segunda-feira, 13 de outubro de 2008


É preciso que os pensamentos voem pelo meu cérebro, para que tente capturá-los, registá-los como numa película fotográfica, e depois reproduzi-los, escrevendo, sobre o papel.
Mas a escrita será então como um desenho à vista (titubeante, indeciso, ansioso, cheio de boa vontade, contudo, imperfeito).
Como lograr reproduzir o voo magnífico da gaivota? Algum retrato, por melhor que seja, atinge a monumentalidade das suas asas abertas, brancas, brilhantes ao sol da tarde, planando sobre o mar, volteando sobre a terra, numa tridimensionalidade palpável que nos arrebata?
Pois bem, também me sinto incapaz de verbalizar esses vislumbres do conhecimento, da verdade, que por vezes me ocorrem, mas logo se evolam, deixando-me deslumbrada, mas incompleta.
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Ilona Bastos
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Ravel's Bolero by the orchestra directed by Andre Rieu. Video by consejomunicipal

quinta-feira, 9 de outubro de 2008


Outonal

É o clamor difuso das folhas das árvores
É a verdura que emoldura as pedras da calçada
É o voar dos toldos brancos na tenda do jardim
É o céu em tons de cinzento que súbito chora
É o aroma silvestre da terra e da relva molhada
É o vento que empurra gabardinas e guarda-chuvas
É o assobio que entra pelas frinchas das janelas
É a corrida das gotas de água no pára-brisas
É o aguaceiro que pára, espantado, e sorri
É o reflexo agitado dos ramos nas poças de chuva
É o fumo das castanhas assadas à saída do cinema
É a nuvem dourada das folhas varridas e amontoadas
É o florir inocente das violetas no vaso da minha sala.
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Ilona Bastos
Lisboa, 20 de Outubro de 2004

quarta-feira, 8 de outubro de 2008


Fauna & Flora: As Flores, as Folhas e o Vento
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As flores são lindas!
Reguei-as há pouco e balançam na aragem.
Não as plantei, nem sei como se chamam, embora lhes reconheça os traços, o tom róseo das pétalas, o amarelo dos estames.
Não são bastardas nem párias. São flores de jardim, ou pelo menos de vasos bem guardados e cuidados.
Aqui, à varanda, não sei como chegaram. Mas nesta floreira já nada estranho. Dela surgiram e cresceram as mais belas e variadas plantas, cuja origem desconheço.
Antes assim!
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Na marquise, surpreendentemente, voltam a nascer as orquídeas – já a haste se eleva com naturalidade para a luz da manhã! E neste súbito assomo de vida (desistira já de ver brotar orquídeas destes bolbos discretos…) leio o sinal do renascimento, e fico feliz!
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Na rua, é o vento…
Brando, fresco vento, que leve levanta o meu cabelo e voa.
Vai o pensamento na suave carícia deste vento verde que as árvores agita…
Vento brando, fresco, que é brisa de Outono.
Ali se distrai, nas folhas em dança pela calçada.
Vento que é dourado, vento que é castanho, vento que não estranho, pois meu coração habita.

Ilona Bastos
Lisboa, 18 de Outubro de 2007
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Rimsky-Korsakov - Scheherazade (4/5)

Moscow Symphony - Arthur Arnold, conductor - Live from The Hague

terça-feira, 7 de outubro de 2008


Primeira Chuva de Outono
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. Na rua em granito, as pedras brilhantes
e as folhas, em suaves descidas
das árvores molhadas,
amarelas, castanhas, douradas…

Nos veios de terra já surgem, pujantes
tão tenras, as plantas agora nascidas
são verdes, bordadas,
vidas renovadas.

Mas como?
Se ontem mesmo as não vi!
Foi a chuva que as trouxe, de presente, para ti.


Ilona Bastos
Lisboa, 7 de Outubro de 2008


Kiss the Rain, by Yiruma


Incompletude
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Sabes de um dia de céu azul,
atapetado de amarelas flores
brilhantes sobre a relva,
e, no mar, ondas revoltas de espuma
a desvendar brancura?
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E as cores do sonho, que as não vi?
Da mais pura felicidade e da vida?
Incompletude... nesse dia de céu azul
flores e mar.
Eu estava lá. Nesse dia.
Faltavas tu...
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Ilona Bastos
Cascais, 1984

