domingo, 18 de janeiro de 2009


Não sei se mais aprecio o veludo acolchoado dos pinheiros mansos a cobrir a encosta, se a desenvoltura flamejante dos pinheiros bravos a estamparem-se contra o eucaliptal.

Só sei que uma súbita emoção me toma quando avisto o verde escuro das copas contra o céu azul soberbamente nublado.

Deixem-me o verde, deixem-mo, depois de tudo ir.
Deixem-me os ramos dos pinheiros, a seiva,
O mato, as sebes, quando for hora de partir.
Deixem-me os vários tons, as formas,
As mais incautas plantas, mesmo se tudo ruir.
Deixem-me o verde, somente o verde, deixem-mo
Até que seja tempo de florir.

Mesmo que azul não haja, deixem-me o verde.
Mesmo que a luz se apague, deixem-me o verde.
Mesmo se há choro e lama, deixem-me o verde...

.É ali, naquele recanto, que eu vou esconder-me.
É ali, junto à erva fresca e orvalhada,
Que eu vou perder-me.

Dali farei o meu mundo. Ali reinarei, soberba.
E não me sigam, não me procurem, não me encontrem.
Ali, ali estarei e ficarei, feliz.


IIona Bastos

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008


Uma crónica de Natal


São felizes as recordações que guardo dos Natais da minha infância.
Reconheço que algumas das memórias possam ter sido douradas pelo tempo, mas sei, também, que se ao pensar nos Natais de então os sinto como felizes, é porque essas festas antigas algumas sementes de felicidade em mim depositaram, fazendo germinar as imagens que agora contemplo.
Lembro-me, assim, de casas quentes e cheias de crianças risonhas, e de festas bem iluminadas por lustres e candelabros, cuja claridade tornava brilhantes as loiças, os copos de cristal, os talheres, o rendilhado das toalhas de linho, as comidas e doces tradicionais, as imagens do Presépio e os enfeites natalícios, revestindo tudo e todos de uma película de luxo e encanto.
O interessante é que eu não gosto particularmente do luxo, ou do que habitualmente se considera como tal. Mas o luxo da luz, do brilho, da transparência dos vidros e dos cristais associa-se, no meu espírito e no meu coração, ao calor humano, ao carinho, ao convívio, às risadas e correrias, aos momentos de felicidade!
De estranho, ficou-me, porém, durante longos anos, o mistério de as minhas tias avós – traves mestras da família –, se encontrarem ausentes dessas festas da consoada ou do dia de Natal, as quais eram sempre realizadas nas casas dos familiares mais jovens (que eram, nessa época, os meus pais, os meus tios e uns primos da mesma idade). Por qualquer motivo que eu não chegava a compreender, quando se falava em convidar as tias para estas reuniões festivas, havia um adulto que adoptava um semblante grave, baixava a voz, e respondia que as tias preferiam passar o Natal tranquilamente, na sua casa.
É claro que as tias eram muito idosas, sabíamo-lo. A doce tia Amélia, aproximava-se dos noventa anos e a querida tia Helena não estaria, também, muito longe dessa idade. A tia Leonor, com os seus belos olhos azuis, tinha já dificuldade em andar. E a adorada tia Ana, não era nenhuma jovem… Mas isso não as impedia de receber a família, todos os domingos, com um lanche apetitoso! Na verdade, se pensássemos bem, as tias festejavam todo o ano, com excepção do Natal.
Só mais velha vim a compreender o que se passava com a família do meu pai e o Natal: a minha bisavó, mãe da minha avó e das minhas tias, falecera no Natal e, desde então, essa época passara a trazer a todos a recordação dessa severa perda, reavivando o desgosto ano após ano.
Por isso a contenção do meu pai, sempre tão animoso e entusiasta, que no Natal se mostrava mais recatado, embora proporcionando-nos, à nossa mãe e a nós, suas filhas, toda a alegria da época festiva.
Rodeada de carinho e alegria, e embora consciente de que também no Natal se sofrem desgostos, quando a festividade se aproximava eu afastava de mim todos os pensamentos melancólicos. Concentrava-me no júbilo do nascimento de Jesus, na felicidade de reencontrar a família e receber presentes, no luxo das festas e das iluminações natalícias.
Mais tarde, deixei-me imbuir da euforia de enviar cartões e oferecer lembranças, satisfeita por, durante essa época do ano, poder reavivar velhas amizades, obsequiar pessoas por quem sentia gratidão e respeito, e até mesmo corresponder a pequenos favores ou gentilezas que, confusamente, recebera e não soubera retribuir de outro modo.
