sexta-feira, 14 de setembro de 2012

foto Ilona Bastos


LISBOA EM AGUARELA


Passeio-me pela cidade em aguarela.
Tão leves, as copas, de finas ramagens
E as manchas ténues das nuvens brancas
Em aguado desvanecer do céu azul claro.

E o verde, onde está, em doces pigmentos,
Delicados, suspensos na transparência do ar.

E as ruas orladas de belos desenhos,
Minuciosas calçadas, floridos canteiros,
De mansos contornos ao sol da manhã.

Candeeiros altos, esguios, alinhados,
Alcandorados balcões e ferros forjados,
O traço elegante dos vultos passantes,
E o sorriso encarnado das sardinheiras,
A espreitar das soleiras, varandas e vasos.  

Passeio-me por Lisboa em aguarela.
Sou imagem efémera, sem cor nem idade,
Pincelada ligeira, um esboço na tela,
Transparência fugaz perpassando a cidade.

Ilona Bastos

domingo, 9 de setembro de 2012


UM SONHO 

Um comboio
Que se afasta,
Outro que chega,
E se aproxima.
Olhos, sonhos,
Sonhos, gente,
Gente nova,
Atrevida,
Gente velha,
Divertida,
Colorida,
Colorida,
Colorida...

Há conversas
E apitos,
E fumaça pelo ar,
Um caminhar,
Um soluçar,
Ritmado,
Fomentado,
Aliviado,
Em redor,
De um comboio
Que se afasta,
Doutro que chega,
E se aproxima.
Olhos, sonhos,
Sonhos, gente,
Colorida,
Colorida,
Colorida...

Ilona Bastos


quinta-feira, 16 de agosto de 2012



Formas leves, amarelas, delicadas


O Outono anuncia-se já, nas folhas esvoaçantes lançadas das árvores. Daqui, donde me sento, que os ramos não avisto, só o espargir das folhas, a avivar a paisagem, me surpreende, ou antes, acalma, na reconfortante constatação de que o tempo passa, as estações se sucedem, nada pára, e também eu seguirei o meu caminho.
Que bizarria, que paradoxo! Como pode tranquilizar-me a ideia de que rapidamente avanço para o inexorável fim?
Talvez que o não sinta desse modo – antes como a visão do rio, cujas águas fluem, velozes, espumosas, para a foz. E quanto mais depressa correm, maior a sensação de vida – na verdade, a dimensão de vida. Águas paradas lembram a morte – ainda que a vida pulule no charco, não é a vida sã do peixe que nada e salta, e chegado ao mar percorre oceanos; não é a vida das árvores que da margem se debruçam, viçosas, e na água se nutrem, deslumbrantes…
Na mudança constante, no movimento, reside a vida. E é ela que me surge, subitamente, nestas formas leves, amarelas, delicadas, que o vento lança sobre a paisagem.

Ilona Bastos

segunda-feira, 13 de agosto de 2012



A PRAIA


Voam pipa, disco,  bola,
Espuma branca, onda do mar.
Rente à areia macia,
Passa a gaivota, a planar.

Um papagaio descola,
Pula o menino, a brincar.
Ao vento, em doce carícia,
 Vela de barco a vogar.

Ilona Bastos

quarta-feira, 8 de agosto de 2012


Voltaire

«- Os homens - disse o anjo Girardo -, tudo julgam sem conhecimento. Tu eras de entre todos os homens aquele que mais merecia ser esclarecido.
«(...) - Os maus - respondeu Girardo - são sempre infelizes e servem para pôr à prova um pequeno número de justos espalhados pela terra; não há mal de que não nasça o bem.
«- Mas - disse Zadig -, se não houvesse o mal e apenas o bem?
«- Então - continuou Girardo -, esta terra seria outra terra; a cadeia dos acontecimentos constituiria outra ordem de sabedoria; e essa ordem, que seria perfeita, só pode realizar-se  na eterna morada do Ser Supremo, de quem o mal não pode aproximar-se. Ele criou milhões de mundos, todos diferentes. Esta imensa variedade é um tributo do seu imenso poder. Não há duas folhas de árvore na terra, nem dois globos nos campos infinitos do céu, que sejam iguais; e tudo quanto vês no pequeno átomo em que nasceste tinha que estar no seu lugar e no seu tempo fixo, segundo as ordens imutáveis daquele que tudo encerra. Os homens pensam que este menino, que acaba de morrer, caiu à água por acaso, que foi por acaso que aquela casa ardeu; mas não há acaso: tudo é prova, castigo, recompensa, previdência. Lembras-te daquele pescador que se julgava o mais infeliz dos homens? Orasmade enviou-to para modificares o seu destino. Ó fraco mortal, deixa enfim de disputar contra aquilo que deve ser objecto de adoração.
«- Mas - disse Zadig...
«Enquanto ele dizia mas, o anjo voava já para a décima esfera. Zadig, de joelhos, adorou a Providência e submeteu-se.»

