sábado, 22 de maio de 2010


Quando saí, ouvi da casa vizinha palavras de admoestação suave:
"Hoje estás muito rabino, gato!"
Também eu, antes de fechar a porta da rua, me voltara para trás, recomendando:
"Porta-te bem, cãozinho! Ficas a tomar conta da casa..."
Agora, deslizando sobre o alcatrão, passo pela montra de uma loja, diante da qual um senhor de cabelo branco se interessa pelos artigos expostos. Ao seu colo, tão atento quanto o dono, um pequeno rafeiro de pêlo dourado estende o focinho delicado para o vidro.
Não consigo deixar de virar a cabeça, para acompanhar por mais tempo aquela cena graciosa. E parece-me curioso o facto de tratamos os nossos animais como se fossem crianças.

Sorrindo enquanto me fala do seu gato, a senhora jovem acaba por fazer adormecer a voz numa pausa triste: "A minha cadela morreu, sabia?"
Consternada, mal sei como consola-la, e acabo por murmurar apenas: "É difícil..."
"Sim, é difícil", concorda. "Um cão é como um familiar nosso. E um familiar muito chegado."


Ilona Bastos

terça-feira, 30 de março de 2010



ECOS


Mesmo que aos ouvidos
me não cheguem,
os ecos existem, eu sei.
Largados no espaço, talvez.
Aos meus anseios, eu sinto,
uma voz responde,
inaudível mas forte,
ao longe criada, difundida
pelos confins do Universo.

Mas como encontrá-la,
se aos meus ouvidos não soa,
ao meu olhar não aporta,
em meus dedos não se aninha
essa voz, eco de vida e amor?
Só, à margem dos sentidos,
cabe ao coração se abrir
às ondas vogando, voláteis
carícias do Criador!
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Ilona Bastos

segunda-feira, 22 de março de 2010


Tadeusz Turakiewicz.
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"Que padre que ele foi! Não houve outro como ele! O que viam nele de extraordinário aquelas pessoas simples? O que tinha de especial? Oração, humildade e pobreza. Levantava-se de manhã, caminhava lentamente pela vereda rumo a Wiatrowice ou andava com um livro à volta da igreja, a rezar. E a pobreza? Quando fazia visitas pastorais às casas dos fiéis, entregava aos pobres o que recebia dos ricos. Voltava à casa paroquial de mãos a abanar. Visitava constantemente os pobres. Havia uma mulher a quem chamavam Tadeuszka, que era de Kleczany. Uma vez, foi ter com ele para se queixar, porque tinha sido roubada. E ele deu-lhe tudo o que tinha. Inclusive a almofada e a roupa de cama. As pessoas até ficaram zangadas: tinham acabado de comprar tudo aquilo para ele, porque dormia numa cama sem nada... E humildade? sabia falar com qualquer um, apesar de já ter terminado o curso em Roma."
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Tadeusz Turakiewicz, Recordações de João Paulo II, Compilação e redacção de Janusz Poniewierski, Concepção e colaboração de Jan Turnau, Lucerna

domingo, 7 de março de 2010

sábado, 27 de fevereiro de 2010


Voltaire


"Cândido e Cacambo subiram para a carruagem. Os seis carneiros voaram e em menos de quatro horas chegaram ao palácio do rei, situado no extremo da capital. O portal tinha duzentos e vinte pés de altura e cem de largo. É impossível exprimir de que era feito e compreende-se facilmente que prodigiosa superioridade devia ostentar sobre essas pedras e essa areia que denominamos entre nós ouro e pedras preciosas.
"Vinte lindas raparigas da guarda receberam Cândido e Cacambo ao descerem da carruagem e conduziram-nos aos banhos, vestindo-lhes depois trajes tecidos com as mais macias penas de colibris. Após essa cerimónia, os homens e as mulheres, grandes oficiais da Coroa, guiaram-nos aos aposentos de Sua Majestade, entre duas alas de músicos com mil artistas cada segundo o uso comum. Quando se aproximaram da sala do trono, Cacambo perguntou a um oficial como devia fazer para saudar sua Majestade, se era preciso pôr-se de joelhos, se de ventre no chão; se poriam as mãos na cabeça, ou no traseiro; se lambiam a poeira da sala; enfim, qual seria o protocolo.
"- O costume - disse o grande oficial - consiste em abraçar o rei e beijá-lo nas duas faces.
"Cândido e Cacambo saltaram ao pescoço do rei, que os recebeu com a graça mais inimaginável e os convidou cerimoniosamente para cear.
"Enquanto esperavam pela ceia mostraram-lhes a cidade, os edifícios públicos erguidos até às nuvens, os bazares ornados de mil colunas, as fontes de água pura, as fontes de água de rosas, as de licores de cana-de-açúcar que corriam continuamente nas grandes praças pavimentadas com uma espécie de pedras preciosas que derramavam um odor semelhante ao goivo ou à canela. Cândido pediu para visitar o palácio da justiça e o parlamento, mas disseram-lhe que isso não existia, porque ninguém questionava. Perguntou se haveria prisões e disseram-lhe que não. O que mais o surpreendeu e maior prazer lhe causou foi o palácio das ciências, no qual viu uma galeria, longa de dois mil passos, repleta de instrumentos de matemática e física.
"Após terem percorrido, durante toda a tarde, apenas a milésima parte da cidade, conduziram-nos de novo ao palácio real."