Os cartões, então, eram receptáculos dos meus bons desejos para a humanidade. Escrevia-os inocentes, ingénuos, exaustivos, enumerando as benesses que sobre o destinatário desejava ver recair. E, ao endereçar e encerrar cada envelope, sabia que o amor depositado em cada missiva não poderia deixar de beneficiar a vida de quem a recebesse. Estava certa de que todos notariam a escolha criteriosa da estampa, o cuidado com que desenhara as letras, a suavidade da caligrafia, a genuinidade dos votos expressos, e sentir-se-iam felizes.Outra circunstância, não irrelevante, consistia no facto de os votos se destinarem a cobrir, não apenas o período natalício, mas todo o novo ano que logo se iniciaria.
Por outras palavras, ao escrever e enviar um cartão de Natal (e eu fazia-os às dezenas!) estava a ofertar ao destinatário todo um ano repleto de saúde, alegria, felicidade, amor e prosperidade!
Aconteceu, no entanto, que, nos primeiros dias de Janeiro de há uns anos atrás, uma tristíssima ocorrência alterou por completo a minha visão do Natal. O meu tio Alberto, irmão mais novo do meu pai, que estava longe, faleceu. O choque foi imenso! O meu pai telefonara-lhe alguns dias antes, e ele parecia bem. Como podia ter-nos deixado tão subitamente?!
Embora o tio Alberto tivesse vivido muitos anos separado de nós, os contactos com ele eram muito frequentes, e sentíamo-lo como alguém extremamente chegado. Contribuía para essa intimidade e para essa estima a sua enorme semelhança com o meu pai, quer na fisionomia, quer nos gestos e até na voz. E, sendo o irmão mais jovem, nunca nos passara pela cabeça que pudesse partir assim! Mas o que me impressionou especialmente foi o aperceber-me de que ele adoecera exactamente durante o período que antecedera o Natal, ou seja, quando, com tanto fervor e amor, eu lhe escrevera um cartãozinho, expressando os sinceros desejos de muita saúde, alegria, felicidade…
E, quando, na noite de Natal, erguendo os copos de vinho, os entrechocávamos, sorridentes, brindando aos presentes e aos ausentes, a todos desejando muita saúde e felicidade, ele era hospitalizado. Afinal, os nossos votos nada significavam! Os meus desejos, os meus apelos, o meu amor de nada valiam! E, no ano que se seguiu, não consegui escrever cartões de Natal. A compra dos presentes tornou-se um fardo. A alegria festiva, anunciada na televisão e na rádio, pareceu-me artificial – o Natal perdera o seu encanto!Interrogava-me: poderemos algum dia reencontrar a alegria e festejar o Natal, depois de perdermos um ente querido durante esta época?
O tempo, que mitiga as dores e nos devolve, aos poucos, a serenidade, acabou por me trazer a resposta no Natal seguinte: O Natal tem que ver com o nascimento de Jesus. Tem que ver com o surgimento de uma nova vida, cheia de energia, de amor e de esperança! E, assim, olhando as crianças, encontramos nos seus rostinhos, nos seus sonhos, nas suas palavras, nos seus olhares, nos seus gestos, o espírito do Natal. E, por eles, escondemos os nossos desgostos, afastamos as nossas mágoas, enfeitamos a árvore de Natal, montamos o Presépio, estendemos a toalha de linho e de renda sobre a mesa, colocamos as loiças de festa, distribuímos os copos de cristal que só deixam o armário uma vez por ano, utilizamos os talheres que lavámos e polimos até brilharem, preparamos as receitas antigas de peru e doçaria, fritamos os coscorões e as fatias douradas, compramos o mais bonito bolo-rei que conseguimos encontrar, e asseguramo-nos de que o Menino Jesus e o Pai Natal deixarão, nos sapatinhos das crianças, os presentes tão desejados. Depois, aquecemos a casa e, acendendo os candeeiros e os candelabros, inundamo-la de luz. Convidamos a família. Ao recebermos, à entrada, cada parente recém-chegado, sentimo-nos felizes por tê-lo junto de nós. Falamos e damos risadas, contentes, enquanto tomamos em nossos braços o seu casaco, e por baixo disfarçamos o saco com os presentes trazidos para as crianças.
As crianças, ah!, essas, correm de sala em sala, risonhas, felizes, brincando com os primos, espreitando o Presépio, observando as luzinhas do pinheiro decorado com fios dourados, figurinhas de madeira e bolas brilhantes.
Olhamos os meninos, agradecendo a Deus pela graça de os ter trazido até nós, e com eles uma nova alegria, fé e esperança! E em cada novo Natal lançamos, nas suas mentes e nos seus corações pequeninos, as sementes que mais tarde germinarão em recordações felizes dos Natais das suas infâncias.