A Princesa da Babilónia, Voltaire, trad. José Carlos Marinho, Livros de bolso Europa-América

sábado, 19 de maio de 2012



SINO SONANTE
( tão longe, tão perto)


Mais sentido faz do que tudo o resto
O soar tão próximo do sino distante
Em badalar sonante lá no campanário.

Condiz o seu som com o azul do céu
Tão longe, tão perto, tão perto, tão longe,
Com o cantar das aves tão atarefadas
A esvoaçar por entre as ramagens,
Com o soprar do vento tão alvoroçado
Fluindo ligeiro pelas verdes copas,
Com o dançar das águas tão agradecidas
Em ondas brilhantes que alegram o lago.

Tudo se conjuga na manhã de Maio
Tão longe, tão perto, tão perto, tão longe,
E de fora ficam: brigas, desencontros,
Ódio, desamor, guerras e paixões.
Nada mais existe pois foi apagado
Pelo som do sino, tão perto, tão longe,
Clamando: Eu existo sim, não sou ilusão.
Sou a realidade, o resto é ficção.

E volta a tocar, tão longe, tão perto...
O sino me chama, o sino reclama,
O sino tem alma, o sino me acalma.
Horizonte de som no fim da paisagem
O sino sonante é mais que miragem.

Ilona Bastos

segunda-feira, 16 de abril de 2012



 TEJO

Lindo, largo, ledo Tejo,
pelo estuário avanças, magnífico!

Não desces, lânguido e mortiço
arroio que à foz se escoa vindo morrer...

Impetuoso invades, com vigor e sal,
em ondas que as margens tocam, vencedoras.

De luz, golfinhos e aventuras brindas,
profundo, áureo, valoroso, forte,
Lisboa, nívea princesa, cidade amada.
  
És guardião fiel de garças, andorinhas,
alfaiates, cegonhas e suas crias.
Das aves, carinhoso poiso e recanto amigo.

Em planícies verdes, tal lençol macio,
que suave desliza, refulgindo ao sol,
terras alimentas -- fonte de riqueza.

Mas é aqui que mais te sinto nosso,
neste oceânico ondular azul,
luzindo à claridade branca da manhã,

Nesta incessante agitação 
que os cacilheiros cruzam, empenhados,
corajosos lutadores contra a corrente,

Neste marulhar audaz que nos inspira, 
nos nomes dos Combatentes recordados,
no Mosteiro, no Bugio, em S. Lourenço,
Neste ritmado afagar das pedras lioz
do Baluarte do Restelo celebrado
e das finas areias de Belém,

Neste cenário que se abre, majestoso,
povoado de gaivotas a planar,
em altos voos a bradar, nos céus,

Saudando a nobre gente lusitana
e seus feitos de ontem, de hoje e de amanhã, 
na descoberta dos novos mundos do Mundo!

Ilona Bastos

sábado, 7 de abril de 2012

sábado, 24 de março de 2012

  
Thomas Mann

«Para também fazer jus às alegrias, é necessário dizer que eram inúmeras e, embora surgissem de motivos triviais, não eram, por isso, menos avassaladoras do que as dores. Qualquer momento do dia-a-dia do Berghof era bom para as produzir. Por exemplo: preparando-se para entrar na sala de jantar, Hans Castorp dá-se conta da presença do objecto dos seus sonhos atrás de si. O resultado, de uma total simplicidade, já se consegue prever, mas arrebata-lhe a alma até à comoção. Os olhos encontram-se, os seus e os verde-acinzentados, aqueles olhos de feitio e recorte ligeiramente asiáticos que o encantam até à medula. Ele fica fora de si mas, mesmo assim, consegue recuar uns passos para lhe dar passagem. Com um sorriso velado e um "merci"  quase imperceptível, ela aceita esse gesto de pura gentileza e entra na sala, passando perto dele. E ali fica ele,  envolto na fragrância da pessoa que acaba de roçar por si,  louco de felicidade por tal encontro se ter dado e por uma palavra desprendida da sua boca, aquele "merci",  ter sido dirigido única e directamente à sua pessoa. Segue-a, encaminha-se, hesitante, para a direita, para a sua mesa, e no momento em que se afunda na cadeira, constata que "Clawdia", no outro extremo da sala, sentado-se igualmente à mesa, volta o olhar na sua direcção -- como que pensando, ao que lhe parece, naquele encontro à entrada. Ó aventura inaudita! Ó sinos, repicai de júbilo, glória e ventura infinita!»

