segunda-feira, 13 de agosto de 2012



A PRAIA


Voam pipa, disco,  bola,
Espuma branca, onda do mar.
Rente à areia macia,
Passa a gaivota, a planar.

Um papagaio descola,
Pula o menino, a brincar.
Ao vento, em doce carícia,
 Vela de barco a vogar.

Ilona Bastos

quarta-feira, 8 de agosto de 2012


Voltaire

«- Os homens - disse o anjo Girardo -, tudo julgam sem conhecimento. Tu eras de entre todos os homens aquele que mais merecia ser esclarecido.
«(...) - Os maus - respondeu Girardo - são sempre infelizes e servem para pôr à prova um pequeno número de justos espalhados pela terra; não há mal de que não nasça o bem.
«- Mas - disse Zadig -, se não houvesse o mal e apenas o bem?
«- Então - continuou Girardo -, esta terra seria outra terra; a cadeia dos acontecimentos constituiria outra ordem de sabedoria; e essa ordem, que seria perfeita, só pode realizar-se  na eterna morada do Ser Supremo, de quem o mal não pode aproximar-se. Ele criou milhões de mundos, todos diferentes. Esta imensa variedade é um tributo do seu imenso poder. Não há duas folhas de árvore na terra, nem dois globos nos campos infinitos do céu, que sejam iguais; e tudo quanto vês no pequeno átomo em que nasceste tinha que estar no seu lugar e no seu tempo fixo, segundo as ordens imutáveis daquele que tudo encerra. Os homens pensam que este menino, que acaba de morrer, caiu à água por acaso, que foi por acaso que aquela casa ardeu; mas não há acaso: tudo é prova, castigo, recompensa, previdência. Lembras-te daquele pescador que se julgava o mais infeliz dos homens? Orasmade enviou-to para modificares o seu destino. Ó fraco mortal, deixa enfim de disputar contra aquilo que deve ser objecto de adoração.
«- Mas - disse Zadig...
«Enquanto ele dizia mas, o anjo voava já para a décima esfera. Zadig, de joelhos, adorou a Providência e submeteu-se.»

A Princesa da Babilónia, Voltaire, trad. José Carlos Marinho, Livros de bolso Europa-América

sábado, 19 de maio de 2012



SINO SONANTE
( tão longe, tão perto)


Mais sentido faz do que tudo o resto
O soar tão próximo do sino distante
Em badalar sonante lá no campanário.

Condiz o seu som com o azul do céu
Tão longe, tão perto, tão perto, tão longe,
Com o cantar das aves tão atarefadas
A esvoaçar por entre as ramagens,
Com o soprar do vento tão alvoroçado
Fluindo ligeiro pelas verdes copas,
Com o dançar das águas tão agradecidas
Em ondas brilhantes que alegram o lago.

Tudo se conjuga na manhã de Maio
Tão longe, tão perto, tão perto, tão longe,
E de fora ficam: brigas, desencontros,
Ódio, desamor, guerras e paixões.
Nada mais existe pois foi apagado
Pelo som do sino, tão perto, tão longe,
Clamando: Eu existo sim, não sou ilusão.
Sou a realidade, o resto é ficção.

E volta a tocar, tão longe, tão perto...
O sino me chama, o sino reclama,
O sino tem alma, o sino me acalma.
Horizonte de som no fim da paisagem
O sino sonante é mais que miragem.

Ilona Bastos

segunda-feira, 16 de abril de 2012



 TEJO

Lindo, largo, ledo Tejo,
pelo estuário avanças, magnífico!

Não desces, lânguido e mortiço
arroio que à foz se escoa vindo morrer...

Impetuoso invades, com vigor e sal,
em ondas que as margens tocam, vencedoras.

De luz, golfinhos e aventuras brindas,
profundo, áureo, valoroso, forte,
Lisboa, nívea princesa, cidade amada.
  
És guardião fiel de garças, andorinhas,
alfaiates, cegonhas e suas crias.
Das aves, carinhoso poiso e recanto amigo.