Ilona Bastos
Lisboa, 4 de Dezembro de 2005

segunda-feira, 24 de novembro de 2008



V. Turnbull

"Repare bem - diz ainda Durville - que os pensamentos de bondade, benevolência, alegria, esperança, valor e confiança, possuem em si e por si mesmos um poder organizador que assegura a nossa saúde física, atrai para junto de nós tudo quanto é bom e prepara a nossa felicidade, enquanto que a maldade, o ódio, a indolência, a tristeza, o desespero constituem forças destruidores que arruinam nossa saúde física, nos fazem detestados de quantos nos rodeiam e nos arredam do que é bom, preparando-nos assim a infelicidade.

"As pessoas boas, benfazejas, perseverantes, alegres e cheias de esperanças, são atraentes; possuem já a personalidade magnética até um certo grau e têm naturalmente todas as qualidades requeridas para desenvolvê-la rapidamente até um ponto mais elevado. Os malvados devem converter-se, senão em bons, pelo menos em melhores. Os desesperados, os que não chegaram a coisa nenhuma, devem compreender que o fracasso é devido à sua insuficiência, à sua inépcia, à sua ignorância, e devem aprender para obter algum resultado."


V. Turnbull, Curso de Magnetismo Pessoal

sábado, 15 de novembro de 2008


No Rossio Eram Gaivotas


São os pombos, os melros e os pardais
os velhos, os novos e outras gentes
as flores, as bancas e os jornais
as fontes e seus jorros transparentes
as lojas, os cafés, as esplanadas
os turistas, os apressados, os indolentes
os gritos, os sussurros, as risadas
as verdes copas e as castanhas quentes

Porque assim é e sempre foi
na realidade...

Mas neste início de uma tarde calma
azul o céu, brilhante o sol, sereno o ar
tudo em redor ganhou uma nova alma
pois no Rossio eram gaivotas a voar.


Ilona Bastos

quinta-feira, 13 de novembro de 2008


Quando te abrigavas no meu ventre, e eu descia pausadamente esta avenida suave e curva, olhava, por sobre o muro do jardim, as árvores, as flores, os carreiros pejados de folhas e dizia: Vê, meu filho, meu amor! Quanta beleza te espera cá fora!
E quando ouvia os gorjeios dos pássaros escondidos nas ramagens, sorria e murmurava para ti: Escuta, que maravilha! Cantam, as aves, de alegria, por saberem que vais nascer!
E em todos os momentos contigo conversava, confidenciando-te segredos, prometendo-te um mundo encantador, cheio de felicidade, contando-te da ânsia de sentir-te nos meus braços, aconchegar-te junto ao peito, criar-te.
Recordo-me de tudo isto agora que já és homem, e que uma incógnita me atordoa.
Pausadamente desço a avenida, como o fazia então – e também hoje faço o meu olhar saltar o muro baixo, atravessar as grades e espraiar-se pelo jardim, caminhar pelos carreiros, acariciar as sebes, deter-se nas bagas vermelhas e redondas de um arbusto, voejar por entre as folhas douradas que aqui e ali se desprendem dos ramos, planam um pouco e aterram suavemente nos caminhos.
A beleza é semelhante à de outrora. Também o meu espírito se deleita com a Natureza. Mas a dúvida, subtil, insidiosa, macula, incerta, a minha felicidade. Não sei, agora, o que se abriga em mim.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

"Todo o mundo sente que também "votou" em Obama."


