"Demo-nos conta, algum tempo mais tarde, de que somos feitos da mesma matéria que as estrelas. São os astrofísicos que o afirmam. Todas as formas que vê à nossa volta, sejam elas sólidas ou gasosas, são constituídas pelos mesmos átomos de base, pelas mesmas particulas que nós.
- Somos feitos como as estrelas?
- Somos feitos delas, por elas, e talvez pudéssemos estudá-las em nós. Já não somos a medida do mundo, somos o mundo."
Jean-Claude Carrière, Entrevista a Einstein
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Ravissante... .
O JARDIM
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. Ontem escrevi poemas Nos canteiros do meu jardim. Animada, afogueada, em alvoroço, Abraçada a vasos, folhas e pétalas, Inspirada ao aspirar o aroma silvestre Das flores, das plantas, da seiva, Declinei o lápis sedutor e o papel, Tomei a terra, o ancinho e a colher, Decidida, quebrei ressequidas ramagens, Exaltada, daninhas ervas arranquei, Ao solo me lancei, confiante, e mergulhei Minhas mãos, na terra fértil e gentil. Tirei pedras e raízes, desenhei linhas De promissores bolbos, enterrados Sob o húmus revolvido e alisado. Sementes lancei, em métrica cuidada. Azáleas rimei com admiráveis ciclamens. Margaridas de fogosas vestes combinei Com amarelos narcisos em sono recatado. Confortei o cândido limoeiro e ergui, por fim, Para o céu, o corpo cansado e feliz, As faces coradas, o cabelo em desalinho, Acompanhando a aragem e o sol alaranjado – Chave de ouro de outonal entardecer – No caminho luminoso do Poente. , ,
Il
Ilona Bastos Lisboa, 28 de Setembro de 2004
domingo, 26 de outubro de 2008
Ese eu largasse o meu olhar?
E se o deixasse percorrer o mar imenso,
Lançar-se, livre, no céu infinito,
Cavalgar pela planície, até ao horizonte?
E se o meu olhar tudo abarcasse
(A humanidade, a fauna, a flora!)
E nele guardasse toda a criação?
E se o meu olhar fosse microscópico
E distinguisse o grão, a gota, a bactéria?
E se o meu olhar fosse macroscópico,
E nele coubessem todas as estrelas e as galáxias?
E se visse o invisível, e, para si, as ondas,
Os aromas e os sons mostrassem cores
E formas dos outros desconhecidas?
E se eu seguisse o meu olhar, e com ele...
Nadasse os oceanos, tal um golfinho,
Voasse pelo azul, como gaivota,
Ganhasse velocidade sobre a pradaria?
(Cavalo selvagem, outrora detido, agora liberto…)
E se tudo soubesse do que via
E a razão de tudo se revelasse?
E se atingisse a molécula, o átomo, o quark,
A mais ínfima partícula, e entendesse
Afinal, do que é construído o Universo?
E se o meu olhar e eu fossemos o mais longe
que é possível ir, e regressássemos
o mais depressa que é possível vir, para contar?
Que encontraríamos e saberíamos,
Que contaríamos, eu e o meu olhar?
Ilona Bastos
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Wild Horses (Ennio Morricone For a few dollars more)
" Vi-o rumar em direcção ao Nishin Maru e, quando chegou lá, os tripulantes começaram a atirar-lhe lixo para cima, latas e desperdícios, que o Pedro lhes devolvia sem conseguir atingi-los. Depois começaram a fustigá-lo com um jorro de água. Os japoneses riam enquanto o inundavam, e o Pedro concentrava-se em manter o escaler a flutuar.
"Eu não sabia, não era capaz de imaginar o que é que ele pretendia ao manter-se colado ao Nishin Maru, enquanto os tripulantes até lhe urinavam para cima, e o que depois aconteceu vai o senhor ver amanhã, mas seria estúpido não lho contar agora.
