Kings of Convenience - Boat Behind
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
domingo, 11 de outubro de 2009
O vendedor de laranjas .
Naquele final de tarde de Verão percebi que o velho homem das laranjas, mais do que vida, era arte pura. Era pintura, de certeza, à luminosidade dourada do sol poente. Era bailado, era mímica. Era poema, era cinema por certo. Era até conto completo ou romance verdadeiro.
Naquele final de tarde de Verão percebi que o velho homem das laranjas, mais do que vida, era arte pura. Era pintura, de certeza, à luminosidade dourada do sol poente. Era bailado, era mímica. Era poema, era cinema por certo. Era até conto completo ou romance verdadeiro.
Naquele final de tarde de Verão, igual aos demais finais de tarde em que avistara o homem das laranjas, pareceu-me ser ele mais do que o habitual vendedor de fruta, debruçado, escolhendo, enchendo os sacos das laranjas e tangerinas e estendendo-os aos compradores, todos de braços erguidos para receber os frutos brilhantes, para entregar uma nota, para agarrar o troco, para cumprimentar.
Naquele final de tarde de Verão, os turistas que passeavam na calçada aproximavam-se do homem das laranjas na sua camioneta aberta, repleta de caixas com laranjas e tangerinas, e o homem, mergulhado naquele mar belíssimo, era mais do que um mero vendedor, era um ilusionista, um mimo, um actor.
Naquele final de tarde de Verão, na sua camisa aos quadrados, com o boné de fazenda na cabeça, o vendedor de laranjas erguia o corpo e o olhar, as mãos cheias dos redondos e sumarentos frutos, e atirava-os certeiros às mãos das crianças passantes, da senhora sozinha, do casal de namorados, do senhor idoso de gesto digno e calças impecáveis, às mãos abertas dos passageiros de cada uma das carruagens do comboiozinho de veraneantes que, lento, rodava perto - e assim, do homem das laranjas partiam visíveis ondas de alegria, que estampavam sorrisos em todas as faces.
Naquele final de tarde de Verão, o vendedor das laranjas distribuía fruta e ternura, e chamava de longe os banhistas cansados da subida pelas arribas, ainda cobertos da areia macia que lhes salpicava as roupas, as toalhas de praia, as bóias e os colchões cheios de ar.
Naquele final de tarde de Verão, ali mesmo, junto ao mar, ao som de uma flauta escondida pelas árvores, rostos felizes acorriam às varandas, dos prédios saíam pés ligeiros, pela calçada, mãos leves descascavam laranjas, e lábios sorridentes acolhiam os seus gomos generosos - numa sequência perfeita, com iluminação magnífica e definição divinal.
Naquele final de tarde de Verão, o velho vendedor de laranjas era estrela de cinema, era anjo, maestro, bailarino, mimo, poeta, personagem de romance. Era vida. Mais do que isso – era arte pura!
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Praia da Rocha, Julho de 2004
Praia da Rocha, Julho de 2004
Ilona Bastos
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Texto e foto de Ilona Bastos
sábado, 3 de outubro de 2009
Música: Isisip, The Lover's Kiss
Fotos e Vídeo de Ilona Bastos
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Isisip
domingo, 20 de setembro de 2009
Beat de S.T. - Fotografias e Vídeo de Ilona Bastos
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Vídeo de Ilona Bastos
sábado, 12 de setembro de 2009
Bento XVI
"Uma das pobrezas mais profundas que o homem pode experimentar é a solidão. Vistas bem as coisas, as outras pobrezas, incluindo a material, também nascem do isolamento, de não ser amado ou da dificuldade de amar. As pobrezas frequentemente nasceram da recusa do amor de Deus, de uma originária e trágica reclusão do homem em si próprio, que pensa que se basta a si mesmo ou então que é só um facto insignificante e passageiro, um "estrangeiro" num universo formado por acaso. O homem aliena-se quando fica sozinho ou se afasta da realidade, quando renuncia a pensar e a crer num Fundamento. A humanidade inteira aliena-se quando se entrega a projectos unicamente humanos, a ideologias e falsas utopias. A humanidade aparece, hoje, muito mais interactiva do que no passado: esta maior proximidade deve transformar-se em verdadeira comunhão. O desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento de que são uma só família, a qual colabora em verdadeira comunhão e é formada por sujeitos que não se limitam a viver uns ao lado dos outros."
