segunda-feira, 9 de março de 2009

sábado, 7 de março de 2009


Karl Jaspers

"A filosofia é o acto da concentração pelo qual o homem se torna autenticamente no que é e participa na realidade.
Embora a filosofia possa inspirar qualquer pessoa, mesmo uma criança, sob a forma de pensamentos simples e ineficazes, a sua elaboração consciente é tarefa nunca totalmente cumprida e sempre repetida na sua totalidade presente; assim surge nas obras dos filósofos maiores e, em eco, nas dos menores. A consciência desta tarefa, qualquer que seja a forma que assuma, manter-se-á perenemente enquanto os homens forem homens."


Iniciação filosófica, Karl Jaspers, Guimarães & C.ª Editores



Artwork:Leonora Carrington
Depois da chuva...


A Tempestade Partiu

Agora, que a tempestade partiu,
Escrevo sobre explosões de luz e felicidade.
É a vida! É a vida! Quero agarrá-la!
Finco-me aos raios do sol matinal,
Abraço-me às brancas nuvens
Que o céu enfeitam com encanto,
Deslizo e danço pelo azul celeste,
Mergulho no amarelo dourado das orquídeas.
Como criança, salto correndo
Em passadas largas e leves pela calçada.
Agora, que a tempestade partiu
Volto a agarrar a vida

Ilona Bastos

Ipê Amarelo-2008

quinta-feira, 5 de março de 2009

É quando algo se intromete e sobrepõe a tudo o resto, quando se impõe, se instala e nos comanda, que sentimos ser mais do que somos, veículo do que sobre nós impera, soberano.

Ilona Bastos

terça-feira, 3 de março de 2009

Depois de uma noite de chuva
e de temível trovoada,
insuspeitos arbustos amanhecem
cobertos de flores amarelas.
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Ernesto Cortazar - Youth
Video by mirch11
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Dou por mim a pensar:

E se for um pouco mais de cor?
E se for aroma?
E se for som: música, ruído ou canto?
E se for sol e luz?
E se forem passos, leves, pela calçada?
E se for o ar a acariciar-me, em movimento?
E se for sorriso e fala?
E se for sabor - intenso, instigante - a café?
E se for filósofo, a questionar-se?
E se for cientista, a desvendar-se?
E se for vida?
E se for ternura?
E se for amor?

E se for a Primavera a insinuar-se
delicadamente, nos meus dias?


Ilona Bastos

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009


MÚSICA SACRA


Nas vossas vozes,
a nave, as ogivas, o altar,
os vitrais, a Mãe do Redentor,
a vida dos santos, os anjos,
o luzir das chamas,
as velas, as colunas,
os bancos, os vultos
atentos, orantes,
e a poeira a pairar
no raio de luz que entra
e se estampa, dourado,
no mel da madeira.

Nas vossas vozes potentes,
alvoroçadas de alegria,
em súbitos gritos de júbilo,
"Aleluia! Aleluia!
O Senhor Ressuscitou!" ,
há Deus!

.
Ilona Bastos

Oliver Sacks

"Pode a mais breve exposição à música clássica estimular ou promover as capacidades matemáticas, verbais e visuo-espaciais em crianças? No início da década de 90, Frances Rauscher e os seus colegas da Universidade da Califórnia em Irvine criaram uma série de estudos para ver se ouvir música poderia modificar os poderes cognitivos. Publicaram vários estudos fundamentados, nos quais explicavam que ouvir Mozart (em comparação com ouvir música "relaxante" ou o silêncio) intensificava temporariamente o raciocínio espacial abstracto. O efeito Mozart, como foi denominado, não só estimulava a controvérsia científica, mas causava uma intensa atracção jornalística e, inevitavelmente, reivindicações exageradas que para modo nenhum eram sugeridas nos modestos relatórios originais dos investigadores. A validade de tal efeito Mozart tem sido contestada por Schellenberg e outros, mas o que está acima de qualquer disputa é o efeito de treino musical intensivo e precoce sobre o moldável cérebro jovem. Utilizando a magnetoencefalografia para analisar potenciais auditivos evocados no cérebro, Takako Fugioka e as suas colegas têm vindo a registar mudanças notáveis no hemisfério esquerdo de crianças que fizeram um único ano de formação em violino, em comparação com crianças sem qualquer formação.

