sábado, 24 de setembro de 2011

Heinrich Harrer


"Estávamos a 15 de Janeiro de 1946 quando iniciámos a nossa última marcha. Vindos de Tolüng, chegámos ao extenso vale de Kyichu. Ao transpor uma curva vimos, brilhando à distância, os telhados dourados do Potala, a residência de Inverno do Dalai Lama e a mais famosa referência de Lassa. Este momento compensou-nos de tudo. Sentimos vontade de nos ajoelharmos como os peregrinos e tocar o chão com a testa. Desde que partíramos de Kyirong tínhamos percorrido mais de 1000 quilómetros com  a visão desta fabulosa cidade na mente. Tínhamos caminhado durante setenta dias e descansado apenas cinco. Isso representava uma média diária de quase quinze quilómetros. Quarenta e cinco dias da nossa jornada tinham sido passados a travessar o Changthang - dias de sofrimento e de incessante luta contra o frio, a fome e o perigo. Agora, enquanto admirávamos extasiados os pináculos dourados, tudo isso estava esquecido - mais dez quilómetros e teríamos alcançado o nosso objectivo."

Heinrich Harrer, Sete Anos no Tibete, Edições Asa, Fnac de bolso

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

sábado, 2 de julho de 2011




ANDO POR LÁ!


Ando por lá!
Pela procura, pelo quase tocar da essência,
pelas ideias, pelos segredos, pelos medos,
pelos caminhos, pelos indícios, pela aparência!

Ando por lá!
Pela solidão acompanhada,
pela tristeza acarinhada,
pela revelação ansiada!

Ando por lá!
Tão próximo, em voo quase rasante,
em busca sempre incessante,
em dúvida galopante…

Ando, ando indubitavelmente por lá!


Ilona Bastos

segunda-feira, 13 de junho de 2011


Deixemos Falar os Nossos Corações


Nada do que eu digo 
É apenas isso -
É sempre muito mais. 

Tu recebes as palavras,
Misturas o tom e a cor
Dos teus pensamentos,
Referências de outros sons,
De outras imagens e momentos,
Do passado e do futuro
Que sonhas, sentimentos, 
Felicidade e sofrimento.

Por isso, o que eu digo
Não é o que tu ouves.

E te proponho:
Silenciemos. Deixemos
Falar os nossos corações.


Ilona Bastos


..

quinta-feira, 9 de junho de 2011


CAMPO DE OURIQUE
Nos passos de Fernando Pessoa


O bairro está alegre, não sei porquê.
Talvez seja da chuva, que parou.
Ou dos raios de sol, coados pelas nuvens,
inundando a manhã de uma luminosidade bela,
que desce pelos telhados, infiltra-se na folhagem
e desliza para a calçada,
onde desenha bordados brilhantes,
trabalhados na sombra.

Noto nos transeuntes um semblante animado.
Apercebo-me mesmo do seu andar saltitante,
tão pouco habitual neste bairro antigo.
Tantas e tantas vezes tenho percorrido estas ruas,
observando o cansaço nos rostos com que me cruzo!
Ou será ilusão minha, influenciada que vou
pelas histórias tristes que acabei de ouvir
e pelos conselhos difíceis que tive de dar?

Mas hoje não, não há cansaço, nem rostos sofridos –
o bairro está alegre. E não sei porquê.
É certo que a manhã me sorriu,
que me não couberam dramas, nem tragédias,
que as respostas as tive na ponta da língua
e que as notícias as pude dar animadoras!

Intrigada, pergunto-me se Fernando Pessoa,
que por estas mesmas calçadas andou,
que também aqui morou ao longo de quinze anos,
notou estes desvarios do pacato bairro
que num belo dia de Setembro resolve descobrir-se alegre,
vestir-se de luz dourada, pincelar os edifícios de magia
e brindar os seus habitantes com a graça da Felicidade.

Quando Pessoa dizia “Vou num carro eléctrico,
e estou reparando lentamente, conforme é meu costume,
em todos os pormenores das pessoas que vão adiante de mim”,
estaria a referir-se igualmente a estas mudanças bizarras,
a estas revelações inauditas, inesperadas,
em caminhos tão conhecidos, tão familiares
que suporíamos não poderem apresentar para nós
quaisquer segredos ou mistérios?

Repito os passos de Fernando Pessoa.
Dirijo-me ao Jardim da Parada.

Hoje, até a estátua da Maria da Fonte, por entre as flores,
parece ter perdido a sua rigidez de pedra
e adquirido movimento nos cabelos soltos,
flexibilidade nos gestos de mulher do povo
que reivindica a liberdade.
Acena, risonha, às crianças nos baloiços,
à senhora idosa de bela cabeleira branca,
que empurra o carrinho do neto,
à fonte, em êxtase, que lança diamantes em redor.

Que alegria desgovernada percorre o bairro!
Até me custa deixá-lo, sem saber o que fará
quando lhe virar as costas.
Explodirá em festivos destemperos?
Mas o estômago, insistente, requisita almoço urgente,
e já abandono o jardim, passo a rua das sardinheiras,
dobro à esquerda e avanço, desaguo na Maria Pia,
ainda a tempo de ver, voltando a cabeça rapidamente,
as cascatas de luz que descem pelo casario
e inundam o vale de Alcântara.


Ilona Bastos

sábado, 28 de maio de 2011



SUBTIL ACENO

Precisamente porque ninguém tenta convencer-me do seu carácter extraordinário, sinto este fenómeno da Natureza, tal como o observo nas imagens então registadas, como um sinal determinante no caminho da minha fé.

