quinta-feira, 9 de dezembro de 2010


NEVOEIRO


Lembrando uma paisagem escandinava
Desenham-se, além dos vidros da janela,
Os traços suaves dos ramos de pinheiro,
Esbatidas manchas de quadro em aguarela,
Por entre o esbranquiçado frio do nevoeiro.

Também, mais próxima, desmaiada, a relva
Se distancia, neutra, na densa neblina,
E o fundo baço, que esconde o arvoredo,
Envolve o céu e a vida, em leve musselina.

Só um vulto, esbelto, vem descendo, ledo,
A longa escadaria, que o nevoeiro adoça,
E uma gaivota livre, de asas prateadas,
Planando baixo, os seus cabelos roça.

Agora, vejo as nuvens, rasas e molhadas,
Correrem, junto à erva, em desfilada,
Afugentando o véu, os seres, a quieta paz
Desta atmosfera idílica, encantada.

Soprando velozmente, vem o vento e faz,
Agreste, forte, intenso, espantar a magia
Do nevoeiro imenso, prenhe de mistério,
Que a manhã cobriu, neste invernoso dia.

Então, no céu, o azul retoma o seu império,
O sol inunda a relva, a rua, todo o parque,
Regressam vozes, passos, gente radiosa,
Da vida, a cor, o brilho, a infinita arte...

E, na transparência pura, gloriosa,
Desta pintura bela, perfeita em limpidez,
Na Natureza rica, na vívida Criação,
Esboça-se, com espantosa nitidez -
A imagem de Deus - sublime Revelação!


Ilona Bastos

domingo, 28 de novembro de 2010

O POEMA QUE SE SEGUE

  
Não há que temer a Poesia,
Nem estas ideias bizarras
Que em certas horas me assaltam.

Vivo e raciocino por tentativas,
Aproximações e intuições.

Pensamentos fugazes,
Velozes, acutilantes,
Perpassam-me a mente,
De rompante, e logo
Seguem seus caminhos.

Lanço-me atrás deles, correndo,
Alcanço-os, por vezes, detenho-os,
Interrogo-os, fotografo-os, de frente,
De perfil, de um lado e do outro,
Curiosa, inquisitiva, sem sorrir.

Anoto, atenta, o que revelam,
Alvitro, sugiro, proponho,
Componho o texto e exponho-o
Neste caderno invulgar.

Largo-as, depois, às ideias,
Que dispersam livremente.

E o que sinto é ser tão leve,
Neste alívio imparável de criar,
Que levanto, brilhante, o meu olhar
Na procura do poema que se segue.

Ilona Bastos

sexta-feira, 19 de novembro de 2010


Gonzalo Torrente Ballester


"E esta história, meu amigo, é nada menos do que a seguinte: «por volta do ano mil, segundo a tradição ou certos cálculos, um cavaleiro de nome Marinho caminhava à beira-mar, quando um inesperado escorregão ou qualquer outra causa o precipitou nas alterosas vagas, das quais não teria podido livrar-se, armado como ia e trôpego na natação (não na lide, naturalmente), se não estivesse casualmente à espreita por aqueles lugares a Sereia de Finisterra, a tão sinistramente reputada, que acudiu rápida ao socorro, e que tendo visto de perto o formoso rosto e o bem trabalhado corpo do desmaiado náufrago, concebeu por ele amores tão súbitos, que o levou para a sua caverna e com ele ficou por amante durante bastantes anos; e ali teria morrido o cavaleiro de pura velhice, se não fora porque os filhos havidos do vínculo conjugal, que eram quatro, embora excelentes em artes natatórias e piscatórias, tudo ignoravam da cavalaria e da espada, pelo que seu pai pediu à Sereia que o deixasse voltar para terra e levá-los consigo para lhes dar completa educação, ao que ela respondeu que sim, que estava bem, que os levasse e os fizesse cavaleiros, mas com o anúncio e compromisso de que, cada geração, ela levaria um descendente para as suas necessidades particulares, e este destino singular reconhecer-se-ia na cor azul dos olhos ou nas escamas de peixe que o destinado haveria de ter nas coxas. E sucedeu desde então que todos os Marinho da costa, azul de olhos ou com escamas, desapareceram no mar.»"

Gonzalo Torrente Ballester, O Conto da Sereia, tradução de Miguel Viqueira, Difel, págs. 12 e 13

quinta-feira, 11 de novembro de 2010


Como Soa o Poema

Não soa o poema ao criador.
Irrompe do fundo de nenhures,
Pensamento luminoso, súbito
Na brancura do papel a derramar.

Não soa em alta voz a poesia.
Pois é ideia ágil, forte e clara,
É passo vivo ou mesmo galopante,
Que o braço move e leva pelo ar.

Não soa como som, já que é mais luz,
Corrente descendente até à mão,
Vaivém audaz do lápis no papel
Furor intenso e débil a criar.

Não soa como o fazem as tiradas,
Libertas na conversa ou no canto.
Não soa como corpo, pois é alma
Das letras e palavras faz seu pranto.

Ilona Bastos

quarta-feira, 10 de novembro de 2010


Dias Outonais

Tanto necessito de harmonia,
Que dos meus gestos faço dança,
Para que a arte torne belos
Estes dias curtos do Outono.

Limpo cada folha da palmeira
Como quem penteia os cabelos de oiro
De uma princesa donzela.