domingo, 5 de outubro de 2008


A Vinha e a Esperança
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Agora, é a videira que se enche de parras e de uvas,
que cresce, afoita, num reboliço de gavinhas,
limbos, pecíolos, bainhas, e que se expande sobre o muro,
galgando-o magnificamente, desafiando a rua,
debruçando-se, viçosa, com seus cachos caprichosos,
sobre os carros, as carrinhas e os apressados peões.
Nada teme esta videira citadina, tão tranquilamente verde,
tão essencialmente terra, água e sol, tão fiel a si mesma!
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Pudéssemos nós, humanos, conhecer a nossa natureza,
Interiorizá-la, assumi-la, vivê-la, expressá-la,
independentemente do solo onde nascemos
e dos obstáculos que a vida nos coloca,
indiferentemente das modas e passageiras seduções.
Seríamos o Homem na sua identidade perfeita,
íntegro defensor do Amor, da Paz universal e do Bem.
Tão natural nos seria sermos humanos como à vinha é ser vinha.
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Na vinha encontro a plenitude, a beleza do ser.
Enquanto os homens continuarem a plantar vinhas na cidade,
alguma esperança haverá para o Mundo!
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Ilona Bastos
Lisboa, 13 de Setembro de 2004


. The Piano - Amazing Short

Animation by Aidan Gibbons; Music by Guillaume Yann Tiersen 'Comptine D'une Autre Ete' from the Amelie OST

Machado de Assis

"E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a vila ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser postos na rua.
—Todos?
—Todos.
—É impossível; alguns sim, mas todos...
—Todos. Assim o disse ele no ofício que mandou hoje de manhã à Câmara.
De fato o alienista oficiara à Câmara expondo: — 1º que verificara das estatísticas da vila e da Casa Verde que quatro quintos da população estavam aposentados naquele estabelecimento; 2° que esta deslocação de população levara-o a examinar os fundamentos da sua teoria das moléstias cerebrais, teoria que excluía da razão todos os casos em que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito e absoluto; 3° que, desse exame e do fato estatístico, resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto, que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades e como hipóteses patológicas todos os casos em que aquele equilíbrio fosse ininterrupto; 4º que à vista disso declarava à Câmara que ia dar liberdade aos reclusos da Casa Verde e agasalhar nela as pessoas que se achassem nas condições agora expostas; 5° que, tratando de descobrir a verdade científica, não se pouparia a esforços de toda a natureza, esperando da Câmara igual dedicação; 6º que restituía à Câmara e aos particulares a soma do estipêndio recebido para alojamento dos supostos loucos, descontada a parte efetivamente gasta com a alimentação, roupa, etc.; o que a Câmara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde.
(...) Ao cabo de cinco meses estavam alojadas umas dezoito pessoas; mas Simão Bacamarte não afrouxava; ia de rua em rua, de casa em casa, espreitando, interrogando, estudando; e quando colhia um enfermo levava-o com a mesma alegria com que outrora os arrebanhava às dúzias. Essa mesma desproporção confirmava a teoria nova; achara-se enfim a verdadeira patologia cerebral."

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Machado de Assis,
O Alienista, conto do livro Papéis Avulsos

sábado, 4 de outubro de 2008

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Comunhão com a Natureza
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Nesta dança com as árvores ao vento,
neste embalo dos ramos
que se agitam em verdes labaredas,
nesta sinfonia tocada por entre as folhas,
nesta volúpia dos cabelos sacudidos pela brisa,
neste fruir do mesmo ritmo
que movimenta as copas e os canteiros,
sinto intensamente o prazer
da comunhão com a Natureza!
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Ilona Bastos
Lisboa, 2007

