domingo, 28 de novembro de 2010
O POEMA QUE SE SEGUE
Não há que temer a Poesia,
Nem estas ideias bizarras
Que em certas horas me assaltam.
Vivo e raciocino por tentativas,
Aproximações e intuições.
Pensamentos fugazes,
Velozes, acutilantes,
Perpassam-me a mente,
De rompante, e logo
Seguem seus caminhos.
Lanço-me atrás deles, correndo,
Alcanço-os, por vezes, detenho-os,
Interrogo-os, fotografo-os, de frente,
De perfil, de um lado e do outro,
Curiosa, inquisitiva, sem sorrir.
Anoto, atenta, o que revelam,
Alvitro, sugiro, proponho,
Componho o texto e exponho-o
Neste caderno invulgar.
Largo-as, depois, às ideias,
Que dispersam livremente.
E o que sinto é ser tão leve,
Neste alívio imparável de criar,
Que levanto, brilhante, o meu olhar
Na procura do poema que se segue.
Ilona Bastos
Etiquetas:
foto e poema de Ilona Bastos
sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Gonzalo Torrente Ballester
"E esta história, meu amigo, é nada menos do que a seguinte: «por volta do ano mil, segundo a tradição ou certos cálculos, um cavaleiro de nome Marinho caminhava à beira-mar, quando um inesperado escorregão ou qualquer outra causa o precipitou nas alterosas vagas, das quais não teria podido livrar-se, armado como ia e trôpego na natação (não na lide, naturalmente), se não estivesse casualmente à espreita por aqueles lugares a Sereia de Finisterra, a tão sinistramente reputada, que acudiu rápida ao socorro, e que tendo visto de perto o formoso rosto e o bem trabalhado corpo do desmaiado náufrago, concebeu por ele amores tão súbitos, que o levou para a sua caverna e com ele ficou por amante durante bastantes anos; e ali teria morrido o cavaleiro de pura velhice, se não fora porque os filhos havidos do vínculo conjugal, que eram quatro, embora excelentes em artes natatórias e piscatórias, tudo ignoravam da cavalaria e da espada, pelo que seu pai pediu à Sereia que o deixasse voltar para terra e levá-los consigo para lhes dar completa educação, ao que ela respondeu que sim, que estava bem, que os levasse e os fizesse cavaleiros, mas com o anúncio e compromisso de que, cada geração, ela levaria um descendente para as suas necessidades particulares, e este destino singular reconhecer-se-ia na cor azul dos olhos ou nas escamas de peixe que o destinado haveria de ter nas coxas. E sucedeu desde então que todos os Marinho da costa, azul de olhos ou com escamas, desapareceram no mar.»"
Gonzalo Torrente Ballester, O Conto da Sereia, tradução de Miguel Viqueira, Difel, págs. 12 e 13
Gonzalo Torrente Ballester, O Conto da Sereia, tradução de Miguel Viqueira, Difel, págs. 12 e 13
Etiquetas:
A Sereia,
Excertos,
foto de Ilona Bastos,
Gonzalo Torrente Ballester
quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Como Soa o Poema
Não soa o poema ao criador.
Irrompe do fundo de nenhures,
Pensamento luminoso, súbito
Na brancura do papel a derramar.
Não soa em alta voz a poesia.
Pois é ideia ágil, forte e clara,
É passo vivo ou mesmo galopante,
Que o braço move e leva pelo ar.
Não soa como som, já que é mais luz,
Corrente descendente até à mão,
Vaivém audaz do lápis no papel
Furor intenso e débil a criar.
Não soa como o fazem as tiradas,
Libertas na conversa ou no canto.
Não soa como corpo, pois é alma
Das letras e palavras faz seu pranto.
Ilona Bastos
Etiquetas:
foto e poema de Ilona Bastos
quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Dias Outonais
Tanto necessito de harmonia,
Que dos meus gestos faço dança,
Para que a arte torne belos
Estes dias curtos do Outono.
