A Princesa da Babilónia, Voltaire, trad. José Carlos Marinho, Livros de bolso Europa-América
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Voltaire
«- Os homens - disse o anjo Girardo -, tudo julgam sem conhecimento. Tu eras de entre todos os homens aquele que mais merecia ser esclarecido.
«(...) - Os maus - respondeu Girardo - são sempre infelizes e servem para pôr à prova um pequeno número de justos espalhados pela terra; não há mal de que não nasça o bem.
«- Mas - disse Zadig -, se não houvesse o mal e apenas o bem?
«- Então - continuou Girardo -, esta terra seria outra terra; a cadeia dos acontecimentos constituiria outra ordem de sabedoria; e essa ordem, que seria perfeita, só pode realizar-se na eterna morada do Ser Supremo, de quem o mal não pode aproximar-se. Ele criou milhões de mundos, todos diferentes. Esta imensa variedade é um tributo do seu imenso poder. Não há duas folhas de árvore na terra, nem dois globos nos campos infinitos do céu, que sejam iguais; e tudo quanto vês no pequeno átomo em que nasceste tinha que estar no seu lugar e no seu tempo fixo, segundo as ordens imutáveis daquele que tudo encerra. Os homens pensam que este menino, que acaba de morrer, caiu à água por acaso, que foi por acaso que aquela casa ardeu; mas não há acaso: tudo é prova, castigo, recompensa, previdência. Lembras-te daquele pescador que se julgava o mais infeliz dos homens? Orasmade enviou-to para modificares o seu destino. Ó fraco mortal, deixa enfim de disputar contra aquilo que deve ser objecto de adoração.
«- Mas - disse Zadig...
«Enquanto ele dizia mas, o anjo voava já para a décima esfera. Zadig, de joelhos, adorou a Providência e submeteu-se.»
A Princesa da Babilónia, Voltaire, trad. José Carlos Marinho, Livros de bolso Europa-América
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sábado, 19 de maio de 2012
SINO SONANTE
( tão longe, tão perto)
( tão longe, tão perto)
Mais sentido faz do que tudo o resto
O soar tão próximo do sino distante
Em badalar sonante lá no campanário.
Condiz o seu som com o azul do céu
Tão longe, tão perto, tão perto, tão longe,
Com o cantar das aves tão atarefadas
A esvoaçar por entre as ramagens,
Com o soprar do vento tão alvoroçado
Fluindo ligeiro pelas verdes copas,
Com o dançar das águas tão agradecidas
Em ondas brilhantes que alegram o lago.
Tudo se conjuga na manhã de Maio
Tão longe, tão perto, tão perto, tão longe,
E de fora ficam: brigas, desencontros,
Ódio, desamor, guerras e paixões.
Nada mais existe pois foi apagado
Pelo som do sino, tão perto, tão longe,
Clamando: Eu existo sim, não sou ilusão.
Sou a realidade, o resto é ficção.
E volta a tocar, tão longe, tão perto...
O sino me chama, o sino reclama,
O sino tem alma, o sino me acalma.
Horizonte de som no fim da paisagem
O sino sonante é mais que miragem.
Ilona Bastos
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segunda-feira, 16 de abril de 2012
TEJO
Lindo, largo, ledo Tejo, pelo estuário avanças, magnífico! Não desces, lânguido e mortiço arroio que à foz se escoa vindo morrer... Impetuoso invades, com vigor e sal, em ondas que as margens tocam, vencedoras. De luz, golfinhos e aventuras brindas, profundo, áureo, valoroso, forte, Lisboa, nívea princesa, cidade amada. És guardião fiel de garças, andorinhas, alfaiates, cegonhas e suas crias. Das aves, carinhoso poiso e recanto amigo. Em planícies verdes, tal lençol macio, que suave desliza, refulgindo ao sol, terras alimentas -- fonte de riqueza. Mas é aqui que mais te sinto nosso, neste oceânico ondular azul, luzindo à claridade branca da manhã, Nesta incessante agitação que os cacilheiros cruzam, empenhados, corajosos lutadores contra a corrente, Neste marulhar audaz que nos inspira, nos nomes dos Combatentes recordados, no Mosteiro, no Bugio, em S. Lourenço,
Neste ritmado afagar das pedras lioz do Baluarte do Restelo celebrado e das finas areias de Belém, Neste cenário que se abre, majestoso, povoado de gaivotas a planar, em altos voos a bradar, nos céus, Saudando a nobre gente lusitana e seus feitos de ontem, de hoje e de amanhã, na descoberta dos novos mundos do Mundo!