Caritas in Veritate, Terceira Carta Encíclica de S. S. Bento XVI, Paulus
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Depois de cruzarmos os portões do jardim, decidimos ir buscar pão para o jantar.
A padaria, do outro lado da rua, foi uma surpresa agradável: pequena, branca e perfumada.
Apesar das paredes em mármore rosado antigo, transmitia uma sensação de actualidade e limpeza inesperadas. Os suspiros, bem esculpidos, de um design dulcíssimo, as bolachas de manteiga, espessas e polvilhadas de açúcar, as línguas de veado, acabadas de sair do forno, os pães de Deus, pães de leite e croissants, muito frescos, o pão, nas mais variadas formas e composições, deliciaram-me.
Encantada, como criança em loja de doces, recordei o sentimento antigo de que os bolos mais saborosos são os da padaria.
Propositadamente demorei-me na escolha e na encomenda. Permiti ao meu olhar e ao meu olfacto que se passeassem livremente pelo expositor de aço inoxidável (talvez daí viesse a inesperada sensação de limpeza…) enquanto dialogava com a vendedora sobre as características dos diversos tipos de pão expostos: as formas, as carcaças, as bolas, as baguetes, os pães de mistura…
Há tanto tempo a comprar pão embalado, no supermercado, esquecera-me até de como é uma padaria!
Finalmente, tudo escolhido, embrulhado e pago, a padeira deu meia volta, anunciando: “Esperem um momento! Vou colocar num saco”. E retirou de uma gaveta, com elegância, um saco alvo, translúcido, onde guardou o pão e os bolos.
Uma alegria genuína me tomou quando recebi a encomenda por sobre o balcão de vidro brilhante.
A padaria, do outro lado da rua, foi uma surpresa agradável: pequena, branca e perfumada.
Apesar das paredes em mármore rosado antigo, transmitia uma sensação de actualidade e limpeza inesperadas. Os suspiros, bem esculpidos, de um design dulcíssimo, as bolachas de manteiga, espessas e polvilhadas de açúcar, as línguas de veado, acabadas de sair do forno, os pães de Deus, pães de leite e croissants, muito frescos, o pão, nas mais variadas formas e composições, deliciaram-me.
Encantada, como criança em loja de doces, recordei o sentimento antigo de que os bolos mais saborosos são os da padaria.
Propositadamente demorei-me na escolha e na encomenda. Permiti ao meu olhar e ao meu olfacto que se passeassem livremente pelo expositor de aço inoxidável (talvez daí viesse a inesperada sensação de limpeza…) enquanto dialogava com a vendedora sobre as características dos diversos tipos de pão expostos: as formas, as carcaças, as bolas, as baguetes, os pães de mistura…
Há tanto tempo a comprar pão embalado, no supermercado, esquecera-me até de como é uma padaria!
Finalmente, tudo escolhido, embrulhado e pago, a padeira deu meia volta, anunciando: “Esperem um momento! Vou colocar num saco”. E retirou de uma gaveta, com elegância, um saco alvo, translúcido, onde guardou o pão e os bolos.
Uma alegria genuína me tomou quando recebi a encomenda por sobre o balcão de vidro brilhante.
E, dando as mãos, saímos da padaria.
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Ilona Bastos
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sábado, 5 de setembro de 2009
É necessário que esta louca, esta filósofa, esta sábia, esta criança sonhadora que em mim habita me sussurre, grite, acotovele, acorde e ilumine, para que decida passar algumas palavras ao papel.
Assim me tem trazido a preguiça, ao ponto de me convencer a ignorar a voz desafiante da escrita. Como é isto possível? O que se passa? Será do Verão, que me embriaga de calor, de céu azul e sol, conduzindo-me por caminhos longínquos, tão distantes da poesia? Ou de simples ausência de inspiração, que o morno fluir do tempo acolhe acriticamente e incentiva?