Limpo cada folha da palmeira
Como quem penteia os cabelos de oiro
De uma princesa donzela.
Atento, o meu olhar passeia manso
Sobre as construções passantes,
Quando em trânsito navego na cidade,
E lentos desfilam edifícios altos
Nas margens empedradas da avenida.
Prendo-me aos detalhes do mármore jovem,
Do ferro forjado da varanda antiga,
Às minúcias doces de um jardim cuidado,
À cortina em renda por trás da vidraça…
Rola-me entre os dedos a caneta prata
Sinto-a macia, em ânsias de apontar
As palavras prontas que lestas irrompem
Na tarde outonal.
Na chegada a casa, no abrir da porta,
Na entrada escura, no buscar da luz,
Imito a elegância do bailado,
Cisne encantador, fonte de candura,
Em gestos suaves que no ar desenho…
E assim se passam os dias do Outono.
Como a folha seca que ao vento se entrega
E sonhando voa, ave por segundos,
Cada vez mais alto, mais longe, mais leve,
Até que o remoinho, ao virar da esquina,
Tolha o seu caminho.
Ilona Bastos
Etiquetas:
foto e poema de Ilona Bastos
sábado, 6 de novembro de 2010
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Sebastião da Gama
"Para ser professor, também é preciso ter as mãos purificadas. A toda a hora temos de tocar em flores. A toda a hora a Poesia nos visita.
"O aluno acredita em nós e não deve acreditar em vão. Impõe-se-nos que mereçamos, com a nossa, a pureza dos nossos alunos; que a nossa alimente a deles, a mantenha.
"Sejamos a lição em pessoa - que é isso mais importante e mais eficaz que sermos o papel onde a lição está escrita; e possamos dizer, sem constrangimento: «Deixai-as vir a mim, as criancinhas...»"
"Para ser professor, também é preciso ter as mãos purificadas. A toda a hora temos de tocar em flores. A toda a hora a Poesia nos visita.
"O aluno acredita em nós e não deve acreditar em vão. Impõe-se-nos que mereçamos, com a nossa, a pureza dos nossos alunos; que a nossa alimente a deles, a mantenha.
"Sejamos a lição em pessoa - que é isso mais importante e mais eficaz que sermos o papel onde a lição está escrita; e possamos dizer, sem constrangimento: «Deixai-as vir a mim, as criancinhas...»"
Etiquetas:
Excertos,
fotografia de Ilona Bastos,
Sebastião da Gama
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Registos Outonais
Música: Tears, de Isisip
Fotografias e vídeo: Ilona Bastos
Lisboa, Outubro de 2010
Fotografias e vídeo: Ilona Bastos
Lisboa, Outubro de 2010
Etiquetas:
Balada do Outono,
Fotos e Vídeo de Ilona Bastos,
Isisip,
Outonal,
Tears
sábado, 23 de outubro de 2010
RETRATO DO MEU AMOR
Olho o teu rosto jovem e audaz,
Fito os teus olhos ternos, meigos,
Que a verdade contam sem receios.
Penso em ti, longe de mim, tão só,
Vejo-te em sonhos, olhando em paz
O verde molhado dos outeiros…
Toco-te a boca, que cerras, sem falar,
Miro-te o queixo, erguido, valoroso.
Sei-te distante, na estrada, a rodar
Veloz na chuva, que tomba sem repouso.
Nas minhas mãos já sinto o teu cabelo,
O teu olhar me envolve com ardor,
Em pensamento é meu o teu calor.
Para mim vens, quilómetros correndo,
A tempestade vences, percorrendo
A distância que separa o nosso amor.
Ilona Bastos
Etiquetas:
foto e poema de Ilona Bastos
sábado, 16 de outubro de 2010
ENCANTO E DESENCANTO
.
.
Todos passaremos pelo encanto
e pelo desencanto.
Perguntaremos pelo esplendor
que já partiu.
Veremos a luz e as trevas.
Cantaremos, saudosos, o passado,
desalentados do presente.