sexta-feira, 3 de outubro de 2008


A Entrevista
Claire
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Ouve! Estás interessado em saber os pormenores da minha aventura desta manhã? Compreendo perfeitamente a tua incontida ânsia, mas por favor não saltes na cadeira! Vou contar-te tudo o que se passou…
Depois de te telefonar, logo cedo, tomei o pequeno-almoço, vesti a gabardina e saí para a rua. Ia preocupadíssima com a entrevista, como deves calcular. Mal dormira durante a noite, revendo mentalmente os pontos altos do meu curriculum e ensaiando respostas inteligentes para as perguntas que eventualmente me pudessem colocar. Agora, sobre a hora, sentia-me confusa e assustada.
Caminhei pelo passeio, um pouco atabalhoadamente, e tentei deter dois ou três táxis, que simplesmente ignoraram os meus apelos. Evidentemente, principiei a entrar em pânico quando percebi que a antecedência, tão minuciosamente calculada, com que deveria partir para alcançar pontualmente o meu destino, começava gradualmente a esgotar-se. E, para cúmulo, o trânsito estava completamente engarrafado!
Desatei, literalmente, a correr, o que se mostrou pouco eficaz. Ao fim de alguns metros tive que desistir, esbaforida, derreada. Voltei a andar, rapidamente. Mas ao passar pela montra de um stand de automóveis vislumbrei, num repente, a minha imagem, e tomei consciência de quão ridícula parecia, no esforço de ganhar velocidade, inclinando-me — cabeça, pescoço e tronco —, obstinadamente, para a frente, como se dessa forma pudesse chegar mais depressa a lugar algum.
Ouvi, então, uma buzina forte, a que se seguiu uma completa orquestra de outras buzinas, igualmente desagradáveis e estridentes. Surgiam já gritos e impropérios, quando recomeçou a chover, desta vez torrencialmente, com rajadas de granizo a bombardear a calçada.
Abriguei-me na porta de um edifício, esperando uma aberta para retomar o caminho. Pessoas passavam a correr, por vezes cobrindo a cabeça com jornais ou pastas. A rua e os automóveis tinham-se tornado cinzentos, de contornos esbatidos, enquanto as árvores, ao fundo da rua, por contraste, sobressaíam brilhantes, assumindo novo colorido e perspectiva. Isso pareceu-me ilógico e, distraída, discorrendo sobre o assunto, meti-me ao temporal, debaixo do chapéu-de-chuva.
Entregue a tais pensamentos, atravessei a rua e novamente me deixei surpreender pelo reflexo da minha imagem na montra do stand de automóveis. Parei e, sem perceber como, dei comigo a pensar: “Que estranho é ser eu!”
Agradou-me a ideia, sorri e recomecei a andar. Agradava-me também, caminhar, ali, naquele instante.
“Que estranho é ser eu!”, repeti, saboreando o pensamento.
Era estranho ser eu, e era ainda mais estranha aquela frase que eu não conseguia esquecer, nem explicar, por resultar de uma sensação súbita, do abandonar-me a mim própria, durante momentos, para me encarar da terra dos outros. E, então, assim avistada, eu era estranha, qual personagem de um filme: uma criatura esbranquiçada, envolta numa enorme gabardina azul, entrando e saindo de edifícios anónimos, semelhantes no seu aspecto e estrutura, mas recheados de diferentes gentes; bebendo-lhes os sentimentos e as imagens, para depressa os esquecer numa passada larga pela calçada, debaixo de um chapéu-de-chuva, rodeada pelo abraço de uma cortina protectora de gotas potentes e projécteis de gelo!
Alguns quarteirões adiante, sustive o passo e voltei a encontrar-me na vitrina de uma pastelaria. Novamente sorri.
“É estranho ser eu!”, insisti, espantada por com esse pensamento me sentir mais eu do que nunca.
Dentro da ampla gabardina azul que se me enrodilhava nas calças também azuis, húmida da cabeça aos pés, encontrei o coração e os olhos frescos, livres, ferreamente decididos.
Com surpreendente firmeza, com uma vontade que me pareceu inabalável, avancei solidamente pela calçada.
Invadi o prédio imponente, ignorando o rasto de água que me jorrava do chapéu-de-chuva e do vestuário. Galguei os degraus, agrupados em lanços, desprezando os patamares, que não levavam a lado nenhum. Empurrei sem hesitar a porta de vidro, e à empregada da recepção anunciei-me, importante, para a entrevista aprazada. Precedi-a no corredor, até ao gabinete pequeno com uma mesa de vidro e um júri de três cavalheiros. Cumprimentei-os, sobranceira, mas amabilizei a conversa com pancadinhas nas costas. Expliquei-lhes ao que ia e interroguei-os.
Inquiri um a um, com calma estudada e simpática atenção. Ao primeiro, de óculos, pálido e de feição miúda, porque tímido e retraído, para não o assustar, indaguei das características do emprego que tinha para me oferecer. Ao segundo, mais rosado e bem nutrido, cabelo a escassear, sugeri, com simpatia, que dissertasse sobre o ordenado e as regalias sociais envolvidas. Ao terceiro, bonacheirão, de risíveis patilhas alouradas, confiei banalidades, a troco de detalhada descrição do gabinete amplo e confortável que me seria destinado.
No final, perante tão evidente ansiedade, guardei silêncio por apenas dois minutos. E, então, para me portar à minha altura, ergui-me, cumprimentei-os e anunciei:
“Muito bem, meus senhores, convenceram-me! Aceito o lugar. Estão contentes?”. Ainda acrescentei, com bonomia: “Afinal não havia razão para tanto sobressalto, não é verdade?”
Já na rua, percebi que parara de chover e abanei ligeiramente o guarda-chuva, para o aliviar de alguma água. Desabotoei dois botões da gabardina e retomei o meu caminho. Olhei-me, benévola, satisfeita comigo própria, em paz.
Bendito o meu olhar complacente, que, conivente, me aprova, me afaga e me inunda desta estranha felicidade!