"A um dado momento, quando mais duas mangueiras se tinham juntado à brincadeira e o Pedro já quase não conseguia manter-se a flutuar, emergiu junto ao escaler o dorso de uma baleia calderón, que, com todo o cuidado, empurrou o Pedro e a sua embarcação até os afastar do navio. Então, obedecendo a uma chamada que nenhum outro humano ouviu no mar, um chamamento tão agudo que estremecia os tímpanos, trinta, cinquenta, cem, uma multidão de baleias e de golfinhos nadaram velozmente até quase tocarem a costa, para regressarem com maior velocidade ainda e chocarem as cabeças contra o barco.
"Sem lhes importar o facto de que em cada ataque muitos morriam de cabeças rebentadas, os cetáceos repetiram os ataques até que o Nishi Maru, empurrado contra a costa, correu o risco de encalhar. Levaram-no para muito perto dos recifes e havia pânico a bordo."
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Luís Sepúlveda, Mundo do Fim do Mundo
Os Balanços do Vendaval
Desfazem-se as árvores No vendaval. Folhas, galhos e ramos Rebolam pela rua Em abandono.
Trémulas, as folhas Vibram desgovernadas, E à nova rajada se debatem, Agitam e voam.
As flores tilintam As corolas coloridas, Despenteadas, desfolhadas, Desprotegidas.
Os humanos vultos inclinam-se, Às roupas e ao corpo abraçados, Cabelos em labareda, Contra o vento.
E avança, plúmbeo, sobre a terra O imenso manto das nuvens.
Ah! As minhas flores! As que plantei com tamanha devoção! Aguentarão os balanços do vendaval?
Tudo se resume a um olhar sobre o mundo e ao desvendar das maravilhas que encerra. Já em criança o fazia: colhia flores, apanhava pedrinhas, folhas, conchinhas, e trazia-as para casa. Acabavam, depois, por secar entre as folhas de um livro, perder-se ou ir parar ao cesto dos papéis, essas jóias tão acarinhadas. Agora não! Encontrei um cofre, que é este blog. Aqui coloco as folhas e as flores que trouxe da rua. Aqui os guardo, expondo-os aos olhos do mundo, os vídeos que me comoveram, as músicas que me deliciaram, os excertos de livros que se me tornaram inesquecíveis. Eis, portanto, as minhas jóias - o meu cofre!
Encanta-me, claro, a folha amarelecida presa na orelha do cocker spaniel que me olha, inocente, sério, tão embrenhado no seu papel de cão felpudo e focinhudo, de longas orelhas e pêlo dourado! O seu olhar… e o seu olhar… tão ponderado e prudente.
O que era aquele olhar?
Era o de um ser inelutavelmente destruído?
Ou de alguém, ainda há pouco despertado de um pesadelo,
que se concilia lentamente com a vida? Perguntou-me: “É para nós?” Acenei que sim e estendi os braços. Deu a volta ao balcão e recebeu os sacos. Vigiei-lhe o olhar, que pareceu tornar-se mais vivo e brilhante. Agradeceu. Não sei que lhe disse então (sempre vigilante ao seu olhar). O que era aquele olhar?
Seria o de alguém em luta contra os seres destruidores de almas? Seria o de quem, em segredo, pactua ainda com demónios, perpetuando-lhes o apetite devorador? “Seja como for”, pensei, “Sempre ajudei alguém.” Mas o segredo daquele olhar perseguiu-me pela manhã.
As suas palavras, os seus gestos, o meneio de cabeça ao responder, o estender dos braços, tudo se tornou irrelevante na minha memória,
tudo reconduzido àquele olhar...
(Terei receado ver, naquele, um outro olhar?)
Penso, agora, naquele olhar, com esperança.
Talvez o céu, esfusiantemente azul,
ou o sol, que insiste em brilhar e aquecer,
lhe tragam o ânimo para vencer.
Quem sabe a fé incendeie aquele olhar...
Quem sabe?
Que dizer, que fazer, que pensar, do teu olhar brilhante, transbordante de riso?
