domingo, 19 de maio de 2013
Amigo
Tens de conhecer o meu amigo.
O seu sorriso é como um raio de sol da manhã
que me aquece o coração e ilumina o espírito.
Diz olá com os olhos a brilhar, quando me vê.
E pergunta: Então como estás, meu amigo?
Se estou alegre, ri-se e o mundo à nossa volta torna-se azul.
Sinto-me pássaro, voando em bando, planando livre
pela praia e sobre o mar.
Se estou triste, fala com carinho.
O seu olhar inteligente afasta as nuvens negras.
Os problemas e a dor tornam-se vagos e distantes.
E damos connosco a caminhar sem medo
por uma planície verde e tranquila.
O meu amigo irradia luz e bondade
e o som das suas palavras enche-me de alegria.
Queria tanto ser, também, um amigo assim!
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Madre Tereza
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Primavera em mim
O tempo aqueceu, finalmente.
A chuva visita-nos de vez em quando. Agora mesmo está a pingar, quase invisivelmente, gota a gota, a regar as plantas com doçura.
As aves chilreiam pelas ruas. São andorinhas, pardais, melros. Há também patos a grasnar, e uns periquitos-de-colar, encantadoramente verdes, a esvoaçar repetidamente junto à minha janela.
Hoje acordei para as flores amarelas, silvestres, que em grandes tufos ladeiam o caminho de ferro, mesmo diante da nossa casa.
Ao passear o cão, dei-me conta das espigas, etéreas e translúcidas. Espantei-me. Aparentemente sem razão, já que hoje é o dia delas, das espigas.
O céu coberto de nuvens não ilude a presença da Primavera.
Ei-la, que se faz presente, finalmente, em mim!
Ilona Bastos
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Foto e texto de Ilona Bastos,
Primavera
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
O caminho
A
caminho deste meu canto, a folha que não boiava nem se estampava,
antes pairava no finíssimo lençol de água que a chuva depositara
na laje do pavimento – claramente verde e recortada, singela e jovem.
Ainda, o indivíduo de blusão e cachecol na cabeça branca, que
furtivamente se voltava e olhava, talvez para ver se o seguia, que
passos eram aqueles a ecoar pelo jardim fora, chapéu de chuva
aberto, botas chapinhando na água, olhos
observando os patos a bebericar das poças, a abanar as penas, a
soltar os seus quásqs enfáticos, sobre o lago onde as gotas de um
aguaceiro forte desenhavam círculos, e o sol, subitamente raiando,
pintava manchas de luz. E eu, a pensar no vulto diante de mim, a
ponderar que podia ser um poeta ou um assassino, ou simplesmente um
homem, como todos os outros, a seguir a sua vida...
Antes,
fora a senhora de cabelo castanho curto, a contar como lhe fora
diagnosticado o cancro no pâncreas - por acaso, em exames de rotina,
pois que nenhuns sintomas tivera. E, ainda antes, a idosa de óculos,
que dos meus lábios bebia as palavras, com o seu olhar míope e
sedento, e as repetia num eco inverosímil. E a outra ainda, que se
debatia e lançava num discurso ardente, forçando-me a
interrompê-la, com ar sério e porventura abrupto. E agora o que
caminha, olhando em frente, falando sempre, em tom baixo e pausado,
num dialogo consigo mesmo.
E
o que me escreve uma mensagem e conclui com o desejo de “dia fliz”.
E
o que me beija nos lábios e combina o almoço, e me vai aconchegar
os lençóis, dizer “Boa Noite!”, embalar-me nos sonhos de um
sono profundo que a noite acolhe!
Ilona Bastos
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Esplêndida desarrumação
Que esplêndida, a desarrumação deste jardim, em que os caminhos e a terra ensopada se cobrem de uma caótica ornamentação de folhas secas e frescas, de vários tamanhos, formatos e cores – castanhas, douradas, amarelas, encarnadas e verdes –, de flores de romã e eucalipto, e de pequenos chapéus cheirosos, esbranquiçados como se a neve ou o açúcar em pó sobre eles, e apenas eles, tivessem poisado. Numa errância elegante, os patos procuram alimento nas poças, deslizam no lago, ou sacodem as asas, erguendo o peito e esticando o pescoço num equilíbrio majestoso.
Ilona Bastos
Ilona Bastos
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
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| foto Ilona Bastos |
LISBOA EM AGUARELA
Passeio-me pela cidade em aguarela.
Tão leves, as copas, de finas ramagens
E as manchas ténues das nuvens brancas
Em aguado desvanecer do céu azul claro.
E o verde, onde está, em doces pigmentos,
Delicados, suspensos na transparência do ar.
E as ruas orladas de belos desenhos,
Minuciosas calçadas, floridos canteiros,
De mansos contornos ao sol da manhã.
