sábado, 28 de maio de 2011
SUBTIL ACENO
Precisamente porque ninguém tenta convencer-me do seu carácter extraordinário, sinto este fenómeno da Natureza, tal como o observo nas imagens então registadas, como um sinal determinante no caminho da minha fé.
Comove-me a simultânea simplicidade e grandiosidade dos meios utilizados.
Um subtil aceno que tão profundamente me toca.
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Foto e texto de Ilona Bastos
sábado, 21 de maio de 2011
JOÃO PAULO II
"Actualmente, no mundo, e especialmente no nosso Ocidente, sentimos a necessidade de "reedificar", nas suas componentes essenciais, uma civilização verdadeiramente digna do homem. As desigualdades económicas que ainda subsistem, ou que se vão agravando, são um sintoma das carências mais profundas que afectam a atmosfera espiritual. Ideologias, por um lado materialistas, por outro cheias de permissividade moral, conduziram muita gente a acreditar na possibilidade de construir uma sociedade nova e melhor excluindo Deus e eliminando qualquer referência aos valores transcendentais. Mas a experiência aponta para que, sem Deus, a sociedade se desumanize e o homem se encontre privado da sua maior riqueza. O mundo futuro será tanto mais humano quanto mais próximos estiverem os homens do seu Criador e Redentor."
João Paulo II, As Reflexões para o Ano 2000, Colecção Vida e Cultura, Livros do Brasil, Lisboa, pág. 9.
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As reflexões para o Ano 2000,
excerto,
foto de Ilona Bastos,
João Paulo II
quinta-feira, 19 de maio de 2011
FÉ
Disse:
"Paradoxalmente, não acreditando, acredito".
Responderam, com um sorriso:
"A isso chama-se fé."
Ilona Bastos
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Fé,
Foto e texto de Ilona Bastos
terça-feira, 17 de maio de 2011
CÉU
Agora que me preparava para sair, este ruído matreiro!
A minha atenção está desperta, e uma dúvida subtil leva à imediata exclamação de incredulidade: " Não é possível!"
A passos largos atravesso a sala e levanto a veneziana (já descida, nos preparativos para abandonar o escritório). No vidro, que gradualmente se expõe, ei-las, as gotas de prata que tracejam verticalmente a paisagem verde. Sim, é chuva - começou a chover.
Abro a janela e deito a cabeça de fora, de maneira a dissipar o espanto e simultaneamente abarcar, no meu campo de visão, para além do jardim, todo o horizonte citadino.
Quatro patos, em formação, voam paralelamente à janela, arrancando-me uma nova exclamação, esta de felicidade: "Que belo!" Consigo, desta vez, apreciá-los bem. Todos machos, o pescoço verde esticado, elegantes e rápidos como flechas - fabulosos na sua trajectória resoluta.
A chuva intensifica-se do lado direito, onde as trovões ribombam, ameaçadores. Aproxima-se a tempestade.
Fecho a janela e sento-me diante da paisagem, a escrever, enquanto as nuvens altas e longínquas desfilam as suas ilustrações ao som da música de Bach que me chega do apartamento contíguo.
Como tenho feito desde sexta-feira, nas nuvens procuro caras. Mas não as encontro logo. E, se finalmente distingo uma, é grotesca, de avantajado nariz, facia disforme. Logo depois, um rosto desconstruído, espécie de Picasso, se desenha; mas quando levanto o olhar da escrita e o lanço novamente sobre o cortejo das nuvens, já tudo se desvaneceu e apenas uma cabeça enorme, lembrando um recortado focinho de cão, se ilumina por sobre o fundo cinzento mesclado do céu.
Não, um rosto perfeito, como o que vi no canto direito da auréola, não é vulgar!
Mais uma coincidência a somar às demais. Outra perplexidade a espicaçar-me a razão. Uma nova gota de orvalho a brilhar no casulo luminoso em que se abriga a minha secreta fé.