Barack Obama - What A Wonderful World (Louis Armstrong)
Video by ANewDawn08

quarta-feira, 5 de novembro de 2008


E eis que subitamente o sol brilha!
No mais improvável dos momentos, quando o céu cor-de-chumbo ameaça desabar sobre nós, eis que, por entre a pesada camada das nuvens, numa inesperada clareira de azul, um jorro de luz se lança sobre a Terra! E tudo sorri, em redor. Não é ilusão do meu cérebro, que desperta, nem do meu coração, que se alvoroça. É a alegria do sol que insufla vida na paisagem.


Acerco-me da janela e fico a observar a chuva a bater, a colar-se ao vidro por fracções de segundo e a escorregar lentamente, deixando atrás de si um rasto brilhante.
Preparo-me para recebê-la condignamente: visto-me, calço-me, coloco a bolsa a tiracolo, pego na pasta e saio.
Cá está a chuva prometida!
Estranhamente, os outros parecem não vê-la… Deixam os edifícios, caminham pelo passeio, saem dos automóveis, atravessam a rua desprotegidos, como se a não sentissem. Alguns levam mesmo o chapéu-de-chuva no braço, como se de um adereço inútil se tratasse. Só eu subo a rua de gabardina abotoada, guarda-chuva a cobrir-me, chapéu enterrado na cabeça.
Espanto-me. Será que só chove em mim?
Detenho o olhar nas poças de água, onde as gotas, com um só toque, desenham círculos sucessivos, concêntricos, num ondear expressivo. Também sobre o fundo das árvores, escurecidas pelo céu nublado, confirmo as rectas que a chuva risca num movimento ininterrupto.
Será possível que só eu veja e sinta a chuva?
Eis que alcanço a avenida e as dúvidas se dissipam. Aí, a chuva é real nos transeuntes que se deslocam apressados, de botas calçadas, guarda-chuvas abertos, correndo da esquerda para a direita e desta para a esquerda, alheados de tudo o que não seja o seu destino. Nas paragens, recolhem-se debaixo dos abrigos, olhos abertos, expectantes, ou sobrancelhas franzidas. Os autocarros chapinham junto à calçada, e aguardam pacientemente que os rapazes da escola atravessem a passadeira, pesadas mochilas às costas, capuzes na cabeça, mãos nos bolsos, passo decidido. Por vezes, pequenas corridas. E as meninas, de cabelos ao vento, conversam sem parar. Os automóveis sibilam, limpa pára-brisas em acção, avançando sobre o passeio, para deixar uma criança, arrancando depois, com sofreguidão, nos sinais luminosos.
Sim, isto é um dia de chuva – reconheço.
E lanço então os meus passos sobre a multidão em movimento.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008


Ravissante...
.
O JARDIM
.
.
Ontem escrevi poemas
Nos canteiros do meu jardim.
Animada, afogueada, em alvoroço,
Abraçada a vasos, folhas e pétalas,
Inspirada ao aspirar o aroma silvestre
Das flores, das plantas, da seiva,
Declinei o lápis sedutor e o papel,
Tomei a terra, o ancinho e a colher,
Decidida, quebrei ressequidas ramagens,
Exaltada, daninhas ervas arranquei,
Ao solo me lancei, confiante, e mergulhei
Minhas mãos, na terra fértil e gentil.
Tirei pedras e raízes, desenhei linhas
De promissores bolbos, enterrados
Sob o húmus revolvido e alisado.
Sementes lancei, em métrica cuidada.
Azáleas rimei com admiráveis ciclamens.
Margaridas de fogosas vestes combinei
Com amarelos narcisos em sono recatado.
Confortei o cândido limoeiro e ergui, por fim,
Para o céu, o corpo cansado e feliz,
As faces coradas, o cabelo em desalinho,
Acompanhando a aragem e o sol alaranjado –
Chave de ouro de outonal entardecer –
No caminho luminoso do Poente.
,
,
Il
Ilona Bastos
Lisboa, 28 de Setembro de 2004

domingo, 26 de outubro de 2008


E se eu largasse o meu olhar?