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Ilona Bastos
sábado, 18 de outubro de 2008
Platão
"Por causa disso - continuei -, as pessoas de bem não querem governar nem pelas riquezas nem pela honra, porque não querem ser tratadas de mercenários, exigindo abertamente o salário da sua função, nem de ladrões, tirando dessa função lucros secretos; também não trabalham pela honra: é que não são ambiciosos. Portanto, é preciso que haja obrigação e castigo para que aceitem governar - é por isso que tomar o poder de livre vontade, sem que a necessidade a isso obrigue, pode ser considerada vergonha - e o maior castigo consiste em ser governado por alguém ainda pior do que nós, quando não queremos ser nós a governar; com este medo me parecem agir, quando governam, as pessoas honradas e então vão para o poder não como para um bem, para o gozarem, mas como para uma tarefa necessária, que não podem confiar a melhores que elas nem a iguais. Se aparecesse uma cidade de homens bons, é provável que nela se lutasse para escapar ao poder, como agora se luta para o obter, e tornar-se-ia evidente que o governante autêntico não é feito, na realidade, para procurar a sua própria vantagem, mas a do governado; de modo que todo o homem sensato preferiria ser obrigado por outro do que preocupar-se em obrigar outros."
Platão, A República, Publicações Europa-América
A CHUVA
Este som, leve e metálico, Da chuva que bate nos vidros, Acaba por ser gentil… Mesmo quando o seu toque se acelera, Ou se retarda em singulares gotas, Ou quando o vento sopra, em sonantes rajadas, Ou, sonolento, se esparsa, quase se apaga, Na inércia cinza da paisagem.
É fresca, esta chuva! Como a ouço, talvez brejeira, Não indelicada… Deixou exultantes as flores vermelhas Daquela exótica planta do jardim fronteiro, De que não conheço o nome nem o apelido. Garota, foge ao ritmo agora, insistente, Esparrinha o tecto da marquise, desafiante…
As nuvens escuras avançam com rapidez!
Sente-se a chuva protegida, e precipita-se Com violência implícita, Tão distante da delicadeza inicial. Rufia, já não soa a música, Como anunciara à chegada, Agreste, não poupa os tons, as linhas, Os traços, as cores, os vultos Desta cidade, que se afunda no temporal…
Ilona Bastos Lisboa, 20 de Maio de 2007
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Se escrever for simplesmente desenhar palavras belas sobre o papel, então, tudo bem, posso fazê-lo. Com dicionário e tudo, para que nenhum vocábulo, dos mais etéreos, alusivos, sugestivos, me escape. Mas escrever é mais do que deixarmo-nos levar pelo som das palavras. É nelas encontrar e fixar um sentido belo, uma ideia inteligente. Por isso, tanto necessito do silêncio - terra fértil -, e da música - boa semente -, para que as ideias germinem e cresçam, floresçam. Olhando o empedrado do carreiro que atravessa o jardim, sobre ele caminhando, hoje pensava que não me falta o ânimo, o impulso inicial. Do que necessito é de perseverança!
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O Romancista
Parou, subitamente, e ponderou, por momentos, que talvez nunca conseguisse escrever o romance. Faltavam-lhe, porventura, a paciência, a aplicação e a perseverança necessárias!
Nunca esta ideia lhe ocorrera anteriormente. Na verdade, começara por julgar que o problema residia na cadeira, onde não lhe era possível sentar-se, a escrever, por mais de cinco minutos.
Tal convicção levara-o, em certa ocasião, a acalmar-se e observar o assento com extremo cuidado. Analisara-lhe a estrutura, a matéria prima, o design. Apalpara conscienciosamente a almofada que o cobria, no que fora apanhado em flagrante pela empregada, como sempre sorrateira a percorrer as divisões da casa em passinhos silenciosos.
Ilibada a cadeira, voltara o olhar acusador para a desarrumação que cobria a secretária, para os montes de livros e papeis, em caos, que o cercavam. Como queriam que escrevesse no meio daquela confusão?! Nem conseguia ouvir os próprios pensamentos, cercado de tanta retórica, tanto ensaio, tanta lei, tanto apontamento desgarrado! Aquela escrita gritante afugentara até uma ideia fabulosa que lhe surgira no dia anterior, após o café.
Convencera-se, durante algum tempo, de que tomando uma chávena suficientemente grande de café suficientemente forte conseguiria escrever um romance magnífico, essa obra-prima de suspense e emoção de que falava aos amigos havia anos - o aguardado best seller que em tudo suplantaria as historietas banais, tão em voga, que a televisão e os jornais não se cansavam de elogiar.