Ilona Bastos
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13 de Maio de 2011,
Fátima,
Foto e texto de Ilona Bastos,
halo solar
A ESCRITA EM MIM
Poderia não ter dito o que disse, nem escrito o que escrevi. Mas como discernir, em cada momento, o que deve ser dito ou escrito, quando é esta voz (pelos outros inaudível) que se expressa, que inicia, sem avisos, o seu discurso interior?
Também eu sou apanhada de surpresa, por vezes. Também eu me espanto com estas afirmações equívocas, ou dúvidas descabidas.
Mas, que fazer? É assim mesmo que a escrita surge em mim - inesperada, imperativa, incompreensível quiçá...
Tanto tempo emudecida, vou deixar agora que se exprima. Não vou censurá-la, nem dizer-lhe: hoje, fala do assunto do dia, não me venhas com esses monólogos desvairados, que nem eu mesma entendo.
Não, hoje vou deixá-la expressar-se como melhor entender, e vou simplesmente anotar as suas ideias.
Também eu sou apanhada de surpresa, por vezes. Também eu me espanto com estas afirmações equívocas, ou dúvidas descabidas.
Mas, que fazer? É assim mesmo que a escrita surge em mim - inesperada, imperativa, incompreensível quiçá...
Tanto tempo emudecida, vou deixar agora que se exprima. Não vou censurá-la, nem dizer-lhe: hoje, fala do assunto do dia, não me venhas com esses monólogos desvairados, que nem eu mesma entendo.
Não, hoje vou deixá-la expressar-se como melhor entender, e vou simplesmente anotar as suas ideias.
Ilona Bastos
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Foto e texto de Ilona Bastos
segunda-feira, 16 de maio de 2011
PINTURAS FOTOGRÁFICAS
Estas pinturas fotográficas não me deixam. Obsessivamente me atraem com novos tons, novas texturas, novas formas.
Pela rua caminhando, cada folha descida de uma árvore, cada flor silvestre acenando da borda de um canteiro ou nascida nos interstícios da muralha de pedra, me atraem. Sinto serem muito mais que a minúscula mancha esverdeada, que a acenante corola recortada. Diante da lente investigadora e provocatória da câmara, ganham dimensão monumental, complexidade fabulosa, detalhes extraordinários, textura belíssima, cor arrojada. Que mistérios, que tesouros descubro através desta visão inconveniente da câmara fotográfica!
Pela rua caminhando, cada folha descida de uma árvore, cada flor silvestre acenando da borda de um canteiro ou nascida nos interstícios da muralha de pedra, me atraem. Sinto serem muito mais que a minúscula mancha esverdeada, que a acenante corola recortada. Diante da lente investigadora e provocatória da câmara, ganham dimensão monumental, complexidade fabulosa, detalhes extraordinários, textura belíssima, cor arrojada. Que mistérios, que tesouros descubro através desta visão inconveniente da câmara fotográfica!
No écran, as imagens deixam-me muitas vezes sem fôlego. Que beleza, que espantosa perfeição!
E sucedem-se estas pinturas fotográficas que me apaixonam.
Ilona Bastos
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Pinturas Fotográficas
sábado, 14 de maio de 2011
ESCREVER OU NÃO ESCREVER
Ontem à noite, já muito tarde, pouco antes de me deitar, decidi: amanhã vou recomeçar a escrever.
Uma voz mais fraca, ainda que gentil, sussurrou: mas é precisa inspiração, ou escreverás textos sem qualquer valor.
E fui para a cama a ponderar, a discorrer sobre o valor de escrever textos desinspirados.
Pouco antes de adormecer, confiadamente, lembrei-me de que o acto da escrita precede, muitas vezes, o do pensamento. E senti-me encorajada pela decisão que me consentira tomar.
Ilona Bastos
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segunda-feira, 2 de maio de 2011
FELICIDADE
Uma vez mais posso concentrar-me apenas no verde e nos caracóis brilhantes dos pinheiros, pairando encosta acima, até tocar o azul dos céus.
Não descerá, então, o meu olhar, do luminoso aveludado da erva que a chuva alimentou e o sol torna reluzente.
