sábado, 27 de fevereiro de 2010


Voltaire


"Cândido e Cacambo subiram para a carruagem. Os seis carneiros voaram e em menos de quatro horas chegaram ao palácio do rei, situado no extremo da capital. O portal tinha duzentos e vinte pés de altura e cem de largo. É impossível exprimir de que era feito e compreende-se facilmente que prodigiosa superioridade devia ostentar sobre essas pedras e essa areia que denominamos entre nós ouro e pedras preciosas.
"Vinte lindas raparigas da guarda receberam Cândido e Cacambo ao descerem da carruagem e conduziram-nos aos banhos, vestindo-lhes depois trajes tecidos com as mais macias penas de colibris. Após essa cerimónia, os homens e as mulheres, grandes oficiais da Coroa, guiaram-nos aos aposentos de Sua Majestade, entre duas alas de músicos com mil artistas cada segundo o uso comum. Quando se aproximaram da sala do trono, Cacambo perguntou a um oficial como devia fazer para saudar sua Majestade, se era preciso pôr-se de joelhos, se de ventre no chão; se poriam as mãos na cabeça, ou no traseiro; se lambiam a poeira da sala; enfim, qual seria o protocolo.
"- O costume - disse o grande oficial - consiste em abraçar o rei e beijá-lo nas duas faces.
"Cândido e Cacambo saltaram ao pescoço do rei, que os recebeu com a graça mais inimaginável e os convidou cerimoniosamente para cear.
"Enquanto esperavam pela ceia mostraram-lhes a cidade, os edifícios públicos erguidos até às nuvens, os bazares ornados de mil colunas, as fontes de água pura, as fontes de água de rosas, as de licores de cana-de-açúcar que corriam continuamente nas grandes praças pavimentadas com uma espécie de pedras preciosas que derramavam um odor semelhante ao goivo ou à canela. Cândido pediu para visitar o palácio da justiça e o parlamento, mas disseram-lhe que isso não existia, porque ninguém questionava. Perguntou se haveria prisões e disseram-lhe que não. O que mais o surpreendeu e maior prazer lhe causou foi o palácio das ciências, no qual viu uma galeria, longa de dois mil passos, repleta de instrumentos de matemática e física.
"Após terem percorrido, durante toda a tarde, apenas a milésima parte da cidade, conduziram-nos de novo ao palácio real."

Voltaire, Cândido, Lisboa, Guimarães Editores.



Desejando a Primavera!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A Verdade

Todos sentados, ao entardecer, à volta do fogo, disse o lavrador:

«Verdade é a semente lançada à terra, promessa de vida gerando vendavais de trigo dourado, riqueza ao sol.»

«Verdade», emendou o pescador, «é a força do mar, em ondas revolto, avançando vagas poderosas que arrastam e vergam, comandam e domam a vida, na água.»

O lenhador abanou a cabeça. «Verdade é a seiva que brota dos caules, é o âmago dos troncos, a força da floresta, que cresce e avança, se acalma em clareiras, se agiganta em passadas de vida, cobrindo a terra.»

Todos sentados, já noite, olharam o fogo e sorriram.


Ilona Bastos

Das Folhas de um Livro



Música: Reverie, Debussy - Fotos: Ilona Bastos

sábado, 7 de novembro de 2009

domingo, 1 de novembro de 2009

Stendhal
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"No livro da cozinheira burguesa, a receita de guisado de lebre começa com estas palavras muito sensatas: "Irá necessitar de uma lebre."
Portanto, é em vão que se pretende ser artista sem ter engenho.
Neste aspecto, todos os discursos do mundo serão inúteis se um homem não tiver esta intuição profunda."
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Do Riso, Um Ensaio Filosófico Sobre um Tema Difícil e Outros Ensaios, livros de bolso EUROPA-AMÉRICA
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

domingo, 11 de outubro de 2009

O vendedor de laranjas
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Naquele final de tarde de Verão percebi que o velho homem das laranjas, mais do que vida, era arte pura. Era pintura, de certeza, à luminosidade dourada do sol poente. Era bailado, era mímica. Era poema, era cinema por certo. Era até conto completo ou romance verdadeiro.

Naquele final de tarde de Verão, igual aos demais finais de tarde em que avistara o homem das laranjas, pareceu-me ser ele mais do que o habitual vendedor de fruta, debruçado, escolhendo, enchendo os sacos das laranjas e tangerinas e estendendo-os aos compradores, todos de braços erguidos para receber os frutos brilhantes, para entregar uma nota, para agarrar o troco, para cumprimentar.

