segunda-feira, 24 de novembro de 2008



V. Turnbull

"Repare bem - diz ainda Durville - que os pensamentos de bondade, benevolência, alegria, esperança, valor e confiança, possuem em si e por si mesmos um poder organizador que assegura a nossa saúde física, atrai para junto de nós tudo quanto é bom e prepara a nossa felicidade, enquanto que a maldade, o ódio, a indolência, a tristeza, o desespero constituem forças destruidores que arruinam nossa saúde física, nos fazem detestados de quantos nos rodeiam e nos arredam do que é bom, preparando-nos assim a infelicidade.

"As pessoas boas, benfazejas, perseverantes, alegres e cheias de esperanças, são atraentes; possuem já a personalidade magnética até um certo grau e têm naturalmente todas as qualidades requeridas para desenvolvê-la rapidamente até um ponto mais elevado. Os malvados devem converter-se, senão em bons, pelo menos em melhores. Os desesperados, os que não chegaram a coisa nenhuma, devem compreender que o fracasso é devido à sua insuficiência, à sua inépcia, à sua ignorância, e devem aprender para obter algum resultado."


V. Turnbull, Curso de Magnetismo Pessoal

sábado, 15 de novembro de 2008


No Rossio Eram Gaivotas


São os pombos, os melros e os pardais
os velhos, os novos e outras gentes
as flores, as bancas e os jornais
as fontes e seus jorros transparentes
as lojas, os cafés, as esplanadas
os turistas, os apressados, os indolentes
os gritos, os sussurros, as risadas
as verdes copas e as castanhas quentes

Porque assim é e sempre foi
na realidade...

Mas neste início de uma tarde calma
azul o céu, brilhante o sol, sereno o ar
tudo em redor ganhou uma nova alma
pois no Rossio eram gaivotas a voar.


Ilona Bastos

quinta-feira, 13 de novembro de 2008


Quando te abrigavas no meu ventre, e eu descia pausadamente esta avenida suave e curva, olhava, por sobre o muro do jardim, as árvores, as flores, os carreiros pejados de folhas e dizia: Vê, meu filho, meu amor! Quanta beleza te espera cá fora!
E quando ouvia os gorjeios dos pássaros escondidos nas ramagens, sorria e murmurava para ti: Escuta, que maravilha! Cantam, as aves, de alegria, por saberem que vais nascer!
E em todos os momentos contigo conversava, confidenciando-te segredos, prometendo-te um mundo encantador, cheio de felicidade, contando-te da ânsia de sentir-te nos meus braços, aconchegar-te junto ao peito, criar-te.
Recordo-me de tudo isto agora que já és homem, e que uma incógnita me atordoa.
Pausadamente desço a avenida, como o fazia então – e também hoje faço o meu olhar saltar o muro baixo, atravessar as grades e espraiar-se pelo jardim, caminhar pelos carreiros, acariciar as sebes, deter-se nas bagas vermelhas e redondas de um arbusto, voejar por entre as folhas douradas que aqui e ali se desprendem dos ramos, planam um pouco e aterram suavemente nos caminhos.
A beleza é semelhante à de outrora. Também o meu espírito se deleita com a Natureza. Mas a dúvida, subtil, insidiosa, macula, incerta, a minha felicidade. Não sei, agora, o que se abriga em mim.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

"Todo o mundo sente que também "votou" em Obama."


Barack Obama - What A Wonderful World (Louis Armstrong)
Video by ANewDawn08

quarta-feira, 5 de novembro de 2008


E eis que subitamente o sol brilha!
No mais improvável dos momentos, quando o céu cor-de-chumbo ameaça desabar sobre nós, eis que, por entre a pesada camada das nuvens, numa inesperada clareira de azul, um jorro de luz se lança sobre a Terra! E tudo sorri, em redor. Não é ilusão do meu cérebro, que desperta, nem do meu coração, que se alvoroça. É a alegria do sol que insufla vida na paisagem.