Em planícies verdes, tal lençol macio,
que suave desliza, refulgindo ao sol,
terras alimentas -- fonte de riqueza.

Mas é aqui que mais te sinto nosso,
neste oceânico ondular azul,
luzindo à claridade branca da manhã,

Nesta incessante agitação 
que os cacilheiros cruzam, empenhados,
corajosos lutadores contra a corrente,

Neste marulhar audaz que nos inspira, 
nos nomes dos Combatentes recordados,
no Mosteiro, no Bugio, em S. Lourenço,
Neste ritmado afagar das pedras lioz
do Baluarte do Restelo celebrado
e das finas areias de Belém,

Neste cenário que se abre, majestoso,
povoado de gaivotas a planar,
em altos voos a bradar, nos céus,

Saudando a nobre gente lusitana
e seus feitos de ontem, de hoje e de amanhã, 
na descoberta dos novos mundos do Mundo!

Ilona Bastos

sábado, 7 de abril de 2012

sábado, 24 de março de 2012

  
Thomas Mann

«Para também fazer jus às alegrias, é necessário dizer que eram inúmeras e, embora surgissem de motivos triviais, não eram, por isso, menos avassaladoras do que as dores. Qualquer momento do dia-a-dia do Berghof era bom para as produzir. Por exemplo: preparando-se para entrar na sala de jantar, Hans Castorp dá-se conta da presença do objecto dos seus sonhos atrás de si. O resultado, de uma total simplicidade, já se consegue prever, mas arrebata-lhe a alma até à comoção. Os olhos encontram-se, os seus e os verde-acinzentados, aqueles olhos de feitio e recorte ligeiramente asiáticos que o encantam até à medula. Ele fica fora de si mas, mesmo assim, consegue recuar uns passos para lhe dar passagem. Com um sorriso velado e um "merci"  quase imperceptível, ela aceita esse gesto de pura gentileza e entra na sala, passando perto dele. E ali fica ele,  envolto na fragrância da pessoa que acaba de roçar por si,  louco de felicidade por tal encontro se ter dado e por uma palavra desprendida da sua boca, aquele "merci",  ter sido dirigido única e directamente à sua pessoa. Segue-a, encaminha-se, hesitante, para a direita, para a sua mesa, e no momento em que se afunda na cadeira, constata que "Clawdia", no outro extremo da sala, sentado-se igualmente à mesa, volta o olhar na sua direcção -- como que pensando, ao que lhe parece, naquele encontro à entrada. Ó aventura inaudita! Ó sinos, repicai de júbilo, glória e ventura infinita!»

Thomas Mann, A Montanha Mágica, D. Quixote, tradução de  Gilda Lopes Encarnação


sexta-feira, 23 de março de 2012

Conchas e Mundos

Disse:
«Sim, gostaria de ser encontrada, como uma concha finamente trabalhada, à beira-mar, com o brilho que a água lhe confere e o encanto próprio da areia onde se deita.
«Gostaria que sobre mim se debruçassem – olhos de criança, abertos, espantados –, e se dessem ao trabalho de me apanhar cuidadosamente, como quem pega numa pérola muito pequenina, frágil e valiosa, que se não pode perder.
«Gostaria que me guardassem com alegria e me mostrassem aos outros. “Vejam, vejam que conchinha linda eu encontrei!”.
«Mas o mundo real não existe para as conchinhas. Para elas, só funcionam esse espaço e esse tempo especiais, um mundo de fantasia, infantil, cuidadoso nos pormenores e na beleza do detalhe. Tanto que, trazidas para casa, as conchas perdem o brilho, tornam-se baças, mostram as suas imperfeições e acabam no cesto dos papéis ou no fundo de alguma gaveta, desprezadas. Em boa verdade, logo que afastadas da praia, a luz que irradiavam se desvanece.
«Portanto, mal faço em querer ser conchinha que alguém apanha, guarda e mostra com prazer.
«No mundo real, quem quer alguma coisa tem que fazer por atingi-la. E se quer deixar a beira-mar, mete pernas a caminho, até chegar ao seu destino. Uma vez aí, não pode hesitar – não basta ir e chegar, é necessário pular, acenar, expor-se aos holofotes, gritar. “Olhem para mim, aqui estou eu, aqui, aqui.”
«Portanto, se me quero conchinha da praia, banhada pelo mar, que me deixe ser.
«Mas se não quero, é tempo de me pôr a caminho.»