Naquele final de tarde de Verão, os turistas que passeavam na calçada aproximavam-se do homem das laranjas na sua camioneta aberta, repleta de caixas com laranjas e tangerinas, e o homem, mergulhado naquele mar belíssimo, era mais do que um mero vendedor, era um ilusionista, um mimo, um actor.

Naquele final de tarde de Verão, na sua camisa aos quadrados, com o boné de fazenda na cabeça, o vendedor de laranjas erguia o corpo e o olhar, as mãos cheias dos redondos e sumarentos frutos, e atirava-os certeiros às mãos das crianças passantes, da senhora sozinha, do casal de namorados, do senhor idoso de gesto digno e calças impecáveis, às mãos abertas dos passageiros de cada uma das carruagens do comboiozinho de veraneantes que, lento, rodava perto - e assim, do homem das laranjas partiam visíveis ondas de alegria, que estampavam sorrisos em todas as faces.

Naquele final de tarde de Verão, o vendedor das laranjas distribuía fruta e ternura, e chamava de longe os banhistas cansados da subida pelas arribas, ainda cobertos da areia macia que lhes salpicava as roupas, as toalhas de praia, as bóias e os colchões cheios de ar.

Naquele final de tarde de Verão, ali mesmo, junto ao mar, ao som de uma flauta escondida pelas árvores, rostos felizes acorriam às varandas, dos prédios saíam pés ligeiros, pela calçada, mãos leves descascavam laranjas, e lábios sorridentes acolhiam os seus gomos generosos - numa sequência perfeita, com iluminação magnífica e definição divinal.

Naquele final de tarde de Verão, o velho vendedor de laranjas era estrela de cinema, era anjo, maestro, bailarino, mimo, poeta, personagem de romance. Era vida. Mais do que isso – era arte pura!
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Praia da Rocha, Julho de 2004
Ilona Bastos
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sábado, 3 de outubro de 2009

domingo, 20 de setembro de 2009

sábado, 12 de setembro de 2009

Bento XVI

"Uma das pobrezas mais profundas que o homem pode experimentar é a solidão. Vistas bem as coisas, as outras pobrezas, incluindo a material, também nascem do isolamento, de não ser amado ou da dificuldade de amar. As pobrezas frequentemente nasceram da recusa do amor de Deus, de uma originária e trágica reclusão do homem em si próprio, que pensa que se basta a si mesmo ou então que é só um facto insignificante e passageiro, um "estrangeiro" num universo formado por acaso. O homem aliena-se quando fica sozinho ou se afasta da realidade, quando renuncia a pensar e a crer num Fundamento. A humanidade inteira aliena-se quando se entrega a projectos unicamente humanos, a ideologias e falsas utopias. A humanidade aparece, hoje, muito mais interactiva do que no passado: esta maior proximidade deve transformar-se em verdadeira comunhão. O desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento de que são uma só família, a qual colabora em verdadeira comunhão e é formada por sujeitos que não se limitam a viver uns ao lado dos outros."

Caritas in Veritate, Terceira Carta Encíclica de S. S. Bento XVI, Paulus
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Depois de cruzarmos os portões do jardim, decidimos ir buscar pão para o jantar.
A padaria, do outro lado da rua, foi uma surpresa agradável: pequena, branca e perfumada.
Apesar das paredes em mármore rosado antigo, transmitia uma sensação de actualidade e limpeza inesperadas. Os suspiros, bem esculpidos, de um design dulcíssimo, as bolachas de manteiga, espessas e polvilhadas de açúcar, as línguas de veado, acabadas de sair do forno, os pães de Deus, pães de leite e croissants, muito frescos, o pão, nas mais variadas formas e composições, deliciaram-me.
Encantada, como criança em loja de doces, recordei o sentimento antigo de que os bolos mais saborosos são os da padaria.
Propositadamente demorei-me na escolha e na encomenda. Permiti ao meu olhar e ao meu olfacto que se passeassem livremente pelo expositor de aço inoxidável (talvez daí viesse a inesperada sensação de limpeza…) enquanto dialogava com a vendedora sobre as características dos diversos tipos de pão expostos: as formas, as carcaças, as bolas, as baguetes, os pães de mistura…
Há tanto tempo a comprar pão embalado, no supermercado, esquecera-me até de como é uma padaria!
Finalmente, tudo escolhido, embrulhado e pago, a padeira deu meia volta, anunciando: “Esperem um momento! Vou colocar num saco”. E retirou de uma gaveta, com elegância, um saco alvo, translúcido, onde guardou o pão e os bolos.
Uma alegria genuína me tomou quando recebi a encomenda por sobre o balcão de vidro brilhante.
E, dando as mãos, saímos da padaria.
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Ilona Bastos
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sábado, 5 de setembro de 2009