Comove-me a simultânea simplicidade e grandiosidade dos meios utilizados.
Um subtil aceno que tão profundamente me toca.

sábado, 21 de maio de 2011




 JOÃO PAULO II

"Actualmente, no mundo, e especialmente no nosso Ocidente, sentimos a necessidade de "reedificar", nas suas componentes essenciais, uma civilização verdadeiramente digna do homem. As desigualdades económicas que ainda subsistem, ou que se vão agravando, são um sintoma das carências mais profundas que afectam a atmosfera espiritual. Ideologias, por um lado materialistas, por outro cheias de permissividade moral, conduziram muita gente a acreditar na possibilidade de construir uma sociedade nova e melhor excluindo Deus e eliminando qualquer referência aos valores transcendentais. Mas a experiência aponta para que, sem Deus, a sociedade se desumanize e o homem se encontre privado da sua maior riqueza. O mundo futuro será tanto mais humano quanto mais próximos estiverem  os homens do seu Criador e Redentor."

João Paulo II, As Reflexões para o Ano 2000, Colecção Vida e Cultura, Livros do Brasil, Lisboa, pág. 9.


quinta-feira, 19 de maio de 2011





Disse:
"Paradoxalmente, não acreditando, acredito".
Responderam, com um sorriso:
"A isso chama-se fé."

Ilona Bastos

terça-feira, 17 de maio de 2011


CÉU

Agora que me preparava para sair, este ruído matreiro!
A minha atenção está desperta, e uma dúvida subtil leva à imediata exclamação de incredulidade: " Não é possível!"
A passos largos atravesso a sala e levanto a veneziana  (já descida, nos preparativos para abandonar o escritório). No vidro, que gradualmente se expõe, ei-las, as gotas de prata que tracejam verticalmente a paisagem verde. Sim, é chuva - começou a chover.
Abro a janela e deito a cabeça de fora, de maneira a dissipar o espanto e simultaneamente abarcar, no meu campo de visão, para além do jardim, todo o horizonte citadino.
Quatro patos, em formação, voam paralelamente à janela, arrancando-me uma nova exclamação, esta de felicidade: "Que belo!" Consigo, desta vez, apreciá-los bem. Todos machos, o pescoço verde esticado, elegantes e rápidos como flechas - fabulosos na sua trajectória resoluta.
A chuva intensifica-se do lado direito, onde as trovões ribombam, ameaçadores. Aproxima-se a tempestade.
Fecho a janela e sento-me diante da paisagem, a escrever, enquanto as nuvens altas e longínquas desfilam as suas ilustrações ao som da música de Bach que me chega do apartamento contíguo.
Como tenho feito desde sexta-feira, nas nuvens procuro caras. Mas não as encontro logo. E, se finalmente distingo uma, é grotesca, de avantajado nariz, facia disforme. Logo depois, um rosto desconstruído, espécie de Picasso, se desenha; mas quando levanto o olhar da escrita e o lanço novamente sobre o cortejo das nuvens, já tudo se desvaneceu e apenas uma cabeça enorme, lembrando um recortado focinho de cão, se ilumina por sobre o fundo cinzento mesclado do céu.
Não, um rosto perfeito, como o que vi no canto direito da auréola, não é vulgar!
Mais uma coincidência a somar às demais. Outra perplexidade a espicaçar-me a razão. Uma nova gota de orvalho a brilhar no casulo luminoso em que se abriga a minha secreta fé.


Ilona Bastos



Fátima, 13 de Maio de 2011 - Halo Solar
http://www.youtube.com/watch?v=zNXXNf-8zLI





A ESCRITA EM MIM

Poderia não ter dito o que disse, nem escrito o que escrevi. Mas como discernir, em cada momento, o que deve ser dito ou escrito, quando é esta voz (pelos outros inaudível) que se expressa, que inicia, sem avisos, o seu discurso interior?
Também eu sou apanhada de surpresa, por vezes. Também eu me espanto com estas afirmações equívocas, ou dúvidas descabidas.
Mas, que fazer? É assim mesmo que a escrita surge em mim - inesperada, imperativa, incompreensível quiçá...
Tanto tempo emudecida, vou deixar agora que se exprima. Não vou censurá-la, nem dizer-lhe: hoje, fala do assunto do dia, não me venhas com esses monólogos desvairados, que nem eu mesma entendo.
Não, hoje vou deixá-la expressar-se como melhor entender, e vou simplesmente anotar as suas ideias.

Ilona Bastos

segunda-feira, 16 de maio de 2011



PINTURAS FOTOGRÁFICAS

Estas pinturas fotográficas não me deixam. Obsessivamente me atraem com novos tons, novas texturas, novas formas.
Pela rua caminhando, cada folha descida de uma árvore, cada flor silvestre acenando da borda de um canteiro ou nascida nos interstícios  da muralha de pedra, me atraem. Sinto serem muito mais que a minúscula mancha esverdeada, que a acenante corola recortada. Diante da lente investigadora e provocatória da câmara, ganham dimensão monumental, complexidade fabulosa, detalhes extraordinários, textura belíssima, cor arrojada. Que mistérios, que tesouros descubro através desta visão inconveniente da câmara fotográfica!
No écran, as imagens deixam-me muitas vezes sem fôlego. Que beleza, que espantosa perfeição!
E sucedem-se estas pinturas fotográficas que me apaixonam.

Ilona Bastos