"A implicação de tudo isto para a educação básica é clara. Apesar de uma colher de chá de Mozart provavelmente não poder tornar uma criança melhor a matemática, há poucas dúvidas de que a exposição regular à música e especialmente a participação activa na música podem estimular o desenvolvimento de várias áreas diferentes do cérebro - áreas que têm de trabalhar em conjunto para se ouvir ou tocar música. Para a maior parte dos estudantes, a música pode ser tão importante em termos educativos como a leitura ou a escrita."

Oliver Sacks, Musicofilia, pág.104, Antropos, Relógio d'Água

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009



Como se enche de alegria, a Natureza, sob esta chuva vertical e contínua que faz vicejar os canteiros, as floreiras e a própria mata que diante de meus olhos se ergue, belissimamente verde, até ao branco do céu!

Se a tristeza pudesse de algum modo afectar-me, bastaria a visão das sardinheiras a sorrir na varanda, das folhas dos narcisos a despontarem da terra, para que o meu espírito se iluminasse.

Assim é, de facto: a água é vida, na acepção feliz da palavra, no que ela implica de nascimento e renascimento, no que dela flui de movimento e mudança permanentes, de esperança renovada, de propósitos firmados no sentido do aperfeiçoamento, sempre a caminho do melhor, do mais belo, do mais puro.


Mendelssohn Piano Concerto no.1(2)

Dang Thai Son is playing Mendelssohn G-minor Concerto for the opening night of the 15th International Frederick Chopin Piano Competition

O piano e a chuva conjugam-se maravilhosamente. Como se o bailado da abertura do cortinado desvendasse, na grandiosidade da paisagem verde da mata, o simples prolongamento destas notas vibrantes e felizes que o piano produz. A chuva caindo, o piano tocando, a sensação de que o todo se harmoniza e completa, com energia vital, persistência, plenitude, entusiasmo encantador!

Ilona Bastos

sábado, 24 de janeiro de 2009



VOANDO COM O VENTO


Era uma vez uma pequena pastora chamada Rosa Branca, que vivia com os pais no sopé de uma montanha. De criança, haviam-na incumbido de subir ao monte todos os dias, para guardar o rebanho. E a pequenita, envolta na sua capa de lã, trepava com esforço, encosta acima, até pastagens verdes e tenras.

Ora acontece que certo dia, achando-se Rosa Branca no topo da montanha, entretida a atirar pedras ao longe, para o cão as abocanhar e trazer de volta, ouviu um som sibilante.

Olhou em redor, para baixo e para cima, e acabou por compreender que nada de visível ou tocável emitira tal ruído, pelo que o mesmo se apresentava como que originado do ar. Era o ar que falava, ou melhor, o ar em movimento: o vento.

O vento que, no céu muito azul, impelia as nuvens, pujantes e luminosas, a grande velocidade, qual cajado de pastor guiando o seu rebanho para o norte. O vento que, ao ouvido de Rosa Branca, murmurava, sussurrava, brincando-lhe com os braços e as pernas, puxando-lhe o cabelo, roçando-lhe a cara.

A menina sorriu de prazer. E logo, numa troca de sons e aragens, o vento criou uma relação amigável com a pequena pastora, ao ponto de nesse fim de tarde, de regresso a casa, montanha abaixo, sentir a garota que o vento a acompanhava e amparava na descida.

No dia seguinte, também para a subida - esta mais difícil - o vento deu o seu contributo, empurrando energicamente Rosa Branca, de tal forma que lhe bastou dar amplas passadas pelo ar, que do resto a aragem se encarregou. E em três tempos chegou às pastagens do alto.

Como se entendiam, que ideias ou correntes trocavam, não é sabido, apenas que desde então Rosa Branca deixou de se fazer transportar de carroça, carro ou camioneta, pois que voava com o vento: se queria subir, de imediato um impulso do ar a fazia ascender; se desejava descer, súbita rajada a empurrava em tal sentido - tudo por modos que as distâncias deixaram de existir e, como é costume dizer-se, do longe se fez perto.