Evidentemente, o seu romance teria um alcance absolutamente fora de série: à semelhança dos clássicos, narraria uma história universal, susceptível de tocar todos os homens e mulheres, independentemente da nacionalidade, raça ou credo; original, jamais se apagaria da memória de quem o lesse; intenso, inteligente e subtil, prenderia a atenção do leitor desde as primeiras até às últimas palavras; profundo e filosófico, traçaria uma nova concepção do mundo; épico, inspiraria feitos grandiosos; complexo, porém, linear, reuniria o aplauso unânime dos intelectuais; enfim, valer-lhe-ia o Nobel...
Nunca tivera dúvidas da sua elevada capacidade e do seu talento excepcional. E com o café, então, as ideias que lhe atravessavam o cérebro tornavam-se verdadeiramente geniais! Só havia o problema de se dissiparem com tanta rapidez. Ao ponto de não conseguir passá-las ao papel. Quando chegava a garatujar algumas palavras e as relia, constatava, estarrecido, que nelas não encontrava sequer uma sombra da ideia magnífica que lhes dera origem. E então, enervado, atirava com a caneta, amarfanhava o papel, levantava-se da cadeira, deambulando, desesperado, pelo escritório. Daí, naturalmente, que a primeira suspeita tivesse recaído sobre a cadeira... não é verdade? Mas, pensando bem... não seria, antes, uma deficiência da caneta? Como não se lembrara disso? Sempre suspeitara do aparo, um tudo nada grosso em demasia, de uma maciez excessiva, que lhe tornava a letra grande, infantil, pouco profunda... e o gesto da escrita extremamente lento. Com certeza, encontrava-se aí o motivo por que, após tantos anos de tentativas infrutíferas, não conseguira ainda iniciar o seu romance!
Entusiasmado com esta hipótese, que revelava um sem número de novas perspectivas, decidiu explorar-lhe as potencialidades: abriu a segunda gaveta da secretária e de lá retirou, em transportes sucessivos, dezenas de canetas e esferográficas, que largou sobre o tampo, em euforia. Passou, depois, a experimentá-las, uma a uma, metódicamente, desenhando elipses contínuas que percorriam o papel da esquerda para a direita, do topo para a base. E assim preencheu folhas e folhas do seu bloco especial, durante a tarde toda, indiferente à presença da empregada, que o espreitava, encostada à porta, silenciosa, atenta, respeitosa, orgulhosa do seu patrão, o romancista.
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Lisboa, 10 de Março de 2006
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Mendelssohn (concerto para violino - parte 1)
El concierto para violin de Mendelssohn (primeros 5 minutos) . Interpretado por I.Perlman y Yo-Yo Ma
. Vacilo entre o casaco preto e a gabardina branca. No céu nublado, de tecto baixo, procuro a resposta. Choverá? Um violino ágil, alegre, esperto, ousado, diz-me que a água, se vier, será saltitante, miúda, atrevida. Que venha, que salpique a calçada, escorra pelas folhas das árvores, orvalhe os rostos sorridentes dos transeuntes. A crer na conversa do violino, a tarde será alegre e molhada, a temperatura, amena e agradável, e o tempo, de amor e felicidade. Bendito violino mensageiro, que belas mensagens me trazes de Mendelssohn… (concerto para violino em mi menor?)
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Ilona Bastos
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Esta combinação da música - magistralmente composta e excelentemente tocada - com a beleza (perdoavelmente colorida) e o humor, da Orquestra Johann Strauss, dirigida por André Rieu, é algo de absolutamente inebriante. Evoco a memória dos bailes vienenses animados pelos próprios Strauss e os seus violinos. Chamo até mim a magia da Música, tal como a vejo, agora, no seu arquétipo fundamental – fonte de inesgotável beleza, bem-estar e felicidade. Nestas apresentações de André Rieu, da sua orquestra e convidados, descontraímos, sentimo-nos rejuvenescer, rimo-nos de puro prazer, dançamos, sentados, ao som das mais maravilhosas composições, deixamos a nossa mente libertar-se das preocupações do dia-a-dia e simplesmente fluir, como flui a água do rio em pleno Verão, com a energia feliz, simultaneamente calma e contagiante, de quem desliza pelo seu leito, sem remorsos, sem medos, antes imbuído da inocente vontade de se expandir, cantar, viver!.