Ilona Bastos

quinta-feira, 22 de março de 2012


Uma questão de  luz

Caminhando, ontem, pelas Avenidas Novas, ao entardecer, foi o meu olhar atraído por um edifício largo e antigo, em cuja fachada se estampava uma faixa dessa luz mágica com que o sol poente acaricia a Terra antes de se despedir para uma nova noite.
Encantado, deixou-se o meu olhar prender por essa luz, ao cimo, à esquerda, para depois descer sobre os braços escuros, sólidos, retorcidos, longos, dessas árvores elegantes, ágeis, plásticas,  que se erguem, como esculturas, na placa central da avenida.
E então, numa rápida e rodopiante dança de asas e penas negras, num chilrear múltiplo, exuberante, duas aves se lançaram voando do  ramo mais alto da árvore, em evidente namoro.
Quase perdi o fôlego, tal a beleza quase cinematográfica desta sequência inaudita: a luz mágica do sol poente estampada sobre a fachada antiga; o conjunto escultural das árvores, plenas das três dimensões, erguendo-se a meio do cenário; o visível rodopiar canoro de asas e penas negras por entre os ramos bem delineados, sob uma abóbada de verde!

Ilona Bastos

terça-feira, 20 de março de 2012


Chegada da Primavera

Assisto, inebriada, ao milagre da chegada da Primavera.
O céu é do mais profundo azul. O sol brilha acolhedoramente. A temperatura e a placidez, no jardim, são de uma afabilidade enternecedora. O barulho da água, a precipitar-se em luminosas cascatas, emociona-me.
Verdadeiramente, a Primavera chegou, e mesmo os ramos das árvores, até ontem despidos, se encheram subitamente de folhas verdes ou castanhas avermelhadas, consoante a sua natureza.
Os pombos, aos pares, namoram. Os pardais saltitam e voam alegremente.
Toda a fauna e flora exultam. E até em mim identifico aquele despertar surpreendente que me faz brilhar os olhos e preenche a alma de uma esperança tão verde, tão alegre, tão leve, tão azul como esta Primavera festiva que me visita.


Ilona Bastos

sábado, 17 de março de 2012



ESPERANÇA NA POESIA

O verso torneado renegava,
Que o sentia oco, sem sentido,
O afastava em gesto incontido,
Sabor a fel que ao gosto me amargava.

Uma ansiedade crua me agitava
Distante do langor da Poesia,
E se um soneto acaso me surgia,
Nem para vê-lo, lê-lo, eu parava.

Na vida só sentia sofrimento,
Dureza de uma dor que não tem fim.
Cansada do torpor que via em mim,
Orava por livrar-me do tormento.

Partira a luz que então me dera alento.
Sombria, mais não era, fenecera.
E a alegria, que eu bem conhecera,
Longe a perdia, colhida pelo vento!

Será que o sol da jovem Primavera
Me acorda para a vida novamente?
Que a cor, o odor me tomam de repente,
Desenham lá no céu nova quimera?

Sorri o meu olhar, só de esperança
Do reencontro meu com a Poesia.
Que possa eu sentir essa harmonia,
Agora traços vagos na lembrança.

Que venha. Eu a espero, enternecida.
Que entre. A desejo, veemente.
Que fique, e a minha alma alimente,
Desperte a felicidade adormecida!

Ilona Bastos

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012


Do Acordo Ortográfico e tudo o mais...


