sábado, 14 de maio de 2011




ESCREVER OU NÃO ESCREVER

Ontem à noite, já muito tarde, pouco antes de me deitar, decidi: amanhã vou recomeçar a escrever.
Uma voz mais fraca, ainda que gentil, sussurrou: mas é precisa inspiração, ou escreverás textos sem qualquer valor.
E fui para a cama a ponderar, a discorrer sobre o valor de escrever textos desinspirados.
Pouco antes de adormecer, confiadamente, lembrei-me de que o acto da escrita precede, muitas vezes, o do pensamento. E senti-me encorajada pela decisão que me consentira tomar.

Ilona  Bastos

segunda-feira, 2 de maio de 2011



FELICIDADE

Uma vez mais posso concentrar-me apenas no verde e nos caracóis brilhantes dos pinheiros, pairando encosta acima, até tocar o azul dos céus.
Não descerá, então, o meu olhar, do luminoso aveludado da erva que a chuva alimentou e o sol torna reluzente. 
E a ténue suspeita dos insectos a pairar pela mata, num vívido luzir de asas, ou o chilrear anónimo das aves que daqui não avisto, tudo misturado ao voo das nuvens, à quentura da tarde, à claridade da rua, enche-me a alma de uma tranquila felicidade!

Ilona Bastos

quinta-feira, 31 de março de 2011


ELES

Soam cornetas, clarins,
Tambores rufam, tresloucados,
E ufanos, emproados,
Eis os actores que se agitam.
Vozes gritam, retumbantes,
Perorando, sapientes,
Sábios doutores, reis das gentes,
Que o saber ao mundo ditam.
Mil glórias, vaidosos, clamam,
De rastos, modestos, coram,
De improviso abrilhantam
Discursos que a si encantam
E  à socapa decoram.
Sabem rir quando é preciso,
E chorar na ocasião.
Suaves, doces, emotivos,
Rudes ou persuasivos,
Negam ao povo o seu pão.

Ilona Bastos

Serei injusta? Mas ao observá-los, ontem,  na A.R. - os seus gritos, risos, esgares - recordei-me deste escrito antigo, com quase 30 anos. Tudo muda - nada muda...

quinta-feira, 24 de março de 2011



SEMENTE DE PRIMAVERA


Onde se esconde, em mim,
Esta semente que germina
Ao chegar da Primavera?

Será no coração pesaroso
Que o Inverno deixa mouco,
Mas com a Primavera remoça
E canta, e esperto reconhece
Em redor, o amor,
A vida, a felicidade?

Será no cérebro cansado,
Que o Inverno torna vago,
Mas que a Primavera espevita,
Encanta, afaga, e inspira,
De ideias fervilhante,
Cintilante, criador?

Será no olhar embaciado,
Que de cores se enche, louco?
No olfacto, inebriado
pelo aroma das flores?
Nos ouvidos doloridos,
Que na música se perdem?

Ou na pele
Que, brilhante, resplandece?
Ou na língua,
Que em paladares mil se deleita?

Onde, onde se esconde
Esta semente que agora floresce
E me inunda de Primavera?


Ilona Bastos

segunda-feira, 21 de março de 2011




O ESCREVER DA POESIA


Não sei se escrevo poesia
Ou se a poesia me escreve.

É presunção, decerto, julgar-me criadora,
Chamar poesia a estas palavras
Que debito, desajeitadas e frouxas,
Nas brancas páginas de um caderno.

Maior presunção, ainda,
Acreditar que meus actos desconexos,
Pensamentos e gestos perplexos,
Encerram em si a poesia, o motor
Gerador do meu viver.

E, contudo, a poesia existe em mim
E em meu redor. Sinto-a!
Encontro-a amiúde,
Em manhãs de sol radiante,
Em tardes de plúmbeo céu,
Em noites quentes de abóbada estrelada.

Nem sempre, é certo, a reconheço,
Nem sempre, é certo, me toca e aborda…
Não sei mesmo de onde vem,
Os caminhos que percorre,
Suas maneiras e manhas.

Dias há que a procuro em vão,
Nas esquinas e nas sombras,
Mesmo nas iluminadas avenidas
Que essa luz branca, esfuziante,
Torna nítidas e confusas,
Na confusão que tudo invade,
E cresce, se a poesia não está.

É-me estranha, é-me íntima a poesia!

Ténue, fugidia, forte, impressionante,
Dá sentido ao que sentido não tem,
Mas se a escrevo ou se me escreve,
Isso é que eu não sei bem…


Ilona Bastos

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011



Do outro lado da rua é o jardim, donde me acenam, em cascatas coloridas, as ramagens festivas das mimosas em flor...



Daishi Dance feat. Yoshida Brothers Renovation

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011



A Observação dos Pássaros


Na imobilidade que impõe, a observação dos pássaros é uma actividade surpreendentemente viva. Os pássaros são espertos, desenvoltos, ladinos, simultaneamente nervosos e precisos nos súbitos movimentos de cabeça, no saltitar astuto, no debicar rápido e sagaz!

Seguia eu de automóvel, numa dessas manhãs modorrentas em que o céu nublado condiz com o nosso cérebro confuso, e, diante de um semáforo cuja luz vermelha parecia ter parado no tempo, pousei o meu olhar apático sobre o branco acinzentado da calçada.
Movimentos breves, ligeiros, múltiplos, chamaram a minha atenção: pardalitos encantadores saltitavam pelo passeio.

Do canteiro, onde se encontravam, avançavam para o empedrado em pequenos saltos e graciosos meneios de cabeça, ora para vigiar em redor, ora para debicar algo no chão. Saltitando, espalhavam-se, corajosos. E logo atrás, superior, majestoso, um melro seguia o mesmo percurso. Plumagem preta, bico amarelo, pose distinta, não ameaçava nem protegia os pardais, mínimas e perfeitas criaturas de cor parda, pompons de penas, que pela manhã se moviam.

E, enquanto observava os pássaros, na imobilidade que tal tarefa implica, senti-me subitamente desperta, lúcida, viva, contagiada pelo vigor dos pardais!


Ilona Bastos

domingo, 13 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010


NEVOEIRO


Lembrando uma paisagem escandinava
Desenham-se, além dos vidros da janela,
Os traços suaves dos ramos de pinheiro,
Esbatidas manchas de quadro em aguarela,
Por entre o esbranquiçado frio do nevoeiro.

Também, mais próxima, desmaiada, a relva
Se distancia, neutra, na densa neblina,
E o fundo baço, que esconde o arvoredo,
Envolve o céu e a vida, em leve musselina.

Só um vulto, esbelto, vem descendo, ledo,
A longa escadaria, que o nevoeiro adoça,
E uma gaivota livre, de asas prateadas,
Planando baixo, os seus cabelos roça.

Agora, vejo as nuvens, rasas e molhadas,
Correrem, junto à erva, em desfilada,
Afugentando o véu, os seres, a quieta paz
Desta atmosfera idílica, encantada.

Soprando velozmente, vem o vento e faz,
Agreste, forte, intenso, espantar a magia
Do nevoeiro imenso, prenhe de mistério,
Que a manhã cobriu, neste invernoso dia.

Então, no céu, o azul retoma o seu império,
O sol inunda a relva, a rua, todo o parque,
Regressam vozes, passos, gente radiosa,
Da vida, a cor, o brilho, a infinita arte...

E, na transparência pura, gloriosa,
Desta pintura bela, perfeita em limpidez,
Na Natureza rica, na vívida Criação,
Esboça-se, com espantosa nitidez -
A imagem de Deus - sublime Revelação!


Ilona Bastos