Acerco-me da janela e fico a observar a chuva a bater, a colar-se ao vidro por fracções de segundo e a escorregar lentamente, deixando atrás de si um rasto brilhante.
Preparo-me para recebê-la condignamente: visto-me, calço-me, coloco a bolsa a tiracolo, pego na pasta e saio.
Cá está a chuva prometida!
Estranhamente, os outros parecem não vê-la… Deixam os edifícios, caminham pelo passeio, saem dos automóveis, atravessam a rua desprotegidos, como se a não sentissem. Alguns levam mesmo o chapéu-de-chuva no braço, como se de um adereço inútil se tratasse. Só eu subo a rua de gabardina abotoada, guarda-chuva a cobrir-me, chapéu enterrado na cabeça.
Espanto-me. Será que só chove em mim?
Detenho o olhar nas poças de água, onde as gotas, com um só toque, desenham círculos sucessivos, concêntricos, num ondear expressivo. Também sobre o fundo das árvores, escurecidas pelo céu nublado, confirmo as rectas que a chuva risca num movimento ininterrupto.
Será possível que só eu veja e sinta a chuva?
Eis que alcanço a avenida e as dúvidas se dissipam. Aí, a chuva é real nos transeuntes que se deslocam apressados, de botas calçadas, guarda-chuvas abertos, correndo da esquerda para a direita e desta para a esquerda, alheados de tudo o que não seja o seu destino. Nas paragens, recolhem-se debaixo dos abrigos, olhos abertos, expectantes, ou sobrancelhas franzidas. Os autocarros chapinham junto à calçada, e aguardam pacientemente que os rapazes da escola atravessem a passadeira, pesadas mochilas às costas, capuzes na cabeça, mãos nos bolsos, passo decidido. Por vezes, pequenas corridas. E as meninas, de cabelos ao vento, conversam sem parar. Os automóveis sibilam, limpa pára-brisas em acção, avançando sobre o passeio, para deixar uma criança, arrancando depois, com sofreguidão, nos sinais luminosos.
Sim, isto é um dia de chuva – reconheço.
E lanço então os meus passos sobre a multidão em movimento.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008


Ravissante...
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O JARDIM
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Ontem escrevi poemas
Nos canteiros do meu jardim.
Animada, afogueada, em alvoroço,
Abraçada a vasos, folhas e pétalas,
Inspirada ao aspirar o aroma silvestre
Das flores, das plantas, da seiva,
Declinei o lápis sedutor e o papel,
Tomei a terra, o ancinho e a colher,
Decidida, quebrei ressequidas ramagens,
Exaltada, daninhas ervas arranquei,
Ao solo me lancei, confiante, e mergulhei
Minhas mãos, na terra fértil e gentil.
Tirei pedras e raízes, desenhei linhas
De promissores bolbos, enterrados
Sob o húmus revolvido e alisado.
Sementes lancei, em métrica cuidada.
Azáleas rimei com admiráveis ciclamens.
Margaridas de fogosas vestes combinei
Com amarelos narcisos em sono recatado.
Confortei o cândido limoeiro e ergui, por fim,
Para o céu, o corpo cansado e feliz,
As faces coradas, o cabelo em desalinho,
Acompanhando a aragem e o sol alaranjado –
Chave de ouro de outonal entardecer –
No caminho luminoso do Poente.
,
,
Il
Ilona Bastos
Lisboa, 28 de Setembro de 2004

domingo, 26 de outubro de 2008


E se eu largasse o meu olhar?

E se o deixasse percorrer o mar imenso,
Lançar-se, livre, no céu infinito,
Cavalgar pela planície, até ao horizonte?

E se o meu olhar tudo abarcasse
(A humanidade, a fauna, a flora!)
E nele guardasse toda a criação?

E se o meu olhar fosse microscópico
E distinguisse o grão, a gota, a bactéria?

E se o meu olhar fosse macroscópico,
E nele coubessem todas as estrelas e as galáxias?

E se visse o invisível, e, para si, as ondas,
Os aromas e os sons mostrassem cores
E formas dos outros desconhecidas?

E se eu seguisse o meu olhar, e com ele...

Nadasse os oceanos, tal um golfinho,
Voasse pelo azul, como gaivota,
Ganhasse velocidade sobre a pradaria?
(Cavalo selvagem, outrora detido, agora liberto…)

E se tudo soubesse do que via
E a razão de tudo se revelasse?

E se atingisse a molécula, o átomo, o quark,
A mais ínfima partícula, e entendesse
Afinal, do que é construído o Universo?

E se o meu olhar e eu fossemos o mais longe
que é possível ir, e regressássemos
o mais depressa que é possível vir, para contar?

Que encontraríamos e saberíamos,
Que contaríamos, eu e o meu olhar?

Ilona Bastos
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Wild Horses (Ennio Morricone For a few dollars more)
Vídeo by LonelyMoonRise