Quando os princípios basilares sobre os quais, desde a infância, se alicerçou tudo em nós – desde os actos mais básicos até aos mais elaborados raciocínios – , quando esses pilares são sucessivamente desgastados e destruídos, entramos numa tolerância indiferente, em que também os alicerces ainda não tocados perdem a sua firmeza e se tornam vacilantes, prestes a entrar em derrocada.
Vem-nos, então, a sensação de iminência do fim do mundo -  ou, pelo menos, do mundo tal como o conhecemos e reconhecemos.
Alargando o olhar e o pensamento, interrogo-me sobre se esta sensação não tem simplesmente que ver com a idade, com as sucessivas mudanças que nos são impostas, que vamos aceitando até que, em nós, algo diz: basta! Então, essa incapacidade de processar mais mudanças sem que a nossa base de sustentação (psicológica) seja abalada, leva-nos a imaginar que tudo rui à nossa volta, quando talvez não seja na verdade assim.
Penso nas pessoas idosas que conheci e que falavam desse mundo que em seu redor viam sucumbir. Jovem que era, apercebia-me de que a única coisa que ruía, na verdade, era a saúde e a vida de quem assim falava. Jovem, apreciava o que em meu redor nascia, crescia, frutificava, um novo mundo em agradável emergência.
Se assim for - se se tratar de uma sensação subjetiva, conversa de quem não tem mais capacidade para processar a novidade - duas vertentes se apresentam: a primeira, é a boa notícia de que, apesar das guerras, do terrorismo e dos cataclismos, o mundo continuará a existir, até que o Sol se extinga ou expluda e abocanhe a Terra; a segunda, é a má notícia de que estamos a envelhecer e a perder a capacidade de acompanhar o ritmo das mudanças.

Ilona Bastos

sábado, 18 de fevereiro de 2012


Anatole France

"24 de Dezembro de 1861.

 Tinha calçado as minhas pantufas e enfiado o robe-de-chambre. Limpei uma lágrima com que o vento agreste do cais me empanara a vista. Um lume claro ardia na chaminé do meu gabinete de trabalho. Cristais de gêlo, em forma de fôlhas de fêto, floriam nos vidros das janelas e escondiam-me o Sena, as pontes e o Louvre dos Valois.
"Aproximei do fogão o meu fauteuil e a minha mesa volante e tomei junto do lume o lugar que «Amílcar» se dignou deixar-me. «Amílcar», em frente do fogão, numa almofada de penas, deitara-se enrodilhado, de nariz entre as patas. Uma respiração igual lhe erguia o pêlo espêsso e ligeiro. Á minha chegada circulou docemente as pupilas de agate entre as pálpebras semi-cerradas que tornou a fechar quási de seguida, pensando: «Não é nada, é o meu amigo.»
"-- «Amílcar» -- disse-lhe eu estendendo as pernas --«Amílcar», príncipe sonolento da cidade dos livros, guarda-noturno ! Tu defendes contra os vis roëdores os manuscritose os impressos que o velho sábio adquire a preço de um módico pecúlio e de um zêlo infatigável. Nesta biblioteca silenciosa, que as tuas virtudes militares protegem, deixa-te dormir, «Amílcar», com a moleza de uma sultana ! Porque tu reúnes, na tua pessoa, ao aspecto formidável de um guerreiro tártaro a graça pesada de uma mulher do Oriente.  Dorme, heróico e voluptuoso «Amílcar», até à hora em que os ratos dansem ao luar, perante a Acta Sanctorum dos doutos Bolandistas.
"O comêço dêste discurso agradou a «Amílcar», que o acompanhou de um ruído de garganta semelhante ao de uma chocolateira a ferver. Mas, como eu elevasse a voz, «Amílcar» advertiu-me, abaixando as orelhas e enrugando a pele zebrada da fronte, de que era impróprio declamar assim. E pensava :
"-- Êste homem dos alfarrábios fala para nada dizer, enquanto que a nossa governanta nunca pronuncia senão palavras cheias de senso e interêsse, contendo quer o anúncio de uma refeição, quer a promessa de uma palmada. Sabe-se o que ela diz. Mas êste velho ajunta sons que nada significam.
"Assim pensava «Amílcar»."

Anatole France, O Crime de Silvestre Bonnard, tradução de Jaime Cortesão, Livraria Lello  Irmão Editores