O tempo foi passando, Rosa Branca cresceu e, dotada de tal atributo, cansou-se de permanecer na Aldeia. Disse então aos pais que desejava mudar-se para a Grande Cidade, o que estes aceitaram. Na verdade de nada lhes servia levantar oposição - pois pode alguém prender o vento? E à pequena pastora, de mochila às costas, bastou declarar suavemente:

- Para a cidade, vamos!

Ao primeiro passo, o vento empurrou-a, ao segundo passo, o vento dominou-a, e ao terceiro passo, lá ia a menina de cabelos no ar, os braços abertos, as pernas movendo-se em largas passadas pelos verdes campos fora.

Chegada à Grande Cidade, Rosa Branca buscou acomodações em casa de uma parente de há muito saída da Aldeia. A prima Margarida recebeu Rosa Branca com agrado, mas disse-lhe que era pobre, que por isso apenas poderia dar-lhe abrigo no seu lar, com cama e roupa lavada. Quanto ao sustento, devia Rosa Branca buscá-lo fora. Havia, por isso, necessidade de que a pequena pastora arranjasse emprego.

Afoita e resoluta, a moça disse que em nada a abalava tal ideia, pois que de muito criança se habituara a labutar. E saíu em busca de trabalho.

Quando descia a Grande Avenida - uma das principais da cidade -, suavemente impelida pela mesma brisa que afagava o mármore das frontarias, Rosa Branca avistou um letreiro, dependurado de uma vitrine, que pedia para aquela loja uma empregada.

Sem hesitar, a menina entrou, e meia dúzia de palavras trocadas já se encontrava cá fora, com um lenço a tapar-lhe os caracóis escuros, um balde com água e detergente numa mão, e uma esponja na outra. Seguia-a a dona do estabelecimento, segurando um pequeno escadote e fazendo-lhe recomendações para que não caísse.

Ora cair! Como se o vento desamparasse alguma vez a sua protegida!

E, sem a ajuda da escada, Rosa Branca lavou a magnífica montra, limitando-se a dar pequenos saltos quando desejava subir um pouco mais, ou seja, alcançar o cimo do vidro, uns bons metros acima da sua cabeça.

É claro que tal cena tinha necessariamente de chamar a atenção dos transeuntes. Estes, que em grande número desciam a avenida, no afã das compras, detiveram-se junto àquela loja, perante a moça de faces rosadas que, em largos gestos dos braços e das pernas, polia os vidros, ora em baixo, junto ao empedrado da calçada, ora no cimo, erguendo-se no ar como que por magia!

Para encontrar a explicação do que julgavam ser um truque ou uma ilusão de óptica, as pessoas começaram a entrar no estabelecimento, a fazer perguntas, e a comprar.

Depressa a proprietária da loja, Dona Dália, se apercebeu da fantástica qualidade de Rosa Branca, e passou a mandá-la para a entrada, para lavar as vitrines e as portas, assim atraindo enorme clientela.

Aproximava-se o Natal, e a Dona Dália vendia como nunca. Estava satisfeitíssima, e pôde mesmo aumentar o ordenado da sua jovem empregada, que também não cabia em si de contente. Afinal de contas, ganhava o necessário ao seu sustento, e conseguia ainda contribuir para as despesas da sua prima Margarida, sobrando-lhe um pecúlio que enviava para os pais, lá na Aldeia.

Passados o Natal e a euforia das Festas, que haviam transformado a Grande Avenida num verdadeiro salão recoberto de enfeites luminosos de várias cores e inundado de gente e música, começou Rosa Branca a sentir-se entediada do serviço. Na verdade, para quem dantes voava, montanha acima, montanha abaixo, e corria pelos campos fora, desafiando as nuvens, limitar-se agora a subir uns quantos metros tornava-se deveras aborrecido.