E se o deixasse percorrer o mar imenso,
Lançar-se, livre, no céu infinito,
Cavalgar pela planície, até ao horizonte?

E se o meu olhar tudo abarcasse
(A humanidade, a fauna, a flora!)
E nele guardasse toda a criação?

E se o meu olhar fosse microscópico
E distinguisse o grão, a gota, a bactéria?

E se o meu olhar fosse macroscópico,
E nele coubessem todas as estrelas e as galáxias?

E se visse o invisível, e, para si, as ondas,
Os aromas e os sons mostrassem cores
E formas dos outros desconhecidas?

E se eu seguisse o meu olhar, e com ele...

Nadasse os oceanos, tal um golfinho,
Voasse pelo azul, como gaivota,
Ganhasse velocidade sobre a pradaria?
(Cavalo selvagem, outrora detido, agora liberto…)

E se tudo soubesse do que via
E a razão de tudo se revelasse?

E se atingisse a molécula, o átomo, o quark,
A mais ínfima partícula, e entendesse
Afinal, do que é construído o Universo?

E se o meu olhar e eu fossemos o mais longe
que é possível ir, e regressássemos
o mais depressa que é possível vir, para contar?

Que encontraríamos e saberíamos,
Que contaríamos, eu e o meu olhar?

Ilona Bastos
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Wild Horses (Ennio Morricone For a few dollars more)
Vídeo by LonelyMoonRise

quarta-feira, 22 de outubro de 2008



Luís Sepúlveda

" Vi-o rumar em direcção ao Nishin Maru e, quando chegou lá, os tripulantes começaram a atirar-lhe lixo para cima, latas e desperdícios, que o Pedro lhes devolvia sem conseguir atingi-los. Depois começaram a fustigá-lo com um jorro de água. Os japoneses riam enquanto o inundavam, e o Pedro concentrava-se em manter o escaler a flutuar.
"Eu não sabia, não era capaz de imaginar o que é que ele pretendia ao manter-se colado ao Nishin Maru, enquanto os tripulantes até lhe urinavam para cima, e o que depois aconteceu vai o senhor ver amanhã, mas seria estúpido não lho contar agora.
"A um dado momento, quando mais duas mangueiras se tinham juntado à brincadeira e o Pedro já quase não conseguia manter-se a flutuar, emergiu junto ao escaler o dorso de uma baleia calderón, que, com todo o cuidado, empurrou o Pedro e a sua embarcação até os afastar do navio. Então, obedecendo a uma chamada que nenhum outro humano ouviu no mar, um chamamento tão agudo que estremecia os tímpanos, trinta, cinquenta, cem, uma multidão de baleias e de golfinhos nadaram velozmente até quase tocarem a costa, para regressarem com maior velocidade ainda e chocarem as cabeças contra o barco.
"Sem lhes importar o facto de que em cada ataque muitos morriam de cabeças rebentadas, os cetáceos repetiram os ataques até que o Nishi Maru, empurrado contra a costa, correu o risco de encalhar. Levaram-no para muito perto dos recifes e havia pânico a bordo."
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Luís Sepúlveda, Mundo do Fim do Mundo


Os Balanços do Vendaval

Desfazem-se as árvores
No vendaval.
Folhas, galhos e ramos
Rebolam pela rua
Em abandono.

Trémulas, as folhas
Vibram desgovernadas,
E à nova rajada se debatem,
Agitam e voam.

As flores tilintam
As corolas coloridas,
Despenteadas, desfolhadas,
Desprotegidas.

Os humanos vultos inclinam-se,
Às roupas e ao corpo abraçados,
Cabelos em labareda,
Contra o vento.

E avança, plúmbeo, sobre a terra
O imenso manto das nuvens.

Ah! As minhas flores!
As que plantei com tamanha devoção!
Aguentarão os balanços do vendaval?


Ilona Bastos
Lisboa, 8 de Outubro de 2004