quarta-feira, 22 de outubro de 2008



Luís Sepúlveda

" Vi-o rumar em direcção ao Nishin Maru e, quando chegou lá, os tripulantes começaram a atirar-lhe lixo para cima, latas e desperdícios, que o Pedro lhes devolvia sem conseguir atingi-los. Depois começaram a fustigá-lo com um jorro de água. Os japoneses riam enquanto o inundavam, e o Pedro concentrava-se em manter o escaler a flutuar.
"Eu não sabia, não era capaz de imaginar o que é que ele pretendia ao manter-se colado ao Nishin Maru, enquanto os tripulantes até lhe urinavam para cima, e o que depois aconteceu vai o senhor ver amanhã, mas seria estúpido não lho contar agora.
"A um dado momento, quando mais duas mangueiras se tinham juntado à brincadeira e o Pedro já quase não conseguia manter-se a flutuar, emergiu junto ao escaler o dorso de uma baleia calderón, que, com todo o cuidado, empurrou o Pedro e a sua embarcação até os afastar do navio. Então, obedecendo a uma chamada que nenhum outro humano ouviu no mar, um chamamento tão agudo que estremecia os tímpanos, trinta, cinquenta, cem, uma multidão de baleias e de golfinhos nadaram velozmente até quase tocarem a costa, para regressarem com maior velocidade ainda e chocarem as cabeças contra o barco.
"Sem lhes importar o facto de que em cada ataque muitos morriam de cabeças rebentadas, os cetáceos repetiram os ataques até que o Nishi Maru, empurrado contra a costa, correu o risco de encalhar. Levaram-no para muito perto dos recifes e havia pânico a bordo."
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Luís Sepúlveda, Mundo do Fim do Mundo


Os Balanços do Vendaval

Desfazem-se as árvores
No vendaval.
Folhas, galhos e ramos
Rebolam pela rua
Em abandono.

Trémulas, as folhas
Vibram desgovernadas,
E à nova rajada se debatem,
Agitam e voam.

As flores tilintam
As corolas coloridas,
Despenteadas, desfolhadas,
Desprotegidas.

Os humanos vultos inclinam-se,
Às roupas e ao corpo abraçados,
Cabelos em labareda,
Contra o vento.

E avança, plúmbeo, sobre a terra
O imenso manto das nuvens.

Ah! As minhas flores!
As que plantei com tamanha devoção!
Aguentarão os balanços do vendaval?


Ilona Bastos
Lisboa, 8 de Outubro de 2004

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

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O homem que plantava árvores
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The Man Who Planted Trees 4/4

1/4 - http://www.youtube.com/watch?v=kSlN_4ZGE38

2/4 - http://www.youtube.com/watch?v=ZW-HhmLXJTM

3/4 - http://www.youtube.com/watch?v=roUIBeQb6cs

Energyium


Olhares

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Tudo se resume a um olhar sobre o mundo e ao desvendar das maravilhas que encerra.
Já em criança o fazia: colhia flores, apanhava pedrinhas, folhas, conchinhas, e trazia-as para casa.
Acabavam, depois, por secar entre as folhas de um livro, perder-se ou ir parar ao cesto dos papéis, essas jóias tão acarinhadas.
Agora não! Encontrei um cofre, que é este blog. Aqui coloco as folhas e as flores que trouxe da rua. Aqui os guardo, expondo-os aos olhos do mundo, os vídeos que me comoveram, as músicas que me deliciaram, os excertos de livros que se me tornaram inesquecíveis.
Eis, portanto, as minhas jóias - o meu cofre!


Encanta-me, claro, a folha amarelecida presa na orelha do cocker spaniel que me olha, inocente, sério, tão embrenhado no seu papel de cão felpudo e focinhudo, de longas orelhas e pêlo dourado!
O seu olhar… e o seu olhar… tão ponderado e prudente.

O que era aquele olhar?
Era o de um ser inelutavelmente destruído?
Ou de alguém, ainda há pouco despertado de um pesadelo,
que se concilia lentamente com a vida?
Perguntou-me: “É para nós?”
Acenei que sim e estendi os braços.
Deu a volta ao balcão e recebeu os sacos.
Vigiei-lhe o olhar, que pareceu tornar-se mais vivo e brilhante. Agradeceu.
Não sei que lhe disse então (sempre vigilante ao seu olhar).
O que era aquele olhar?
Seria o de alguém em luta contra os seres destruidores de almas?
Seria o de quem, em segredo, pactua ainda com demónios,
perpetuando-lhes o apetite devorador?
“Seja como for”, pensei, “Sempre ajudei alguém.”
Mas o segredo daquele olhar perseguiu-me pela manhã.
As suas palavras, os seus gestos, o meneio de cabeça ao responder, o estender dos braços, tudo se tornou irrelevante na minha memória,
tudo reconduzido àquele olhar...
(Terei receado ver, naquele, um outro olhar?)

Penso, agora, naquele olhar, com esperança.
Talvez o céu, esfusiantemente azul,
ou o sol, que insiste em brilhar e aquecer,
lhe tragam o ânimo para vencer.
Quem sabe a fé incendeie aquele olhar...
Quem sabe?


Que dizer, que fazer, que pensar, do teu olhar brilhante, transbordante de riso?

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Ilona Bastos