Também, diariamente eram apresentadas à pequena novas propostas de emprego, pretendendo dar uso à sua estranha capacidade. Grandes empresas desejavam contratá-la como paquete, para dentro dos arranha-céus de cinquenta andares transportar rápida e eficazmente documentos importantes, sem necessidade de utilizar os sempre superlotados e morosos elevadores. Circos famosos pretendiam exibi-la em magníficos espectáculos, atravessando em gigantescas passadas as enormes tendas de lona...

Só que nenhuma destas ofertas Rosa Branca considerava, pois sabia - e só ela o sabia! - que os seus braços, as suas pernas, o seu corpo, não voavam, qual pássaro: era, sim, o vento que a tomava e levava. Debaixo de um telhado ou abrigada entre paredes, a menina era exactamente igual a todas as outras, nada de especial a diferenciando.

Pensava Rosa Branca no rumo a dar à sua vida, quando certo dia a Dona Dália apareceu na loja a chorar. O seu filho Jacinto estava muito doente, e os médicos afirmavam que apenas o poderia salvar um remédio muito raro, existente numa única cidade do mundo: a Cidade do Nascer do Sol, que ficava exactamente do outro lado da Terra. Dada o urgência em conseguir o medicamento, e a distância a que este se encontrava, parecia improvável que o rapaz tivesse salvação. Mesmo de avião, a viagem de ida e volta levaria muitas e muitas horas, com que Jacinto não podia infelizmente contar.

Rosa Branca, perante a pobre mãe chorosa, sentiu o coração saltar no peito, enquanto os olhos lhe ganhavam um brilho especial. Havia uma solução! Só havia uma solução! Correr até à Cidade do Nascer do Sol e trazer o medicamento para Jacinto!

A menina e o vento tinham, desta vez, uma missão importante. Não se tratava simplesmente de levar carneiros para o pasto, ou de entreter transeuntes na Grande Avenida. Agora, havia uma vida para salvar!

Fixado o endereço do Hospital onde se encontrava o remédio salvador, e estudado o percurso a seguir, Rosa Branca pôs-se a caminho, arrastada pelo vento.

Pés na estrada, mochila às costas, inspirou profundamente e avançou. Logo o vento correspondeu assobiando, primeiro muito ténue, muito terno, depois fortalecido em rajadas sibilantes que faziam a menina galgar extensões enormes, impensáveis, ultrapassando planícies e rios a que se seguiam montanhas e cordilheiras, oceanos e continentes. Os alísios ajudavam, correntes intensas tornavam-se cúmplices na aventura - a menina seguia de vento em popa. E se das estradas se aproximava, os condutores ficavam a observá-la, boqueabertos perante os seus cabelos ao vento, o seu olhar fito no horizonte, os seus pés velozes mal tocando o chão.

Rapidamente, Rosa Branca atingiu a Cidade do Nascer do Sol, encontrou o Hospital, tomou em suas mãos o medicamento precioso e guardou-o cuidadosamente na mochila. Sem se deter, acenou adeus aos doentes que haviam acorrido às janelas do edifício e, sorrindo, lhe desejavam um bom regresso. Célere, murmurou:

- Amigo vento, regressemos agora!

Logo o vento, para espanto de todos - e principalmente dos marinheiros que na baía orientavam as suas velas -, logo o vento mudou de feição, passando a soprar na direcção da Grande Cidade. E a moça, abrindo os braços, reiniciou passadas imensas pelo ar.

Ao entardecer Rosa Branca chegava à Grande Cidade e entregava à Dona Dália o remédio, que esta de imediato dava de beber a Jacinto. Com o olhar brilhante e as faces coradas, o rapaz engoliu o líquido dourado que a menina trouxera. Depois, com os olhos, muito escuros, pousados em Rosa Branca, murmurou apenas:

- Obrigado!

Toda a noite Rosa Branca permaneceu junto de Jacinto, assistindo o seu sono inquieto. O vento assobiava, insistente, pelas frestas das janelas e das portas, com uma energia colossal. Finalmente, pela manhã, Jacinto acordou sem febre, sorriu e tomou o caldo que a mãe lhe preparou. O pior já passara - Jacinto estava salvo!

