terça-feira, 20 de março de 2012


Chegada da Primavera

Assisto, inebriada, ao milagre da chegada da Primavera.
O céu é do mais profundo azul. O sol brilha acolhedoramente. A temperatura e a placidez, no jardim, são de uma afabilidade enternecedora. O barulho da água, a precipitar-se em luminosas cascatas, emociona-me.
Verdadeiramente, a Primavera chegou, e mesmo os ramos das árvores, até ontem despidos, se encheram subitamente de folhas verdes ou castanhas avermelhadas, consoante a sua natureza.
Os pombos, aos pares, namoram. Os pardais saltitam e voam alegremente.
Toda a fauna e flora exultam. E até em mim identifico aquele despertar surpreendente que me faz brilhar os olhos e preenche a alma de uma esperança tão verde, tão alegre, tão leve, tão azul como esta Primavera festiva que me visita.


Ilona Bastos

sábado, 17 de março de 2012



ESPERANÇA NA POESIA

O verso torneado renegava,
Que o sentia oco, sem sentido,
O afastava em gesto incontido,
Sabor a fel que ao gosto me amargava.

Uma ansiedade crua me agitava
Distante do langor da Poesia,
E se um soneto acaso me surgia,
Nem para vê-lo, lê-lo, eu parava.

Na vida só sentia sofrimento,
Dureza de uma dor que não tem fim.
Cansada do torpor que via em mim,
Orava por livrar-me do tormento.

Partira a luz que então me dera alento.
Sombria, mais não era, fenecera.
E a alegria, que eu bem conhecera,
Longe a perdia, colhida pelo vento!

Será que o sol da jovem Primavera
Me acorda para a vida novamente?
Que a cor, o odor me tomam de repente,
Desenham lá no céu nova quimera?

Sorri o meu olhar, só de esperança
Do reencontro meu com a Poesia.
Que possa eu sentir essa harmonia,
Agora traços vagos na lembrança.

Que venha. Eu a espero, enternecida.
Que entre. A desejo, veemente.
Que fique, e a minha alma alimente,
Desperte a felicidade adormecida!

Ilona Bastos

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012


Do Acordo Ortográfico e tudo o mais...


Quando os princípios basilares sobre os quais, desde a infância, se alicerçou tudo em nós – desde os actos mais básicos até aos mais elaborados raciocínios – , quando esses pilares são sucessivamente desgastados e destruídos, entramos numa tolerância indiferente, em que também os alicerces ainda não tocados perdem a sua firmeza e se tornam vacilantes, prestes a entrar em derrocada.
Vem-nos, então, a sensação de iminência do fim do mundo -  ou, pelo menos, do mundo tal como o conhecemos e reconhecemos.
Alargando o olhar e o pensamento, interrogo-me sobre se esta sensação não tem simplesmente que ver com a idade, com as sucessivas mudanças que nos são impostas, que vamos aceitando até que, em nós, algo diz: basta! Então, essa incapacidade de processar mais mudanças sem que a nossa base de sustentação (psicológica) seja abalada, leva-nos a imaginar que tudo rui à nossa volta, quando talvez não seja na verdade assim.
Penso nas pessoas idosas que conheci e que falavam desse mundo que em seu redor viam sucumbir. Jovem que era, apercebia-me de que a única coisa que ruía, na verdade, era a saúde e a vida de quem assim falava. Jovem, apreciava o que em meu redor nascia, crescia, frutificava, um novo mundo em agradável emergência.
Se assim for - se se tratar de uma sensação subjetiva, conversa de quem não tem mais capacidade para processar a novidade - duas vertentes se apresentam: a primeira, é a boa notícia de que, apesar das guerras, do terrorismo e dos cataclismos, o mundo continuará a existir, até que o Sol se extinga ou expluda e abocanhe a Terra; a segunda, é a má notícia de que estamos a envelhecer e a perder a capacidade de acompanhar o ritmo das mudanças.

Ilona Bastos

sábado, 18 de fevereiro de 2012


Anatole France

"24 de Dezembro de 1861.