Ilona Bastos
André Rieu at Schönbrunn - The Third Man
André Rieu and the Johann Strauss Orchestra performing at Schönbrunn Palace, Vienna in july 2006. The music is by Anton Karas and features Frédéric Jenniges on zither.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Carlo M Cipolla
"(...) se uma piada humorística não é entendida como tal por parte do interlocutor, é praticamente inútil, senão mesmo contraproducente, procurar explicá-la. "O humorismo é claramente a capacidade inteligente e subtil de revelar e representar o aspecto cómico da realidade, mas é também muito mais do que isso. Antes de mais, como escreveram Devoto e Oli, o humorismo não deve implicar uma posição hostil, mas sim uma profunda e muitas vezes indulgente simpatia humana. Além disso, o humorismo implica a percepção instintiva do momento e do lugar em que pode ser usado. Fazer humor sobre a precariedade da vida humana à cabeceira de um moribundo não é humorismo. Por outro lado, merecia certamente que a sua cabeça tivesse sido poupada aquele cavalheiro francês que, tendo tropeçado num dos degraus ao subir a guilhotina, se dirigiu aos guardas e disse: "Dizem que tropeçar dá azar.""
. Carlo M Cipolla, Allegro ma non troppo.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
É preciso que os pensamentos voem pelo meu cérebro, para que tente capturá-los, registá-los como numa película fotográfica, e depois reproduzi-los, escrevendo, sobre o papel. Mas a escrita será então como um desenho à vista (titubeante, indeciso, ansioso, cheio de boa vontade, contudo, imperfeito). Como lograr reproduzir o voo magnífico da gaivota? Algum retrato, por melhor que seja, atinge a monumentalidade das suas asas abertas, brancas, brilhantes ao sol da tarde, planando sobre o mar, volteando sobre a terra, numa tridimensionalidade palpável que nos arrebata? Pois bem, também me sinto incapaz de verbalizar esses vislumbres do conhecimento, da verdade, que por vezes me ocorrem, mas logo se evolam, deixando-me deslumbrada, mas incompleta.
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Ilona Bastos
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Ravel's Bolero by the orchestra directed by Andre Rieu. Video by consejomunicipal
Fauna & Flora - da matéria das estrelas, na Amazon
Livraria Europa América - Av. Marquês de Tomar, 1 B Lisboa
O RITUAL DO CAFÉ - POESIA, na Amazon
Livraria Europa-América, Av. Marquês de Tomar, 1-B, Lisboa
"Viu, finalmente, a flor única, que devia, sob combinações desconhecidas de calor e de frio, de sombra e de luz, aparecer um dia para desaparecer para sempre. Viu-a a seis passos; saboreou-lhe as perfeições e as graças; viu-a por detrás das raparigas que formavam uma guarda de honra a essa rainha de nobreza e de pureza."
Alexandre Dumas, A Túlipa Negra
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"- A tua mãe está salva.
- Muito obrigado, senhor doutor! - exclamou o garoto a soluçar.
- Não tens nada que me agradecer, rapaz - respondeu o médico. - Foste tu quem salvou a tua mãe."
Edmundo de Amicis, Coração
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"- As maneiras distintas são difíceis de imitar, porque constituem, por assim dizer, qualidades negativas e exigem uma prática longa e contínua. Nada devemos apresentar no traje que lembre o cargo que temos, para não nos expormos a que nos chamem orgulhosos. Temos que fugir do vulgar, nunca nos descuidarmos, nada fazer com excesso, nem em favor dos outros nem em nosso, não nos comovermos nem nos apressarmos, mantendo sempre um sereno equilíbrio exterior, quaisquer que sejam as tempestades que surjam dentro de nós. O nobre pode às vezes extraviar-se; o distinto nunca. É como um homem bem vestido que não se encosta a nada e em quem ninguém pensa tocar. Distingue-se dos outros, e contudo não deve permanecer isolado, pois em todas as partes, e particularmente nesta a que nos referimos, a coisa mais difícil deve executar-se com facilidade. Assim o homem distinto, apesar de todas as separações, deve aparecer sempre ligado aos mais, e portar-se em toda a parte por forma que, sem impor-se, seja o primeiro. Numa palavra: para parecer distinto, é preciso sê-lo realmente."