E a ténue suspeita dos insectos a pairar pela mata, num vívido luzir de asas, ou o chilrear anónimo das aves que daqui não avisto, tudo misturado ao voo das nuvens, à quentura da tarde, à claridade da rua, enche-me a alma de uma tranquila felicidade!
Não descerá, então, o meu olhar, do luminoso aveludado da erva que a chuva alimentou e o sol torna reluzente.
E a ténue suspeita dos insectos a pairar pela mata, num vívido luzir de asas, ou o chilrear anónimo das aves que daqui não avisto, tudo misturado ao voo das nuvens, à quentura da tarde, à claridade da rua, enche-me a alma de uma tranquila felicidade!
Ilona Bastos
quinta-feira, 31 de março de 2011
ELES
Soam cornetas, clarins,
Tambores rufam, tresloucados,
E ufanos, emproados,
Eis os actores que se agitam.
Vozes gritam, retumbantes,
Perorando, sapientes,
Sábios doutores, reis das gentes,
Que o saber ao mundo ditam.
Mil glórias, vaidosos, clamam,
De rastos, modestos, coram,
De improviso abrilhantam
Discursos que a si encantam
E à socapa decoram.
Sabem rir quando é preciso,
E chorar na ocasião.
Suaves, doces, emotivos,
Rudes ou persuasivos,
Negam ao povo o seu pão.
Ilona Bastos
Serei injusta? Mas ao observá-los, ontem, na A.R. - os seus gritos, risos, esgares - recordei-me deste escrito antigo, com quase 30 anos. Tudo muda - nada muda...
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Narcisos
quinta-feira, 24 de março de 2011
SEMENTE DE PRIMAVERA
Onde se esconde, em mim,
Esta semente que germina
Ao chegar da Primavera?
Será no coração pesaroso
Que o Inverno deixa mouco,
Mas com a Primavera remoça
E canta, e esperto reconhece
Em redor, o amor,
A vida, a felicidade?
Será no cérebro cansado,
Que o Inverno torna vago,
Mas que a Primavera espevita,
Encanta, afaga, e inspira,
De ideias fervilhante,
Cintilante, criador?
Será no olhar embaciado,
Que de cores se enche, louco?
No olfacto, inebriado
pelo aroma das flores?
Nos ouvidos doloridos,
Que na música se perdem?
Ou na pele
Que, brilhante, resplandece?
Ou na língua,
Que em paladares mil se deleita?
Onde, onde se esconde
Esta semente que agora floresce
E me inunda de Primavera?
Ilona Bastos
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segunda-feira, 21 de março de 2011
O ESCREVER DA POESIA
Não sei se escrevo poesia
Ou se a poesia me escreve.
É presunção, decerto, julgar-me criadora,
Chamar poesia a estas palavras
Que debito, desajeitadas e frouxas,
Nas brancas páginas de um caderno.
Maior presunção, ainda,
Acreditar que meus actos desconexos,
Pensamentos e gestos perplexos,
Encerram em si a poesia, o motor
Gerador do meu viver.
E, contudo, a poesia existe em mim
E em meu redor. Sinto-a!
Encontro-a amiúde,
Em manhãs de sol radiante,
Em tardes de plúmbeo céu,
Em noites quentes de abóbada estrelada.
Nem sempre, é certo, a reconheço,
Nem sempre, é certo, me toca e aborda…
Não sei mesmo de onde vem,
Os caminhos que percorre,
Suas maneiras e manhas.
Dias há que a procuro em vão,
Nas esquinas e nas sombras,
Mesmo nas iluminadas avenidas
Que essa luz branca, esfuziante,
Torna nítidas e confusas,
Na confusão que tudo invade,
E cresce, se a poesia não está.
É-me estranha, é-me íntima a poesia!
Ténue, fugidia, forte, impressionante,
Dá sentido ao que sentido não tem,
Mas se a escrevo ou se me escreve,
Isso é que eu não sei bem…
Ilona Bastos
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