É necessário que esta louca, esta filósofa, esta sábia, esta criança sonhadora que em mim habita me sussurre, grite, acotovele, acorde e ilumine, para que decida passar algumas palavras ao papel.
Assim me tem trazido a preguiça, ao ponto de me convencer a ignorar a voz desafiante da escrita. Como é isto possível? O que se passa? Será do Verão, que me embriaga de calor, de céu azul e sol, conduzindo-me por caminhos longínquos, tão distantes da poesia? Ou de simples ausência de inspiração, que o morno fluir do tempo acolhe acriticamente e incentiva?
Seja como for, devo estar atenta às mensagens breves que agora me chegam. Não desprezá-las, é o primeiro passo. O segundo é encontrar em mim vitalidade para descobrir o bloco e a caneta. Depois, o resto resolver-se-á na troca de carícias entre o aparo elegante e a superfície atraente do papel. Entre si se entenderão, praticamente sem que tenha de intervir. Nesse bailado sobre o acetinado cor de marfim as palavras surgirão, e com elas as ideias.
Surge-me então a questão: o que nasce primeiro – a ideia ou a palavra? Qual é a causa e qual é o efeito?
Esta dúvida é recorrente no meu dia-a-dia. A possibilidade da inversão do nexo de causalidade persegue-me mais do que seria razoável. Sempre que o resultado de um estudo me é apresentado, interrogo-me sobre se os investigadores tiveram na devida conta a possibilidade de a causa ser, realmente, o aparente efeito, e o verdadeiro efeito a presumida causa. Corolário, talvez, da minha teoria de que as coisas são o contrário do que parecem, será esta suspeita, afinal, uma característica intrínseca da minha maneira de ver o mundo?
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Ilona Bastos
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Joe Hisaishi Live performance

Howl Moving Castle Main them

domingo, 30 de agosto de 2009


Este barulho incómodo, de motor, este besoirar quase insignificante que me acordou, é letal, compreendo-o.

Nem desejo levantar a persiana e encarar a rua. Embora, por outro lado, seja forte a tentação de escancarar a janela, debruçar-me e gritar: “Parem! Que mal vos fez essa árvore?”

A motosserra manhosa continua o seu trabalho e oiço brados (vozes de homem) abafados pelos sons exteriores e pelos ruídos domésticos, estes mais próximos e apaziguadores. A água que corre nas torneiras, o arrulhar dos pombos no sótão, o carro eléctrico, os automóveis a passar, por momentos encobrem a serra persistente, que agora retoma o seu labor acompanhada de outra máquina zumbidora, num dueto que consideraria risível se não adivinhasse fatal.

Fecho os olhos e distingo nitidamente o choupo alto e frondoso, com os seus ramos abertos e as folhas verdes a brilhar ao sol. Como poderá estar doente, comido pelos bichos, com o tronco oco – como dizem – se se ergue majestoso, formando com os irmãos uma magnífica guarda que avança pela calçada, acompanhando o traçado do lancil e projectando, com o balanço dos seus braços, chispas de luz e desenhos de sombras, sobre o empedrado? Como viverá a rua sem o seu príncipe grandioso? Como continuaremos nós o caminho, como sairemos para mais um dia, agora que a nossa vista não encontrará o luzir dos seus abraços, o afago da sua dança, o murmúrio das suas folhas ao vento? Não consigo imaginá-lo.

E não desejo levantar-me, não. Vejo ainda com nitidez o papel ontem afixado no tronco do choupo-negro que nasceu, cresceu e viveu, durante perto de quarenta anos, diante do nosso prédio, e recordo a sentença nele inscrita a caneta vermelha - “Trabalho a executar: ABATE”.
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A motosserra continua o seu indiferente besoirar e eu sinto a minha vida a ficar cada vez mais pobre.

Ilona Bastos