Goethe, Um Homem Feliz (Wilhelm Meister).
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" Tu nunca me esquecerás! Disseste: acredito em ti! E é desde então que a minha vida se encerra nestas palavras. É forçoso separarmo-nos; chegou o momento! Já o sabia há tempo, minha doce, minha triste beleza! Mas só hoje é que o compreendi. Durante todo o nosso tempo, o tempo em que tu me amaste, o meu coração confrangia-se e sangrava ao pensar no nosso amor. Acreditar-me-ás? Sinto menos sofrimento agora!"
Dostoievski, Netotchka
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"Cada vez que uma criança morre, desce um Anjo de Deus à Terra, toma-a nos braços, abre as grandes asas brancas, voa sobre todos os lugares de que a criança gostou, e colhe toda uma mão-cheia de flores, que leva a Deus, para aí florirem ainda mais bonitas do que na Terra. O bom Deus aperta de encontro ao coração todas as flores, mas àquela de que ele gosta mais, dá um beijo. Então esta recebe voz e pode cantar juntamente na grande bem-aventurança!"
Hans Christian Andersen, O Anjo
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"O Filho-da-Estrela respondeu: - Não sou filho de um rei mas sim de uma pobre mendiga. E como podeis dizer que sou belo quando sei perfeitamente que sou horrível?
Então o soldado cuja armadura estava incrustada de flores douradas, e cujo elmo tinha um leão deitado com asas, ergueu um escudo e exclamou: - Como pode o meu senhor dizer que não é belo?
O Filho-da-Estrela olhou para si próprio e que surpresa! O seu rosto estava com antes e a sua elegância tinha voltado. E ele viu algo nos seus olhos que nunca tinha visto."
Óscar Wilde, O Filho-da-Estrela
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"«Não ligar nenhuma a nada, começando por nos rirmos de nós próprios». A Pilar tinha razão. As pessoas que consideramos superficiais e, muitas vezes, meio-chaladas, são as únicas que possuem o segredo da vida. Eu nunca o possuí e já é muito tarde para voltar atrás. Talvez nunca seja possível voltar atrás nestas coisas, porque não basta sabê-las: é preciso que encontrem em nós o órgão apropriado para se desenvolverem com eficácia. Jamais poderei olhar para o mundo tal como é, como uma coisa trivial, puramente transitória, que só tem a importância que cada um lhe quer dar. Eu, ingénuo ou pretensioso, sempre quis dar importância a todas as coisas do mundo, talvez porque esta era a única maneira de eu próprio me considerar importante."
Felix Cucurull, às 21,13
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"A mulher empurrou a porta do jardim, pôs-se a correr em direcção à casa e meteu pela porta entre dois lilaseiros. Estava tão esbelta como no dia em que se tinham separado e corria com o mesmo movimento de pernas ágil e longo, como no dia em que, ainda rapariga, tinha fugido duma vaca, acicatada pelo medo. Quando B... a alcançou no patamar do primeiro andar, ela já estava calma, só os seios de rapariga se lhe erguiam sob o casaco cinzento com riscas pretas. Já não chorava, mas, embora tivesse enxugado as lágrimas, os olhos continuavam molhados.
"- Meu querido! - murmurou. - Meu querido!
"O murmúrio dela era tão tocante, que se tinha vontade de saborear cada sílaba durante muito tempo."
Tibor Déry, Amor
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"Desejaria dizer isto por outras palavras: a tentativa, levada até ao extremo, de moldar as coisas humanas fazendo completamente tábua rasa de Deus leva-nos cada vez mais para a beira do abismo, para a segregação total do homem. Deveríamos, então, inverter o axioma dos iluministas e dizer: mesmo quem não consegue encontrar o caminho da aceitação de Deus deveria, no entanto, procurar viver e orientar a sua vida veluti si Deus daretur, como se Deus existisse. Este é o conselho que já Pascal dava aos amigos não crentes; é o conselho que desejaríamos dar também hoje aos nossos amigos que não crêem. Assim ninguém é limitado na sua liberdade, mas todas as nossas coisas encontram um apoio a um critério de que têm urgente necessidade."