Atento, o meu olhar passeia manso
Sobre as construções passantes,
Quando em trânsito navego na cidade,
E lentos desfilam edifícios altos
Nas margens empedradas da avenida.

Prendo-me aos detalhes do mármore jovem,
Do ferro forjado da varanda antiga,
Às minúcias doces de um jardim cuidado,
À cortina em renda por trás da vidraça…

Rola-me entre os dedos a caneta prata
Sinto-a macia, em ânsias de apontar
As palavras prontas que lestas irrompem
Na tarde outonal.

Na chegada a casa, no abrir da porta,
Na entrada escura, no buscar da luz,
Imito a elegância do bailado,
Cisne encantador, fonte de candura,
Em gestos suaves que no ar desenho…

E assim se passam os dias do Outono.
Como a folha seca que ao vento se entrega
E sonhando voa, ave por segundos,
Cada vez mais alto, mais longe, mais leve,
Até que o remoinho, ao virar da esquina,
Tolha o seu caminho.


Ilona Bastos

sábado, 6 de novembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Fotografia de Ilona Bastos



Sebastião da Gama

"Para ser professor, também é preciso ter as mãos purificadas. A toda a hora temos de tocar em flores. A toda a hora a Poesia nos visita.
"O aluno acredita em nós e não deve acreditar em vão. Impõe-se-nos que mereçamos, com a nossa, a pureza dos nossos alunos; que a nossa alimente a deles, a mantenha.
"Sejamos a lição em pessoa - que é isso mais importante e mais eficaz que sermos o papel onde a lição está escrita; e possamos dizer, sem constrangimento: «Deixai-as vir a mim, as criancinhas...»"

Sebastião da Gama, Diário, Edições
Ática, Lisboa, pág. 137

quarta-feira, 27 de outubro de 2010


Registos Outonais

Música: Tears, de Isisip
Fotografias e vídeo: Ilona Bastos
Lisboa, Outubro de 2010

sábado, 23 de outubro de 2010

Fotografia de Ilona Bastos

RETRATO DO MEU AMOR


Olho o teu rosto jovem e audaz,
Fito os teus olhos ternos, meigos,
Que a verdade contam sem receios.
Penso em ti, longe de mim, tão só,
Vejo-te em sonhos, olhando em paz
O verde molhado dos outeiros…

Toco-te a boca, que cerras, sem falar,
Miro-te o queixo, erguido, valoroso.
Sei-te distante, na estrada, a rodar
Veloz na chuva, que tomba sem repouso.

Nas minhas mãos já sinto o teu cabelo,
O teu olhar me envolve com ardor,
Em pensamento é meu o teu calor.
Para mim vens, quilómetros correndo,
A tempestade vences, percorrendo
A distância que separa o nosso amor.



Ilona Bastos

sábado, 16 de outubro de 2010

Fotografia de Ilona Bastos

ENCANTO E DESENCANTO
.
.
Todos passaremos pelo encanto
e pelo desencanto.
Perguntaremos pelo esplendor
que já partiu.
Veremos a luz e as trevas.
Cantaremos, saudosos, o passado,
desalentados do presente.
Imaginaremos que só o tempo ido é belo
e o aqui e agora puramente tristeza.
Esqueceremos, cegos, que este presente
será o passado feliz.

Mas eu não quero perder o presente.
Por isso observo, procuro, encontro
a cor na escuridão,
a flor no charco,
a estrela no céu nublado.
Seja o que for, eu encontro,
para não poder clamar,
entristecida, demente,
que o passado era mais azul
ou mais róseo, ou mais brilhava
o ouro então do que agora
que vos falo, feliz.

.

Ilona Bastos

Rodrigo Leão & Cinema Ensemble - Casino Estoril ( A Mãe)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Fotografia de Ilona Bastos

HOUVE UM TEMPO...



Houve um tempo em que o tempo não tinha fim.
Percorriam-no jogos, corridas e risos pelo jardim,
Ou as rodas de uma dança de criança, de um triciclo,
Um ciclo de fitas animadas, livros de contos de fadas,
Baladas, romances de príncipes e princesas encantadas…

Houve um tempo de inocência, em que a aventura
Sorria, espreitando, em cada esquina, e era ventura
As pistas descobrir, e do mistério desvendar a solução,
Na convicção de quem é vencedor na luta pelo bem
E tem, em si, a ambição de ser gigante - ser alguém!

Houve um tempo de sonhos como botões de rosa,
A florescer no desfiar dos pensamentos de uma prosa,
A gentilmente se expandir em pétalas coloridas, delicadas,
Perfumadas de magia, de um aroma que embriaga, inebria
E nos guia, tal brisa suave, pelos caminhos da poesia.

Houve um tempo em que o futuro se desenhava luminoso,
Longínquo, belo horizonte pleno de esperança, grandioso,
E que os passos, alegres, decididos, cheios de felicidade,
Pela cidade me levavam, corajosos, e seguros revelavam,
Antecipavam carinhosos, o amor imenso que buscavam…

Houve um tempo em que o presente era também futuro,
Em que, vivendo a dois tempos, lançava meu olhar puro,
E dali mesmo antevia, leda visão do porvir, o que seria,
Viveria, a sorrir, o amor e a grandeza, que ainda ouso atrair,
Ouvir promessas de então, que o coração quer cumprir.


Ilona Bastos