Cansada mas tranquila, Rosa Branca saíu para o sol e deixou-se levar pelo vento até casa. Surpreendida, viu-se rodeada de pessoas que a acompanhavam no seu trajecto. Saudavam-na, agradeciam-lhe, esboçavam festas ou pedidos. Outros, tiravam-lhe fotografias e imploravam autógrafos. Em suma, Rosa Branca tornara-se famosa pelo seu feito.

O vento amparava-a como sempre, mas agora muito meigo, quase apagado, consciente do seu cansaço, do seu espanto, lendo-lhe no olhar o tal brilho que ninguém mais sabia explicar.

Durante os dias seguintes, os jornais, a rádio e a televisão não se cansaram de apregoar as estranhas qualidades de Rosa Branca, que correra e voara qual foguete espacial. Todos queriam entrevistas, uma resposta, uma palavra que fosse, um sorriso. Rosa Branca, a pequena pastora, era um fenómeno!

Cansada de tanto alarido, a moça regressou à Aldeia dos pais. Junto à montanha reencontrou, cheia de felicidade, o seu cão, as ovelhas, as ervas mais verdes e tenras do alto. Ali tudo permanecia como dantes. Ao alvorecer o galo cantava. Logo cedo havia que tratar dos animais. Nas subidas pela encosta, com o rebanho e o vento, encontrava renovado prazer.

Certa tarde, andava Rosa Branca pelos campos e sentiu a chegada de um automóvel. Nele vinha Jacinto, já completamente recuperado da doença. Queria agradecer-lhe a sua cura. E a moça levou-o a passear pelas encostas da montanha e junto ao ribeiro.

Muito conversaram Rosa Branca e Jacinto, e a pastora confidenciou ao rapaz o seu segredo. No cimo do monte, observando juntos a imensidão dos céus e os cúmulos enormes que avançavam, tridimensionais, brancos e magníficos, Jacinto sentiu também o vento no interior de si. E mais não foi necessário para que de mãos dadas viajassem os dois, cheios do ar puro das alturas, tão majestosos como as nuvens do céu.
Para Rosa Branca e Jacinto o futuro estava traçado. O vento unira-os e nada podia separá-los. Casaram na Aldeia, numa festa que reuniu a família e os amigos. Depois partiram, felizes.

Agora vivem em África, onde se dedicam a auxiliar as populações pobres e isoladas. Transportam e distribuem notícias, livros, alimentos, água e medicamentos. Nas escolas e hospitais sitos nos mais recônditos locais do continente africano, os seus nomes soam a esperança. Pela savana são familiares as suas figuras esvoaçantes. Sem a intervenção da televisão e dos jornais, os actos de Rosa Branca e Jacinto não são dados a conhecer ao mundo, mas ficam guardados, com eterno reconhecimento, no coração das crianças, mulheres e homens a quem ajudam.

De quando em quando Rosa Branca e Jacinto voltam à Aldeia, com os seus filhos, Jasmim e Violeta.

Pela tarde, brincando com o cão ou colhendo flores amarelas na montanha, todos voam com o vento!


Ilona Bastos

domingo, 18 de janeiro de 2009


Não sei se mais aprecio o veludo acolchoado dos pinheiros mansos a cobrir a encosta, se a desenvoltura flamejante dos pinheiros bravos a estamparem-se contra o eucaliptal.

Só sei que uma súbita emoção me toma quando avisto o verde escuro das copas contra o céu azul soberbamente nublado.

Deixem-me o verde, deixem-mo, depois de tudo ir.
Deixem-me os ramos dos pinheiros, a seiva,
O mato, as sebes, quando for hora de partir.
Deixem-me os vários tons, as formas,
As mais incautas plantas, mesmo se tudo ruir.
Deixem-me o verde, somente o verde, deixem-mo
Até que seja tempo de florir.

Mesmo que azul não haja, deixem-me o verde.
Mesmo que a luz se apague, deixem-me o verde.
Mesmo se há choro e lama, deixem-me o verde...

.É ali, naquele recanto, que eu vou esconder-me.
É ali, junto à erva fresca e orvalhada,
Que eu vou perder-me.

Dali farei o meu mundo. Ali reinarei, soberba.
E não me sigam, não me procurem, não me encontrem.
Ali, ali estarei e ficarei, feliz.