Ilona Bastos
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sábado, 7 de abril de 2012
Elisabeth e Andreas Scholl · Stabat Mater ~ Pergolesi
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sábado, 24 de março de 2012
Thomas Mann
«Para também fazer jus às alegrias, é necessário dizer que eram inúmeras e, embora surgissem de motivos triviais, não eram, por isso, menos avassaladoras do que as dores. Qualquer momento do dia-a-dia do Berghof era bom para as produzir. Por exemplo: preparando-se para entrar na sala de jantar, Hans Castorp dá-se conta da presença do objecto dos seus sonhos atrás de si. O resultado, de uma total simplicidade, já se consegue prever, mas arrebata-lhe a alma até à comoção. Os olhos encontram-se, os seus e os verde-acinzentados, aqueles olhos de feitio e recorte ligeiramente asiáticos que o encantam até à medula. Ele fica fora de si mas, mesmo assim, consegue recuar uns passos para lhe dar passagem. Com um sorriso velado e um "merci" quase imperceptível, ela aceita esse gesto de pura gentileza e entra na sala, passando perto dele. E ali fica ele, envolto na fragrância da pessoa que acaba de roçar por si, louco de felicidade por tal encontro se ter dado e por uma palavra desprendida da sua boca, aquele "merci", ter sido dirigido única e directamente à sua pessoa. Segue-a, encaminha-se, hesitante, para a direita, para a sua mesa, e no momento em que se afunda na cadeira, constata que "Clawdia", no outro extremo da sala, sentado-se igualmente à mesa, volta o olhar na sua direcção -- como que pensando, ao que lhe parece, naquele encontro à entrada. Ó aventura inaudita! Ó sinos, repicai de júbilo, glória e ventura infinita!»
Thomas Mann, A Montanha Mágica, D. Quixote, tradução de Gilda Lopes Encarnação
sexta-feira, 23 de março de 2012
Disse:
«Sim, gostaria de ser encontrada, como uma concha finamente trabalhada, à beira-mar, com o brilho que a água lhe confere e o encanto próprio da areia onde se deita.
«Gostaria que sobre mim se debruçassem – olhos de criança, abertos, espantados –, e se dessem ao trabalho de me apanhar cuidadosamente, como quem pega numa pérola muito pequenina, frágil e valiosa, que se não pode perder.
«Gostaria que me guardassem com alegria e me mostrassem aos outros. “Vejam, vejam que conchinha linda eu encontrei!”.
«Mas o mundo real não existe para as conchinhas. Para elas, só funcionam esse espaço e esse tempo especiais, um mundo de fantasia, infantil, cuidadoso nos pormenores e na beleza do detalhe. Tanto que, trazidas para casa, as conchas perdem o brilho, tornam-se baças, mostram as suas imperfeições e acabam no cesto dos papéis ou no fundo de alguma gaveta, desprezadas. Em boa verdade, logo que afastadas da praia, a luz que irradiavam se desvanece.
«Portanto, mal faço em querer ser conchinha que alguém apanha, guarda e mostra com prazer.
«No mundo real, quem quer alguma coisa tem que fazer por atingi-la. E se quer deixar a beira-mar, mete pernas a caminho, até chegar ao seu destino. Uma vez aí, não pode hesitar – não basta ir e chegar, é necessário pular, acenar, expor-se aos holofotes, gritar. “Olhem para mim, aqui estou eu, aqui, aqui.”
«Portanto, se me quero conchinha da praia, banhada pelo mar, que me deixe ser.
«Mas se não quero, é tempo de me pôr a caminho.»
Ilona Bastos
Ilona Bastos
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quinta-feira, 22 de março de 2012
Uma questão de luz
Caminhando, ontem, pelas Avenidas Novas, ao entardecer, foi o meu olhar atraído por um edifício largo e antigo, em cuja fachada se estampava uma faixa dessa luz mágica com que o sol poente acaricia a Terra antes de se despedir para uma nova noite.
Encantado, deixou-se o meu olhar prender por essa luz, ao cimo, à esquerda, para depois descer sobre os braços escuros, sólidos, retorcidos, longos, dessas árvores elegantes, ágeis, plásticas, que se erguem, como esculturas, na placa central da avenida.
E então, numa rápida e rodopiante dança de asas e penas negras, num chilrear múltiplo, exuberante, duas aves se lançaram voando do ramo mais alto da árvore, em evidente namoro.
Quase perdi o fôlego, tal a beleza quase cinematográfica desta sequência inaudita: a luz mágica do sol poente estampada sobre a fachada antiga; o conjunto escultural das árvores, plenas das três dimensões, erguendo-se a meio do cenário; o visível rodopiar canoro de asas e penas negras por entre os ramos bem delineados, sob uma abóbada de verde!