 Tinha calçado as minhas pantufas e enfiado o robe-de-chambre. Limpei uma lágrima com que o vento agreste do cais me empanara a vista. Um lume claro ardia na chaminé do meu gabinete de trabalho. Cristais de gêlo, em forma de fôlhas de fêto, floriam nos vidros das janelas e escondiam-me o Sena, as pontes e o Louvre dos Valois.
"Aproximei do fogão o meu fauteuil e a minha mesa volante e tomei junto do lume o lugar que «Amílcar» se dignou deixar-me. «Amílcar», em frente do fogão, numa almofada de penas, deitara-se enrodilhado, de nariz entre as patas. Uma respiração igual lhe erguia o pêlo espêsso e ligeiro. Á minha chegada circulou docemente as pupilas de agate entre as pálpebras semi-cerradas que tornou a fechar quási de seguida, pensando: «Não é nada, é o meu amigo.»
"-- «Amílcar» -- disse-lhe eu estendendo as pernas --«Amílcar», príncipe sonolento da cidade dos livros, guarda-noturno ! Tu defendes contra os vis roëdores os manuscritose os impressos que o velho sábio adquire a preço de um módico pecúlio e de um zêlo infatigável. Nesta biblioteca silenciosa, que as tuas virtudes militares protegem, deixa-te dormir, «Amílcar», com a moleza de uma sultana ! Porque tu reúnes, na tua pessoa, ao aspecto formidável de um guerreiro tártaro a graça pesada de uma mulher do Oriente.  Dorme, heróico e voluptuoso «Amílcar», até à hora em que os ratos dansem ao luar, perante a Acta Sanctorum dos doutos Bolandistas.
"O comêço dêste discurso agradou a «Amílcar», que o acompanhou de um ruído de garganta semelhante ao de uma chocolateira a ferver. Mas, como eu elevasse a voz, «Amílcar» advertiu-me, abaixando as orelhas e enrugando a pele zebrada da fronte, de que era impróprio declamar assim. E pensava :
"-- Êste homem dos alfarrábios fala para nada dizer, enquanto que a nossa governanta nunca pronuncia senão palavras cheias de senso e interêsse, contendo quer o anúncio de uma refeição, quer a promessa de uma palmada. Sabe-se o que ela diz. Mas êste velho ajunta sons que nada significam.
"Assim pensava «Amílcar»."

Anatole France, O Crime de Silvestre Bonnard, tradução de Jaime Cortesão, Livraria Lello  Irmão Editores


 
 

domingo, 22 de janeiro de 2012

VIDA

Eterno é o amor que criou a vida
no seio do Universo infinito!

Contida num mínimo ponto primordial,
florida em explosão colossal,
na expansão perpétua se difunde
por milhões de galáxias,
inquieta se abriga neste berço,
turbilhão de nuvens etéreas e nuances,
vastidão de oceanos azuis, ondulantes,
que refrescam e da terra se apartam.

Na água, desenvolve a semente,
simples que é, complexa se torna,
em várias formas que às margens sobem
e evoluem, montes e vales cobrindo,
os céus decorando de asas belas,
no solo vicejando em paixão gloriosa,
se agigantando em dinossáurios
que o planeta dominam, fabulosos.

Depois, gelos brilhantes talham paisagens,
degelos velozes inundam o mundo,
humanas formas se erguem e vêem
no amor eterno a fonte da vida.

Cientes da centelha que em si carregam,
cruzam-se e em seu seio acolhem
o mínimo ponto primordial, a germinar,
desdobrando suas células, evoluindo,
até criar novo ser, novo universo,
estafeta essencial na caminhada infinda
da vida – suprema criação do amor eterno.

Ilona Bastos

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

terça-feira, 4 de outubro de 2011



Infinito Criador


É pela janela que se lança o meu olhar
e com ele a minha alma
neste sedento bater de asas
pelo azul do cais de partida
e de chegada.

Não busca mais a distância, o meu olhar
que não seja a do infinito
Criador, tão longe, tão perto
tão dentro de mim?


Ilona Bastos

sábado, 24 de setembro de 2011

Heinrich Harrer


"Estávamos a 15 de Janeiro de 1946 quando iniciámos a nossa última marcha. Vindos de Tolüng, chegámos ao extenso vale de Kyichu. Ao transpor uma curva vimos, brilhando à distância, os telhados dourados do Potala, a residência de Inverno do Dalai Lama e a mais famosa referência de Lassa. Este momento compensou-nos de tudo. Sentimos vontade de nos ajoelharmos como os peregrinos e tocar o chão com a testa. Desde que partíramos de Kyirong tínhamos percorrido mais de 1000 quilómetros com  a visão desta fabulosa cidade na mente. Tínhamos caminhado durante setenta dias e descansado apenas cinco. Isso representava uma média diária de quase quinze quilómetros. Quarenta e cinco dias da nossa jornada tinham sido passados a travessar o Changthang - dias de sofrimento e de incessante luta contra o frio, a fome e o perigo. Agora, enquanto admirávamos extasiados os pináculos dourados, tudo isso estava esquecido - mais dez quilómetros e teríamos alcançado o nosso objectivo."

Heinrich Harrer, Sete Anos no Tibete, Edições Asa, Fnac de bolso

sexta-feira, 23 de setembro de 2011