IIona Bastos

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008


Uma crónica de Natal


São felizes as recordações que guardo dos Natais da minha infância.
Reconheço que algumas das memórias possam ter sido douradas pelo tempo, mas sei, também, que se ao pensar nos Natais de então os sinto como felizes, é porque essas festas antigas algumas sementes de felicidade em mim depositaram, fazendo germinar as imagens que agora contemplo.
Lembro-me, assim, de casas quentes e cheias de crianças risonhas, e de festas bem iluminadas por lustres e candelabros, cuja claridade tornava brilhantes as loiças, os copos de cristal, os talheres, o rendilhado das toalhas de linho, as comidas e doces tradicionais, as imagens do Presépio e os enfeites natalícios, revestindo tudo e todos de uma película de luxo e encanto.
O interessante é que eu não gosto particularmente do luxo, ou do que habitualmente se considera como tal. Mas o luxo da luz, do brilho, da transparência dos vidros e dos cristais associa-se, no meu espírito e no meu coração, ao calor humano, ao carinho, ao convívio, às risadas e correrias, aos momentos de felicidade!
De estranho, ficou-me, porém, durante longos anos, o mistério de as minhas tias avós – traves mestras da família –, se encontrarem ausentes dessas festas da consoada ou do dia de Natal, as quais eram sempre realizadas nas casas dos familiares mais jovens (que eram, nessa época, os meus pais, os meus tios e uns primos da mesma idade). Por qualquer motivo que eu não chegava a compreender, quando se falava em convidar as tias para estas reuniões festivas, havia um adulto que adoptava um semblante grave, baixava a voz, e respondia que as tias preferiam passar o Natal tranquilamente, na sua casa.
É claro que as tias eram muito idosas, sabíamo-lo. A doce tia Amélia, aproximava-se dos noventa anos e a querida tia Helena não estaria, também, muito longe dessa idade. A tia Leonor, com os seus belos olhos azuis, tinha já dificuldade em andar. E a adorada tia Ana, não era nenhuma jovem… Mas isso não as impedia de receber a família, todos os domingos, com um lanche apetitoso! Na verdade, se pensássemos bem, as tias festejavam todo o ano, com excepção do Natal.
Só mais velha vim a compreender o que se passava com a família do meu pai e o Natal: a minha bisavó, mãe da minha avó e das minhas tias, falecera no Natal e, desde então, essa época passara a trazer a todos a recordação dessa severa perda, reavivando o desgosto ano após ano.
Por isso a contenção do meu pai, sempre tão animoso e entusiasta, que no Natal se mostrava mais recatado, embora proporcionando-nos, à nossa mãe e a nós, suas filhas, toda a alegria da época festiva.
Rodeada de carinho e alegria, e embora consciente de que também no Natal se sofrem desgostos, quando a festividade se aproximava eu afastava de mim todos os pensamentos melancólicos. Concentrava-me no júbilo do nascimento de Jesus, na felicidade de reencontrar a família e receber presentes, no luxo das festas e das iluminações natalícias.
Mais tarde, deixei-me imbuir da euforia de enviar cartões e oferecer lembranças, satisfeita por, durante essa época do ano, poder reavivar velhas amizades, obsequiar pessoas por quem sentia gratidão e respeito, e até mesmo corresponder a pequenos favores ou gentilezas que, confusamente, recebera e não soubera retribuir de outro modo.
Os cartões, então, eram receptáculos dos meus bons desejos para a humanidade. Escrevia-os inocentes, ingénuos, exaustivos, enumerando as benesses que sobre o destinatário desejava ver recair. E, ao endereçar e encerrar cada envelope, sabia que o amor depositado em cada missiva não poderia deixar de beneficiar a vida de quem a recebesse. Estava certa de que todos notariam a escolha criteriosa da estampa, o cuidado com que desenhara as letras, a suavidade da caligrafia, a genuinidade dos votos expressos, e sentir-se-iam felizes.Outra circunstância, não irrelevante, consistia no facto de os votos se destinarem a cobrir, não apenas o período natalício, mas todo o novo ano que logo se iniciaria.