Seja como for, devo estar atenta às mensagens breves que agora me chegam. Não desprezá-las, é o primeiro passo. O segundo é encontrar em mim vitalidade para descobrir o bloco e a caneta. Depois, o resto resolver-se-á na troca de carícias entre o aparo elegante e a superfície atraente do papel. Entre si se entenderão, praticamente sem que tenha de intervir. Nesse bailado sobre o acetinado cor de marfim as palavras surgirão, e com elas as ideias.
Surge-me então a questão: o que nasce primeiro – a ideia ou a palavra? Qual é a causa e qual é o efeito?
Assim me tem trazido a preguiça, ao ponto de me convencer a ignorar a voz desafiante da escrita. Como é isto possível? O que se passa? Será do Verão, que me embriaga de calor, de céu azul e sol, conduzindo-me por caminhos longínquos, tão distantes da poesia? Ou de simples ausência de inspiração, que o morno fluir do tempo acolhe acriticamente e incentiva?
Seja como for, devo estar atenta às mensagens breves que agora me chegam. Não desprezá-las, é o primeiro passo. O segundo é encontrar em mim vitalidade para descobrir o bloco e a caneta. Depois, o resto resolver-se-á na troca de carícias entre o aparo elegante e a superfície atraente do papel. Entre si se entenderão, praticamente sem que tenha de intervir. Nesse bailado sobre o acetinado cor de marfim as palavras surgirão, e com elas as ideias.
Surge-me então a questão: o que nasce primeiro – a ideia ou a palavra? Qual é a causa e qual é o efeito?
Esta dúvida é recorrente no meu dia-a-dia. A possibilidade da inversão do nexo de causalidade persegue-me mais do que seria razoável. Sempre que o resultado de um estudo me é apresentado, interrogo-me sobre se os investigadores tiveram na devida conta a possibilidade de a causa ser, realmente, o aparente efeito, e o verdadeiro efeito a presumida causa. Corolário, talvez, da minha teoria de que as coisas são o contrário do que parecem, será esta suspeita, afinal, uma característica intrínseca da minha maneira de ver o mundo?
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Ilona Bastos
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Joe Hisaishi Live performance Howl Moving Castle Main them
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Joe Hisaishi
domingo, 30 de agosto de 2009

Este barulho incómodo, de motor, este besoirar quase insignificante que me acordou, é letal, compreendo-o.
Nem desejo levantar a persiana e encarar a rua. Embora, por outro lado, seja forte a tentação de escancarar a janela, debruçar-me e gritar: “Parem! Que mal vos fez essa árvore?”
A motosserra manhosa continua o seu trabalho e oiço brados (vozes de homem) abafados pelos sons exteriores e pelos ruídos domésticos, estes mais próximos e apaziguadores. A água que corre nas torneiras, o arrulhar dos pombos no sótão, o carro eléctrico, os automóveis a passar, por momentos encobrem a serra persistente, que agora retoma o seu labor acompanhada de outra máquina zumbidora, num dueto que consideraria risível se não adivinhasse fatal.
Fecho os olhos e distingo nitidamente o choupo alto e frondoso, com os seus ramos abertos e as folhas verdes a brilhar ao sol. Como poderá estar doente, comido pelos bichos, com o tronco oco – como dizem – se se ergue majestoso, formando com os irmãos uma magnífica guarda que avança pela calçada, acompanhando o traçado do lancil e projectando, com o balanço dos seus braços, chispas de luz e desenhos de sombras, sobre o empedrado? Como viverá a rua sem o seu príncipe grandioso? Como continuaremos nós o caminho, como sairemos para mais um dia, agora que a nossa vista não encontrará o luzir dos seus abraços, o afago da sua dança, o murmúrio das suas folhas ao vento? Não consigo imaginá-lo.