Bento XVI, "L'Europa nella crisi delle culture", conferência feita no mosteiro de Santa Escolástica de Subiaco, em 1 de Abril de 2005, citado por Dag Tessore in Bento XVI - Pensamento Ético, Político e Religioso.
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"Sem tornar a leitura o 11º mandamento de Deus, quero ressaltar, contudo, o que de mais prejudicial pode acontecer com alguém que não tem hábito de ler: a sua pobreza e a sua insegurança existenciais. Certa livraria caracterizou muito bem essa deficiência através do slogan "Ler ou não ser".
O leitor assíduo e dedicado vai tomando posse da herança humana que se transmite através do livro. Quem muito lê vai reunindo em si mais lembranças e conhecimentos do que se tivesse mil anos de idade. Vai se universalizando no tempo, e também no espaço."
Gabriel Perissé, Ler, Pensar e Escrever
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"Foi um passeio formidável. Era a motocicleta mais maravilhosa em que andara até à data. Fazia dela o que queria. Não havia manobra que não pudesse fazer, e eu experimentei tudo. Com ela podia-se andar mais lentamente do que um homem a pé, e mais depressa do que um automóvel dos caros, na auto-estrada. Podia fazê-la roncar, andar com ela aos zigue-zagues, andar com ela inclinando-me muito para um dos lados, e, com isto tudo, julgo ter assustado uma data de gente na auto-estrada. Durante dois quilómetros tirei as mãos do guiador. Pus-me de pé no assento, durante um bom bocado, só com as mão agarradas aos punhos do guiador. Há pessoas que julgam que isso é perigoso, mas, na verdade, não é. O que é preciso, é saber como a coisa se faz.
Que belas horas não passei eu com a Harley-Davidson! Então, fui devolvê-la e entrei com ela pela agência dentro."
William Saroyan, Na terra donde eu venho as pessoas são bem educadas.
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"A santidade consiste, não tanto em fazer coisas extraordinárias, mas no fazer de maneira extraordinária as coisas ordinárias da vida de cada dia."
José Saraiva Martins, Como Se Faz Um Santo, Aletheia Editores, 2006.
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"Damos aos sofrimentos nomes bons ou maus, segundo as classificações dos livros, mas a angústia que sobe de um coração destroçado e se perde nas trevas insondáveis poderá, acaso, ter nome? Quando, no meio da noite, parei, sob as estrelas silenciosas, e olhei para aquele vulto deitado no chão, o meu espírito encheu-se de temor e perguntei a mim mesmo: «Quem sou eu para a julgar?» Ó vida, ó morte, ó Deus de infinita existência, curvo a cabeça, em silêncio, perante o mistério que existe em vós! "
Rabindranath Tagore, A casa e o mundo, Editorial Minerva, 1973
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"(...) digo-te o que descobri. O conhecimento pode ser comunicado, mas a sabedoria, não. Uma pessoa pode encontrá-la, vivê-la ser fortificada por ela, operar maravilhas por seu intermédio, tudo menos comunicá-la e ensiná-la. Desconfiei disso quando ainda era novo e foi isso que me afastou dos mestres. "
Hermann Hesse, Siddhartha, Editorial Minerva, 1997
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."- Quem não é poeta é você - replicou Syme. - Se o que diz dos passageiros for verdade é porque são tão prosaicos como a sua poesia. Atingir o alvo, eis a coisa rara e estranha; falhá-lo é reles e vulgar. Achamos épico que um homem atinja com uma seta um pássaro distante. Não será também épico atingir uma estação distante com uma máquina? O caos é enfadonho porque nele o comboio podia, de facto, ir parar a qualquer parte, a Baker Street ou a Bagdad. Mas o homem é um mágico, e a sua magia está nisto: diz Vitória, e eis que é Vitória! Fique-se com os seus livros de mera prosa e poesia, e deixe-me ler, chorando de orgulho, um guia dos caminhos de ferro. Fique com o seu Byron, que comemora as derrotas do homem, e dê-me Bradshaw, que comemora as suas vitórias. A mim Bradshaw, digo eu!"