Thomas Mann, A Montanha Mágica, D. Quixote, tradução de  Gilda Lopes Encarnação


sexta-feira, 23 de março de 2012

Conchas e Mundos

Disse:
«Sim, gostaria de ser encontrada, como uma concha finamente trabalhada, à beira-mar, com o brilho que a água lhe confere e o encanto próprio da areia onde se deita.
«Gostaria que sobre mim se debruçassem – olhos de criança, abertos, espantados –, e se dessem ao trabalho de me apanhar cuidadosamente, como quem pega numa pérola muito pequenina, frágil e valiosa, que se não pode perder.
«Gostaria que me guardassem com alegria e me mostrassem aos outros. “Vejam, vejam que conchinha linda eu encontrei!”.
«Mas o mundo real não existe para as conchinhas. Para elas, só funcionam esse espaço e esse tempo especiais, um mundo de fantasia, infantil, cuidadoso nos pormenores e na beleza do detalhe. Tanto que, trazidas para casa, as conchas perdem o brilho, tornam-se baças, mostram as suas imperfeições e acabam no cesto dos papéis ou no fundo de alguma gaveta, desprezadas. Em boa verdade, logo que afastadas da praia, a luz que irradiavam se desvanece.
«Portanto, mal faço em querer ser conchinha que alguém apanha, guarda e mostra com prazer.
«No mundo real, quem quer alguma coisa tem que fazer por atingi-la. E se quer deixar a beira-mar, mete pernas a caminho, até chegar ao seu destino. Uma vez aí, não pode hesitar – não basta ir e chegar, é necessário pular, acenar, expor-se aos holofotes, gritar. “Olhem para mim, aqui estou eu, aqui, aqui.”
«Portanto, se me quero conchinha da praia, banhada pelo mar, que me deixe ser.
«Mas se não quero, é tempo de me pôr a caminho.»

Ilona Bastos

quinta-feira, 22 de março de 2012


Uma questão de  luz

Caminhando, ontem, pelas Avenidas Novas, ao entardecer, foi o meu olhar atraído por um edifício largo e antigo, em cuja fachada se estampava uma faixa dessa luz mágica com que o sol poente acaricia a Terra antes de se despedir para uma nova noite.
Encantado, deixou-se o meu olhar prender por essa luz, ao cimo, à esquerda, para depois descer sobre os braços escuros, sólidos, retorcidos, longos, dessas árvores elegantes, ágeis, plásticas,  que se erguem, como esculturas, na placa central da avenida.
E então, numa rápida e rodopiante dança de asas e penas negras, num chilrear múltiplo, exuberante, duas aves se lançaram voando do  ramo mais alto da árvore, em evidente namoro.
Quase perdi o fôlego, tal a beleza quase cinematográfica desta sequência inaudita: a luz mágica do sol poente estampada sobre a fachada antiga; o conjunto escultural das árvores, plenas das três dimensões, erguendo-se a meio do cenário; o visível rodopiar canoro de asas e penas negras por entre os ramos bem delineados, sob uma abóbada de verde!

Ilona Bastos

terça-feira, 20 de março de 2012


Chegada da Primavera

Assisto, inebriada, ao milagre da chegada da Primavera.
O céu é do mais profundo azul. O sol brilha acolhedoramente. A temperatura e a placidez, no jardim, são de uma afabilidade enternecedora. O barulho da água, a precipitar-se em luminosas cascatas, emociona-me.
Verdadeiramente, a Primavera chegou, e mesmo os ramos das árvores, até ontem despidos, se encheram subitamente de folhas verdes ou castanhas avermelhadas, consoante a sua natureza.
Os pombos, aos pares, namoram. Os pardais saltitam e voam alegremente.
Toda a fauna e flora exultam. E até em mim identifico aquele despertar surpreendente que me faz brilhar os olhos e preenche a alma de uma esperança tão verde, tão alegre, tão leve, tão azul como esta Primavera festiva que me visita.


Ilona Bastos