E não desejo levantar-me, não. Vejo ainda com nitidez o papel ontem afixado no tronco do choupo-negro que nasceu, cresceu e viveu, durante perto de quarenta anos, diante do nosso prédio, e recordo a sentença nele inscrita a caneta vermelha - “Trabalho a executar: ABATE”.
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A motosserra continua o seu indiferente besoirar e eu sinto a minha vida a ficar cada vez mais pobre.
Ilona Bastos
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sábado, 29 de agosto de 2009
Plutarco .
"(...) Antístenes dizia justamente que, para nos protegermos, precisávamos de amigos sinceros e de inimigos convictos: os primeiros afastar-nos-ão do mal graças aos seus conselhos, os segundos graças às suas críticas."
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Plutarco, Como Tirar Partido dos Seus Inimigos seguido de Como Distinuir um Bajulador de um Amigo, livros de bolso, Europa-América, Grandes Obras
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Plutarco
quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Rosto másculo, algo expectante, cabelo comprido, elegante, vestido à arqueiro, aproximou-se da entrada da clareira, indagando – o vento a mover-lhe a roupa e os cabelos.
Assim me surgiu, precisamente no momento em que pensava: somos mais do que esta aparência exterior, somos, na verdade, todo um mundo interior, composto do que vivemos, lemos, ouvimos, sentimos.
E a imagem – nítida, inesperada ficção – cruzou-se misteriosamente com a constatação quase prosaica, no fulminante segundo em que esta se me revelava.
Assim me surgiu, precisamente no momento em que pensava: somos mais do que esta aparência exterior, somos, na verdade, todo um mundo interior, composto do que vivemos, lemos, ouvimos, sentimos.
E a imagem – nítida, inesperada ficção – cruzou-se misteriosamente com a constatação quase prosaica, no fulminante segundo em que esta se me revelava.
Levantei-me, dei alguns passos e inclinei-me para alcançar o bloco e a caneta.
A visão permaneceu, esperando, no avesso da retina, enquanto os sons habituais – do comboio, do relógio, da água a correr, da televisão – inundavam o aqui e agora.
Quando comecei a escrever, estendeu a mão, para que a seguisse. E desapareceu, comigo, por entre o arvoredo.
A visão permaneceu, esperando, no avesso da retina, enquanto os sons habituais – do comboio, do relógio, da água a correr, da televisão – inundavam o aqui e agora.
Quando comecei a escrever, estendeu a mão, para que a seguisse. E desapareceu, comigo, por entre o arvoredo.
Ilona Bastos
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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Imaginei - como sou boa a imaginar! - que o texto se abrisse, como uma flor que desabrocha, perante ti. E que, no impacto da leitura, revelado o meu mundo, nele embarcasses com alegria. E como nos riríamos, então, no comprazimento dessa comunhão de ideias, desejos e sentimentos que sempre almejei!
Afinal, foi apenas sonho - como sou boa a sonhar! - e tudo aconteceu somente no meu coração...
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Ilona Bastos
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sexta-feira, 14 de agosto de 2009
.Henry David Thoreau
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"Mais do que amor, do que o dinheiro e do que a fama, dai-me verdade. Sentei-me a uma mesa e havia comida fina e vinhos em abundância e atendimento impecável, mas faltava sinceridade e verdade. Virei costas, faminto, e saí de tal ambiente inóspito. A hospitalidade era tão fria como o gelo. Pareceu-me que não havia necessidade de gelo para a congelar. Falaram-me da idade do vinho e da fama do ano da colheita, mas eu pensava num vinho mais velho, mais novo e mais puro, de um ano de colheita mais glorioso, que eles não tinham e nem sequer podiam comprar. O estilo, a casa e terrenos e o «entretenimento» nada representam para mim. Visitei o rei, mas ele deixou-me à espera no seu vestíbulo e comportou-se como um homem incapacitado para a hospitalidade. Havia um homem na minha vizinhança que morava numa árvore oca. Os seus modos eram verdadeiramente régios. Teria feito muito melhor se o visitasse a ele."
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Henry David Thoreau, Onde Vivi e Para Que Vivi, edições quasi
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