Ilona Bastos
terça-feira, 20 de março de 2012
Chegada da Primavera
Assisto, inebriada, ao milagre da chegada da Primavera.
O céu é do mais profundo azul. O sol brilha acolhedoramente. A temperatura e a placidez, no jardim, são de uma afabilidade enternecedora. O barulho da água, a precipitar-se em luminosas cascatas, emociona-me.
Verdadeiramente, a Primavera chegou, e mesmo os ramos das árvores, até ontem despidos, se encheram subitamente de folhas verdes ou castanhas avermelhadas, consoante a sua natureza.
Os pombos, aos pares, namoram. Os pardais saltitam e voam alegremente.
Toda a fauna e flora exultam. E até em mim identifico aquele despertar surpreendente que me faz brilhar os olhos e preenche a alma de uma esperança tão verde, tão alegre, tão leve, tão azul como esta Primavera festiva que me visita.
Ilona Bastos
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sábado, 17 de março de 2012
ESPERANÇA NA POESIA
O verso torneado renegava,
Que o sentia oco, sem sentido,
O afastava em gesto incontido,
Sabor a fel que ao gosto me amargava.
Uma ansiedade crua me agitava
Distante do langor da Poesia,
E se um soneto acaso me surgia,
Nem para vê-lo, lê-lo, eu parava.
Na vida só sentia sofrimento,
Dureza de uma dor que não tem fim.
Cansada do torpor que via em mim,
Orava por livrar-me do tormento.
Partira a luz que então me dera alento.
Sombria, mais não era, fenecera.
E a alegria, que eu bem conhecera,
Longe a perdia, colhida pelo vento!
Será que o sol da jovem Primavera
Me acorda para a vida novamente?
Que a cor, o odor me tomam de repente,
Desenham lá no céu nova quimera?
Sorri o meu olhar, só de esperança
Do reencontro meu com a Poesia.
Que possa eu sentir essa harmonia,
Agora traços vagos na lembrança.
Que venha. Eu a espero, enternecida.
Que entre. A desejo, veemente.
Que fique, e a minha alma alimente,
Desperte a felicidade adormecida!
Que venha. Eu a espero, enternecida.
Que entre. A desejo, veemente.
Que fique, e a minha alma alimente,
Desperte a felicidade adormecida!
Ilona Bastos
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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Do Acordo Ortográfico e tudo o mais...
Quando os princípios basilares sobre os quais, desde a infância, se alicerçou tudo em nós – desde os actos mais básicos até aos mais elaborados raciocínios – , quando esses pilares são sucessivamente desgastados e destruídos, entramos numa tolerância indiferente, em que também os alicerces ainda não tocados perdem a sua firmeza e se tornam vacilantes, prestes a entrar em derrocada.
Vem-nos, então, a sensação de iminência do fim do mundo - ou, pelo menos, do mundo tal como o conhecemos e reconhecemos.
Alargando o olhar e o pensamento, interrogo-me sobre se esta sensação não tem simplesmente que ver com a idade, com as sucessivas mudanças que nos são impostas, que vamos aceitando até que, em nós, algo diz: basta! Então, essa incapacidade de processar mais mudanças sem que a nossa base de sustentação (psicológica) seja abalada, leva-nos a imaginar que tudo rui à nossa volta, quando talvez não seja na verdade assim.
Penso nas pessoas idosas que conheci e que falavam desse mundo que em seu redor viam sucumbir. Jovem que era, apercebia-me de que a única coisa que ruía, na verdade, era a saúde e a vida de quem assim falava. Jovem, apreciava o que em meu redor nascia, crescia, frutificava, um novo mundo em agradável emergência.
Se assim for - se se tratar de uma sensação subjetiva, conversa de quem não tem mais capacidade para processar a novidade - duas vertentes se apresentam: a primeira, é a boa notícia de que, apesar das guerras, do terrorismo e dos cataclismos, o mundo continuará a existir, até que o Sol se extinga ou expluda e abocanhe a Terra; a segunda, é a má notícia de que estamos a envelhecer e a perder a capacidade de acompanhar o ritmo das mudanças.
Ilona Bastos
Ilona Bastos
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sábado, 18 de fevereiro de 2012
Anatole France
"24 de Dezembro de 1861.
Tinha calçado as minhas pantufas e enfiado o robe-de-chambre. Limpei uma lágrima com que o vento agreste do cais me empanara a vista. Um lume claro ardia na chaminé do meu gabinete de trabalho. Cristais de gêlo, em forma de fôlhas de fêto, floriam nos vidros das janelas e escondiam-me o Sena, as pontes e o Louvre dos Valois.