G. K. Chesterton, O homem que era 5ª feira, Livros Unibolso
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"Feito isto, ergueu o Cristo de sobre o altar, colocou-o sobre as pranchas do barco e pregou-o, com suas próprias mãos, com os pregos corroídos pelo mar.
"Por ordem sua, a nova cruz ocupou, a partir do dia seguinte, sobre o banco dos mordomos, o lugar da cruz de ouro e pedrarias. E nunca mais o Cristo do mar dali se despregou. Aprouve-lhe permanecer naquele lenho sobre o qual homens morreram a invocar-lhe o nome e o de sua Mãe. E ali, entreabrindo a boca augusta e dolorosa, ele parece dizer: A minha cruz é feita dos sofrimentos dos homens, pois em verdade vos digo que eu sou o Deus dos pobres e dos desvalidos..."
- Porque os homens o afastaram dela! - exclamou com indignação o Segundo Vagabundo - A culpa é toda dos homens, não de Deus. Ele criou os homens para habitar neles, não sabes? E se as pessoas Lhe permitissem que as habitasse, uma única vez na vida; e Ele desceria imediatamente aos seus corações. Porque o homem é o Seu templo; e quando é Ele quem habita no templo, o mundo enche-se de alegria e a vida torna-se o reino do Amor!"
Carlo Coccioli, O Vale de Deus, Edição Livros do Brasil, Lisboa.
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"- Aquela imagem entrevista num instante era minha? Sou mesmo assim, eu, visto de fora, quando - vivendo - não penso em mim? Então para os outros sou aquele estranho que surpreendi no espelho: sou ele e não eu, tal como me conheço! Sou aquele estranho que, à primeira vista, não reconheci. Aquele estranho que não posso ver viver a não ser assim, num instante inesperado. Um estranho que só os outros podem ver e conhecer.
Desde então, assentei no propósito desesperado de ir perseguindo aquele estranho que estava em mim e me escapava (...)"
Luigi Pirandello, Um, Ninguém e Cem Mil, Editorial Presença
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"- O senhor é um génio, um génio feito!
- Oh, não! - exclamou o convidado com suavidade. - Estava a pensar que o senhor é que é um génio.
- Engano - replicou o meu amigo, servindo finalmente o café. - A característica principal do génio é a sua raridade, e o senhor pertence a uma classe humana mais rara do que eu.
O convidado tentou apresentar objecções modestas, mas foi instruído de um modo rude sobre o seguinte:
- Nada disso - disse o meu amigo. - Escrever um livro representa metade do trabalho da fabricação do mesmo. Encontrar um editor é uma brincadeira, mas comprar um livro... a isso chamo eu um feito genial. Mas sirva-se de leite e açúcar, por favor.
O leitor serviu-se de leite e açúcar e a seguir tirou, timidamente, do bolso interior do seu casaco, o livro que comprara no Norte, pedindo uma dedicatória ao meu amigo.
- Só com uma condição - disse o meu amigo, num tom de voz duro. - Só na condição de me escrever uma dedicatória no meu manuscrito.
Heinrich Boll, À Procura do Leitor, 1954, Contos Irónicos, Livros de Bolso Europa-América (Edição bilíngue)
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"Amamos os seres porque eles segregam uma essência misteriosa, aquela que falta na nossa fórmula para fazer de nós um composto químico estável. Se não conhecera mulheres mais belas que Odila, encontrara-as mais brilhantes, mais bem dotadas em inteligência, mas nenhuma soubera como ela, pôr o mundo ao meu alcance."
Grupos de Apoios a Famílias - Apoiar, durante um ano, Famílias em situação económica muitíssimo difícil devido a despedimento decorrente da crise. http://www.smmp.pt/wp-content/grupos_de_apoio_familias_divulgacao.pdf
JOSÉ AUGUSTO CARVALHO - ENSAIO
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*DICIONÁRIOS NÃO SE ENTENDEM*
Os elementos significativos que fazem parte da rede de relações
chamada língua se chamam formas. Form...
The New Worldchanging Is Coming
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Cameron SinclairAfter a long hiatus we are coming back. In September my
organization, Architecture for Humanity acquired Worldchanging and all its
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