Ilona Bastos

Pierre Benoit

"Tendo tirado à sorte as diversas partes da Terra, os deuses obtiveram, uns uma parte maior e outros uma parte mais pequena. Foi assim que Neptuno, tendo recebido como partilha a Atlântida, colocou os filhos que tivera com uma mortal numa parte da ilha."
"(...) - Deve compreender - continuou Le Mesge, mais calmo - o erro daqueles que, acreditando na Atlântida, quiseram explicar o cataclismo, em que a maravilhosa ilha se submergiu completamente. Todos acreditaram nisso. Mas a verdade é que não houve uma imersão. Pelo contrário, deu-se uma emersão. Novas terras emergiram do centro atlântico. Quer dizer, o deserto substituiu o mar."
"(...) Mas foi encontrada um mulher que pudesse restabelecer, em proveito do seu sexo, a grande lei hegeliana das hesitações. Separada do mundo ariano pela formidável precaução de Neptuno, ela atrai a si os homens mais novos e corajosos: O seu corpo é condescendente, mas a sua alma é inexorável. Desses jovens audaciosos, ela toma o mais que eles podem dar. Oferece-lhes o corpo, mas domina a sua alma. É a primeira soberana que jamais foi escrava, um só momento, do amor".
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Pierre Benoit, A Atlântida, Editorial Minerva
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Tratei das floreiras do meu jardim.
Recolhi as flores murchas,
espalhei adubo orgânico, feito de folhas,
varri e limpei.
Mas não arranquei os trevos,
que nascem em tufos por todo o lado.
Se destruir os trevos, como posso encontrar
o trevo de quatro folhas que me trará a Sorte?
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PART 2 - AUTUMN - HERFST

Second part of the beautiful video by Esceha57

É no silêncio que germinam os mais belos sons.

Ilona Bastos
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quarta-feira, 1 de outubro de 2008


OUTUBRO


Súbita, inesperadamente,
Passo a linha de fronteira
E penetro em Outubro,
O mês sagrado.
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Ouso sorrir, agora,
Porque chegou Outubro.
Posso largar a bagagem
E acomodar-me bem,
Porque voltei a casa.
As ruas com seus adereços
De prédios antigos,
Sinais luminosos
E árvores douradas,
Tornam-se ternas e familiares,
Porque estamos em Outubro.
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O cair da noite refresca-nos
E convida ao repouso,
Porque estamos em Outubro.
As letras, nos livros, os traços,
No imaculado branco dos cadernos,
Ganham novo brilho,
Porque estamos em Outubro.
Os nossos pensamentos são leves
E a melancolia carinhosa,
Porque estamos em Outubro
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A televisão mostra programas
De uma inteligência envolvente,
Porque estamos em Outubro.
As montras das lojas, na cidade,
Com a sua colecção de roupa quente,
Atraem-me com sonhos e acenos,
Porque estamos em Outubro.
A música soa viva, harmoniosa,
Porque estamos em Outubro,
E o vento sopra confidências.

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Porque estamos em Outubro,
O castanho e o verde da Natureza
Acariciam-nos o olhar.
Porque estamos em Outubro,
A chuva, quando vier, se vier,
Será festiva e doce.
Porque estamos em Outubro,
A calçada estenderá, diante de mim,
Um espantoso tapete de folhas
Em todos os tons de amarelo,
De vermelho, de dourado,
E convidar-me-á a sair,
A avançar, a criar, a viver…
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Só porque estamos em Outubro!
..
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Ilona Bastos
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Lisboa, 1 de Outubro de 2005
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Martha Argerich plays Chopin's Nocturne in D-flat major, Op. 27 No. 2Live - April 13, 1972


Beautiful video by kimolerik