Por outras palavras, ao escrever e enviar um cartão de Natal (e eu fazia-os às dezenas!) estava a ofertar ao destinatário todo um ano repleto de saúde, alegria, felicidade, amor e prosperidade!
Aconteceu, no entanto, que, nos primeiros dias de Janeiro de há uns anos atrás, uma tristíssima ocorrência alterou por completo a minha visão do Natal. O meu tio Alberto, irmão mais novo do meu pai, que estava longe, faleceu. O choque foi imenso! O meu pai telefonara-lhe alguns dias antes, e ele parecia bem. Como podia ter-nos deixado tão subitamente?!
Embora o tio Alberto tivesse vivido muitos anos separado de nós, os contactos com ele eram muito frequentes, e sentíamo-lo como alguém extremamente chegado. Contribuía para essa intimidade e para essa estima a sua enorme semelhança com o meu pai, quer na fisionomia, quer nos gestos e até na voz. E, sendo o irmão mais jovem, nunca nos passara pela cabeça que pudesse partir assim! Mas o que me impressionou especialmente foi o aperceber-me de que ele adoecera exactamente durante o período que antecedera o Natal, ou seja, quando, com tanto fervor e amor, eu lhe escrevera um cartãozinho, expressando os sinceros desejos de muita saúde, alegria, felicidade…
E, quando, na noite de Natal, erguendo os copos de vinho, os entrechocávamos, sorridentes, brindando aos presentes e aos ausentes, a todos desejando muita saúde e felicidade, ele era hospitalizado. Afinal, os nossos votos nada significavam! Os meus desejos, os meus apelos, o meu amor de nada valiam! E, no ano que se seguiu, não consegui escrever cartões de Natal. A compra dos presentes tornou-se um fardo. A alegria festiva, anunciada na televisão e na rádio, pareceu-me artificial – o Natal perdera o seu encanto!Interrogava-me: poderemos algum dia reencontrar a alegria e festejar o Natal, depois de perdermos um ente querido durante esta época?
O tempo, que mitiga as dores e nos devolve, aos poucos, a serenidade, acabou por me trazer a resposta no Natal seguinte: O Natal tem que ver com o nascimento de Jesus. Tem que ver com o surgimento de uma nova vida, cheia de energia, de amor e de esperança! E, assim, olhando as crianças, encontramos nos seus rostinhos, nos seus sonhos, nas suas palavras, nos seus olhares, nos seus gestos, o espírito do Natal. E, por eles, escondemos os nossos desgostos, afastamos as nossas mágoas, enfeitamos a árvore de Natal, montamos o Presépio, estendemos a toalha de linho e de renda sobre a mesa, colocamos as loiças de festa, distribuímos os copos de cristal que só deixam o armário uma vez por ano, utilizamos os talheres que lavámos e polimos até brilharem, preparamos as receitas antigas de peru e doçaria, fritamos os coscorões e as fatias douradas, compramos o mais bonito bolo-rei que conseguimos encontrar, e asseguramo-nos de que o Menino Jesus e o Pai Natal deixarão, nos sapatinhos das crianças, os presentes tão desejados. Depois, aquecemos a casa e, acendendo os candeeiros e os candelabros, inundamo-la de luz. Convidamos a família. Ao recebermos, à entrada, cada parente recém-chegado, sentimo-nos felizes por tê-lo junto de nós. Falamos e damos risadas, contentes, enquanto tomamos em nossos braços o seu casaco, e por baixo disfarçamos o saco com os presentes trazidos para as crianças.
As crianças, ah!, essas, correm de sala em sala, risonhas, felizes, brincando com os primos, espreitando o Presépio, observando as luzinhas do pinheiro decorado com fios dourados, figurinhas de madeira e bolas brilhantes.
Olhamos os meninos, agradecendo a Deus pela graça de os ter trazido até nós, e com eles uma nova alegria, fé e esperança! E em cada novo Natal lançamos, nas suas mentes e nos seus corações pequeninos, as sementes que mais tarde germinarão em recordações felizes dos Natais das suas infâncias.


Ilona Bastos
Lisboa, 4 de Dezembro de 2005