Imaginaremos que só o tempo ido é belo
e o aqui e agora puramente tristeza.
Esqueceremos, cegos, que este presente
será o passado feliz.
Mas eu não quero perder o presente.
Por isso observo, procuro, encontro
a cor na escuridão,
a flor no charco,
a estrela no céu nublado.
Seja o que for, eu encontro,
para não poder clamar,
entristecida, demente,
que o passado era mais azul
ou mais róseo, ou mais brilhava
o ouro então do que agora
que vos falo, feliz.
.
Ilona Bastos
Rodrigo Leão & Cinema Ensemble - Casino Estoril ( A Mãe)
terça-feira, 12 de outubro de 2010
HOUVE UM TEMPO...
Houve um tempo em que o tempo não tinha fim.
Percorriam-no jogos, corridas e risos pelo jardim,
Ou as rodas de uma dança de criança, de um triciclo,
Um ciclo de fitas animadas, livros de contos de fadas,
Baladas, romances de príncipes e princesas encantadas…
Houve um tempo de inocência, em que a aventura
Sorria, espreitando, em cada esquina, e era ventura
As pistas descobrir, e do mistério desvendar a solução,
Na convicção de quem é vencedor na luta pelo bem
E tem, em si, a ambição de ser gigante - ser alguém!
Houve um tempo de sonhos como botões de rosa,
A florescer no desfiar dos pensamentos de uma prosa,
A gentilmente se expandir em pétalas coloridas, delicadas,
Perfumadas de magia, de um aroma que embriaga, inebria
E nos guia, tal brisa suave, pelos caminhos da poesia.
Houve um tempo em que o futuro se desenhava luminoso,
Longínquo, belo horizonte pleno de esperança, grandioso,
E que os passos, alegres, decididos, cheios de felicidade,
Pela cidade me levavam, corajosos, e seguros revelavam,
Antecipavam carinhosos, o amor imenso que buscavam…
Houve um tempo em que o presente era também futuro,
Em que, vivendo a dois tempos, lançava meu olhar puro,
E dali mesmo antevia, leda visão do porvir, o que seria,
Viveria, a sorrir, o amor e a grandeza, que ainda ouso atrair,
Ouvir promessas de então, que o coração quer cumprir.
Ilona Bastos
Etiquetas:
foto e poema de Ilona Bastos
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Aqui estou eu, à espera que o tempo passe, a inspiração me surja, o espírito se me torne mais inteligente, os sentidos mais alerta, o ânimo se revigore, e tudo, tudo mude como deve mudar para que eu seja o que nunca fui, imagine o que nunca imaginei, descubra o que nunca descobri, escreva o que nunca escrevi…
Frederico de Freitas-Suite Medieval (Início)
terça-feira, 5 de outubro de 2010
FALAR DE MIM
Nas coisas e nos seres
estampo a minha luz.
E descrevo-os, assim,
Luminosos ou sombrios,
Consoante me sinto.
Falar do que me rodeia
É, por isso, falar de mim.
Como evitá-lo?
Escrever sobre o cadeirão,
Colocado junto à janela –
O tecido verde e rosado,
Amparado pela armação
Leve, em madeira clara –
É dizer de mim, ou do outro,
O que pensou o desenho,
Escolheu o tecido e os tons,
Coseu almofadas e botões,
Cortou o pinho e amaciou-o?
É falar de mim ou daquele
Que no cadeirão se senta,
E o faz seu ao longo dos dias
E das noites?
Ou é antes recordar a mulher
Que lhe limpa o pó?
Ou o cão, que nele se aninha,
Preguiçoso?
Ou o que construiu o edifício
E rasgou a janela?
Continuo a pensar,
Apesar de tudo,
Que o cadeirão,
No meu olhar,
É imagem minha,
E se dela falo, é de mim,
Afinal, que estou a falar. .
.
Ilona Bastos
António Pinho Vargas (1984) Da alma.mov
Subscrever:
Mensagens (Atom)