Voltaire, Cândido, Lisboa, Guimarães Editores.



Desejando a Primavera!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A Verdade

Todos sentados, ao entardecer, à volta do fogo, disse o lavrador:

«Verdade é a semente lançada à terra, promessa de vida gerando vendavais de trigo dourado, riqueza ao sol.»

«Verdade», emendou o pescador, «é a força do mar, em ondas revolto, avançando vagas poderosas que arrastam e vergam, comandam e domam a vida, na água.»

O lenhador abanou a cabeça. «Verdade é a seiva que brota dos caules, é o âmago dos troncos, a força da floresta, que cresce e avança, se acalma em clareiras, se agiganta em passadas de vida, cobrindo a terra.»

Todos sentados, já noite, olharam o fogo e sorriram.


Ilona Bastos

Das Folhas de um Livro



Música: Reverie, Debussy - Fotos: Ilona Bastos

sábado, 7 de novembro de 2009

domingo, 1 de novembro de 2009

Stendhal
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"No livro da cozinheira burguesa, a receita de guisado de lebre começa com estas palavras muito sensatas: "Irá necessitar de uma lebre."
Portanto, é em vão que se pretende ser artista sem ter engenho.
Neste aspecto, todos os discursos do mundo serão inúteis se um homem não tiver esta intuição profunda."
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Do Riso, Um Ensaio Filosófico Sobre um Tema Difícil e Outros Ensaios, livros de bolso EUROPA-AMÉRICA
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

domingo, 11 de outubro de 2009

O vendedor de laranjas
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Naquele final de tarde de Verão percebi que o velho homem das laranjas, mais do que vida, era arte pura. Era pintura, de certeza, à luminosidade dourada do sol poente. Era bailado, era mímica. Era poema, era cinema por certo. Era até conto completo ou romance verdadeiro.

Naquele final de tarde de Verão, igual aos demais finais de tarde em que avistara o homem das laranjas, pareceu-me ser ele mais do que o habitual vendedor de fruta, debruçado, escolhendo, enchendo os sacos das laranjas e tangerinas e estendendo-os aos compradores, todos de braços erguidos para receber os frutos brilhantes, para entregar uma nota, para agarrar o troco, para cumprimentar.

Naquele final de tarde de Verão, os turistas que passeavam na calçada aproximavam-se do homem das laranjas na sua camioneta aberta, repleta de caixas com laranjas e tangerinas, e o homem, mergulhado naquele mar belíssimo, era mais do que um mero vendedor, era um ilusionista, um mimo, um actor.

Naquele final de tarde de Verão, na sua camisa aos quadrados, com o boné de fazenda na cabeça, o vendedor de laranjas erguia o corpo e o olhar, as mãos cheias dos redondos e sumarentos frutos, e atirava-os certeiros às mãos das crianças passantes, da senhora sozinha, do casal de namorados, do senhor idoso de gesto digno e calças impecáveis, às mãos abertas dos passageiros de cada uma das carruagens do comboiozinho de veraneantes que, lento, rodava perto - e assim, do homem das laranjas partiam visíveis ondas de alegria, que estampavam sorrisos em todas as faces.

Naquele final de tarde de Verão, o vendedor das laranjas distribuía fruta e ternura, e chamava de longe os banhistas cansados da subida pelas arribas, ainda cobertos da areia macia que lhes salpicava as roupas, as toalhas de praia, as bóias e os colchões cheios de ar.

Naquele final de tarde de Verão, ali mesmo, junto ao mar, ao som de uma flauta escondida pelas árvores, rostos felizes acorriam às varandas, dos prédios saíam pés ligeiros, pela calçada, mãos leves descascavam laranjas, e lábios sorridentes acolhiam os seus gomos generosos - numa sequência perfeita, com iluminação magnífica e definição divinal.

Naquele final de tarde de Verão, o velho vendedor de laranjas era estrela de cinema, era anjo, maestro, bailarino, mimo, poeta, personagem de romance. Era vida. Mais do que isso – era arte pura!
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Praia da Rocha, Julho de 2004
Ilona Bastos
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sábado, 3 de outubro de 2009

domingo, 20 de setembro de 2009