich Boll, nos seus contos irónicos; de Marco Pólo, na narrativa das suas aventurosas viagens. Nestes textos – e noutros, tantos, que por meus olhos pairam, sedutores – encontro consolo para os pensamentos melancólicos que me povoam.


Seja como for, são as imagens, o que neste momento me atrai. É a câmara que me compensa. É o jogo da luz, das cores e das formas, que me prende.
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Ilona Bastos
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No Outono
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Escuta-me! Só sou, verdadeiramente, no Outono.
Só sou, verdadeiramente, quando as folhas
iniciam o processo de amarelecimento nas árvores.
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Começo a ser com as primeiras nuances
a desprenderem-se, brandamente, dos ramos,
a balançarem, quase imperceptivelmente, no ar,
a pousarem, tímidas, a um canto da calçada.
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Cresço no acumular de ousadias douradas pelo passeio.
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Sou nas primeiras manhãs de céu encoberto,
as árvores despojando-se de véus esvoaçantes na aragem...
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Esquece o Verão insensato em que não fui.
Procura-me no Outono.
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Ilona Bastos
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sábado, 20 de setembro de 2008

Seria talvez curioso indagar o motivo por que a minha atenção se detém, agora, nas coisas minúsculas. Por exemplo, porque se foca o meu olhar, deleitado, na sombra da árvore que no alcatrão se estampa e ali dança ao vento - recortadas as elipses dos ramos e das folhas, sobre as quais planam e vão poisar, amachucadas, levemente amareladas, as folhas, elas próprias, num estalido seco e arrastado…


Ainda o Outono não chegou, e já as folhas se espalham pela rua, voejantes.
Hoje debrucei-me, escolhi, apanhei uma série de folhas de diferentes formas e cores, e trouxe-as para fotografar.
Depositei-as em cima da secretária e deixei-as, para ir tratar do almoço.
Quando regressei, um cheiro a clorofila espraiava-se agradavelmente por todo o escritório.
E, a partir daí, foi o prazer de me dedicar às folhas, observá-las cuidadosamente, espiá-las, inquiri-las, surpreendê-las com a lente curiosa da máquina fotográfica.

.Ilona Bastos

Tens razão: é muito bom olhar o quarto e ver a cama feita.
Todo o nosso raciocínio se torna mais linear, acompanhando a superfície longa da colcha bem esticada.
O Feng Shui elege a arrumação e a limpeza como essenciais ao nosso equilíbrio e bem-estar! Agora compreendo isso.
E, no entanto, houve um tempo, na minha juventude, em que tudo isso me era indiferente. Distanciavam-se, os meus pensamentos, do que me cercava. E podia cair o mundo, à minha volta, sem que me distraísse minimamente do livro a cuja leitura me dedicava!
Perguntassem-me “O quarto desarrumado, não te faz impressão?”, e responderia, surpreendida “Que quarto? Que desarrumação?”
Não, assim, hoje em dia, que tudo em meu redor me afecta, quase como por osmose…
Agora, para me concentrar preciso das doses certas de silêncio e ruído, de calma e movimento, de ordem e desordem…
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Ilona Bastos


Franz Schubert (1797-1828) Sonata em Si b maior, No. 21, D 960- I. Molto moderato [1/2] Maria João Pires (piano) França, 1986

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O caminho é este. Porque a vida é isto - absorver a cada novo dia novos factos e sensações. Assim é realmente viver! Rendermo-nos a um novo romance, a um novo blog, a um novo filme, a novas fotografias de uma beleza inesperada, a uma nova música…
Agora é Strong, de Reamonn, que me leva por uma fenda indetectada de mim própria e me transporta a recantos longínquos, desconhecidos, onde me retém, cativa.
Logo, quando percorrer as ruas do costume, as mesmas pedras serão diferentes, as mesmas paredes estarão renovadas, as mesmas pessoas, inovadas, só porque eu não serei a mesma de ontem, mas uma mistura do que fui com tudo o que entretanto absorvi.