"Aproximei do fogão o meu fauteuil e a minha mesa volante e tomei junto do lume o lugar que «Amílcar» se dignou deixar-me. «Amílcar», em frente do fogão, numa almofada de penas, deitara-se enrodilhado, de nariz entre as patas. Uma respiração igual lhe erguia o pêlo espêsso e ligeiro. Á minha chegada circulou docemente as pupilas de agate entre as pálpebras semi-cerradas que tornou a fechar quási de seguida, pensando: «Não é nada, é o meu amigo.»
"-- «Amílcar» -- disse-lhe eu estendendo as pernas --«Amílcar», príncipe sonolento da cidade dos livros, guarda-noturno ! Tu defendes contra os vis roëdores os manuscritose os impressos que o velho sábio adquire a preço de um módico pecúlio e de um zêlo infatigável. Nesta biblioteca silenciosa, que as tuas virtudes militares protegem, deixa-te dormir, «Amílcar», com a moleza de uma sultana ! Porque tu reúnes, na tua pessoa, ao aspecto formidável de um guerreiro tártaro a graça pesada de uma mulher do Oriente. Dorme, heróico e voluptuoso «Amílcar», até à hora em que os ratos dansem ao luar, perante a Acta Sanctorum dos doutos Bolandistas.
"O comêço dêste discurso agradou a «Amílcar», que o acompanhou de um ruído de garganta semelhante ao de uma chocolateira a ferver. Mas, como eu elevasse a voz, «Amílcar» advertiu-me, abaixando as orelhas e enrugando a pele zebrada da fronte, de que era impróprio declamar assim. E pensava :
"-- Êste homem dos alfarrábios fala para nada dizer, enquanto que a nossa governanta nunca pronuncia senão palavras cheias de senso e interêsse, contendo quer o anúncio de uma refeição, quer a promessa de uma palmada. Sabe-se o que ela diz. Mas êste velho ajunta sons que nada significam.
"Assim pensava «Amílcar»."
Anatole France, O Crime de Silvestre Bonnard, tradução de Jaime Cortesão, Livraria Lello Irmão Editores
domingo, 22 de janeiro de 2012
VIDA
Eterno é o amor que criou a vida
no seio do Universo infinito!
Contida num mínimo ponto primordial,
florida em explosão colossal,
na expansão perpétua se difunde
por milhões de galáxias,
inquieta se abriga neste berço,
turbilhão de nuvens etéreas e nuances,
vastidão de oceanos azuis, ondulantes,
que refrescam e da terra se apartam.
Na água, desenvolve a semente,
simples que é, complexa se torna,
em várias formas que às margens sobem
e evoluem, montes e vales cobrindo,
os céus decorando de asas belas,
no solo vicejando em paixão gloriosa,
se agigantando em dinossáurios
que o planeta dominam, fabulosos.
Depois, gelos brilhantes talham paisagens,
degelos velozes inundam o mundo,
humanas formas se erguem e vêem
no amor eterno a fonte da vida.
Cientes da centelha que em si carregam,
cruzam-se e em seu seio acolhem
o mínimo ponto primordial, a germinar,
desdobrando suas células, evoluindo,
até criar novo ser, novo universo,
estafeta essencial na caminhada infinda
da vida – suprema criação do amor eterno.
Eterno é o amor que criou a vida
no seio do Universo infinito!
Contida num mínimo ponto primordial,
florida em explosão colossal,
na expansão perpétua se difunde
por milhões de galáxias,
inquieta se abriga neste berço,
turbilhão de nuvens etéreas e nuances,
vastidão de oceanos azuis, ondulantes,
que refrescam e da terra se apartam.
Na água, desenvolve a semente,
simples que é, complexa se torna,
em várias formas que às margens sobem
e evoluem, montes e vales cobrindo,
os céus decorando de asas belas,
no solo vicejando em paixão gloriosa,
se agigantando em dinossáurios
que o planeta dominam, fabulosos.
Depois, gelos brilhantes talham paisagens,
degelos velozes inundam o mundo,
humanas formas se erguem e vêem
no amor eterno a fonte da vida.
Cientes da centelha que em si carregam,
cruzam-se e em seu seio acolhem
o mínimo ponto primordial, a germinar,
desdobrando suas células, evoluindo,
até criar novo ser, novo universo,
estafeta essencial na caminhada infinda
da vida – suprema criação do amor eterno.
Ilona Bastos
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