Este, o segredo de viver, transformando-nos.
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Ilona Bastos

Em direcção ao futuro…

Olhando a mulher sentada, abatida, diante de si, a advogada pondera se é possível receber-se o mais duro de todos os golpes e continuar-se optimista, reconstruir-se a vida e seguir-se em frente, carregando o conhecimento proveniente da experiência amarga, mas avançando sem azedume, corajosamente, em direcção ao futuro…

Aquela mulher que a encara do outro lado da secretária, de rosto branco crescentemente tingido de manchas avermelhadas à medida que vai contando o drama da infidelidade do marido, é uma mulher bela. Vista na rua, trajando roupas elegantes - o passo enérgico dos quarenta anos, o cabelo pintado de castanho acobreado, ondeado e bem penteado -, parecerá jovem e feliz. E, contudo, encontra-se à beira de perder o emprego, tal a impossibilidade de se concentrar nas funções que lhe estão atribuídas. As filhas culpam-na (ou simplesmente abandonam-na) neste transe que desde há alguns meses se abateu sobre a família. A raiva, o furor, a ira, o desespero, a mágoa, a amargura, assomam-lhe alternada ou concomitantemente à face, enquanto expõe impetuosamente o seu caso.
A advogada concorda com a cliente – por empatia, para lhe fazer a vontade – aceitando que a sua questão é de difícil resolução. Mas para ela não é, na realidade. Trata-se de uma clara situação de adultério, de violação dos deveres conjugais, de incumprimento da obrigação de fidelidade, e a senhora pode muito simplesmente instaurar uma acção de divórcio contra o marido que a atraiçoa. Basta-lhe decidir.
Mas a mulher revolve-se entre dúvidas, fúrias e desamor. Fala e chora. Gesticula muito com as mãos. Os seus dedos, bruscos, cortam o ar e esmagam-se violentamente sobre uma folha de papel maculado por uma escrita vulgar, traçada a esferográfica azul, prova triste e inexorável da sua irremediável fatalidade.
A mulher confessa-se. Não se sente preparada para um processo litigioso. Não encontra, em si, coragem para confrontar o marido. Mas não aguenta, por mais um dia que seja, manter a situação tal como há longos e penosos meses se arrasta. E, então, debate-se, grita e chora…Quer agir e parece-lhe não conseguir sair do mesmo sítio.
Por momentos cala-se, procurando um lenço dentro da carteira. Os gestos tornam-se vagos, quase indolentes, no momento em que limpa as lágrimas e assoa o nariz.
A advogada acompanha-lhe o silêncio. Toma algumas notas, dá-lhe tempo para se recompor. E a cliente dobra cuidadosamente o lenço. Guarda-o sem pressas.
Mas quando levanta a cabeça, a determinação do seu olhar é mais eloquente que as palavras, tão inesperadamente voluntariosas:
- Chegou o momento de dizer basta. Tenho que avançar em direcção ao futuro!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008


Consciente de cada um dos meus passos, de cada um dos meus gestos, inicio a dança do deitar, ao som do silêncio.
Cada acto ganha relevo. Até o de colocar o ponto final na frase. Sempre que a caneta se debruça sobre o papel, ou dele se ergue, uma espécie de clic dourado se produz. E durante a escrita há um roçar contínuo, segmentos de volteados indefiníveis, como um sussurro velado, ou um raspar suave, ameno, que a estética do traçado sobre a superfície branca realça. O tic tac do relógio torna-se nítido, os ruídos próprios da noite cercam este casulo onde os sons controlados, baixos, sons de dança da deita, nos deleitam...
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Ilona Bastos
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terça-feira, 16 de setembro de 2008



Com grinaldas me enfeitei,
Com túlipas me vesti,
Com rosas me perfumei,
Com amor me dei a ti.
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Ilona Bastos
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