Candeeiros altos, esguios, alinhados,
Alcandorados balcões e ferros forjados,
O traço elegante dos vultos passantes,
E o sorriso encarnado das sardinheiras,
A espreitar das soleiras, varandas e vasos.
Passeio-me por Lisboa em aguarela.
Sou imagem efémera, sem cor nem idade,
Pincelada ligeira, um esboço na tela,
Transparência fugaz perpassando a cidade.
Ilona Bastos
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Lisboa
domingo, 9 de setembro de 2012
UM
SONHO
Um
comboio
Que
se afasta,
Outro
que chega,
E
se aproxima.
Olhos,
sonhos,
Sonhos,
gente,
Gente
nova,
Atrevida,
Gente
velha,
Divertida,
Colorida,
Colorida,
Colorida...
Há
conversas
E
apitos,
E
fumaça pelo ar,
Um
caminhar,
Um
soluçar,
Ritmado,
Fomentado,
Aliviado,
Em
redor,
De
um comboio
Que
se afasta,
Doutro
que chega,
E
se aproxima.
Olhos,
sonhos,
Sonhos,
gente,
Colorida,
Colorida,
Colorida...
Ilona
Bastos
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foto e poema de Ilona Bastos
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Formas leves, amarelas, delicadas
O Outono anuncia-se já, nas folhas esvoaçantes lançadas das árvores.
Daqui, donde me sento, que os ramos não avisto, só o espargir das folhas, a avivar
a paisagem, me surpreende, ou antes, acalma, na reconfortante constatação de
que o tempo passa, as estações se sucedem, nada pára, e também eu seguirei o meu
caminho.
Que bizarria, que paradoxo! Como pode tranquilizar-me a
ideia de que rapidamente avanço para o inexorável fim?
Talvez que o não sinta desse modo – antes como a visão do
rio, cujas águas fluem, velozes, espumosas, para a foz. E quanto mais depressa
correm, maior a sensação de vida – na verdade, a dimensão de vida. Águas
paradas lembram a morte – ainda que a vida pulule no charco, não é a vida sã do
peixe que nada e salta, e chegado ao mar percorre oceanos; não é a vida das árvores
que da margem se debruçam, viçosas, e na água se nutrem, deslumbrantes…
Na mudança constante, no movimento, reside a vida. E é ela
que me surge, subitamente, nestas formas leves, amarelas, delicadas, que o
vento lança sobre a paisagem.
Ilona Bastos
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segunda-feira, 13 de agosto de 2012
A PRAIA
Voam pipa, disco, bola,
Espuma branca, onda do mar.
Rente à areia macia,
Passa a gaivota, a planar.
Um papagaio descola,
Pula o menino, a brincar.
Ao vento, em doce carícia,
Vela de barco a vogar.
Ilona Bastos
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Praia
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Voltaire
«- Os homens - disse o anjo Girardo -, tudo julgam sem conhecimento. Tu eras de entre todos os homens aquele que mais merecia ser esclarecido.
«(...) - Os maus - respondeu Girardo - são sempre infelizes e servem para pôr à prova um pequeno número de justos espalhados pela terra; não há mal de que não nasça o bem.
«- Mas - disse Zadig -, se não houvesse o mal e apenas o bem?
«- Então - continuou Girardo -, esta terra seria outra terra; a cadeia dos acontecimentos constituiria outra ordem de sabedoria; e essa ordem, que seria perfeita, só pode realizar-se na eterna morada do Ser Supremo, de quem o mal não pode aproximar-se. Ele criou milhões de mundos, todos diferentes. Esta imensa variedade é um tributo do seu imenso poder. Não há duas folhas de árvore na terra, nem dois globos nos campos infinitos do céu, que sejam iguais; e tudo quanto vês no pequeno átomo em que nasceste tinha que estar no seu lugar e no seu tempo fixo, segundo as ordens imutáveis daquele que tudo encerra. Os homens pensam que este menino, que acaba de morrer, caiu à água por acaso, que foi por acaso que aquela casa ardeu; mas não há acaso: tudo é prova, castigo, recompensa, previdência. Lembras-te daquele pescador que se julgava o mais infeliz dos homens? Orasmade enviou-to para modificares o seu destino. Ó fraco mortal, deixa enfim de disputar contra aquilo que deve ser objecto de adoração.
«- Mas - disse Zadig...
«Enquanto ele dizia mas, o anjo voava já para a décima esfera. Zadig, de joelhos, adorou a Providência e submeteu-se.»
A Princesa da Babilónia, Voltaire, trad. José Carlos Marinho, Livros de bolso Europa-América
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sábado, 19 de maio de 2012
SINO SONANTE
( tão longe, tão perto)
( tão longe, tão perto)
Mais sentido faz do que tudo o resto
O soar tão próximo do sino distante
Em badalar sonante lá no campanário.
Condiz o seu som com o azul do céu
Tão longe, tão perto, tão perto, tão longe,
Com o cantar das aves tão atarefadas
A esvoaçar por entre as ramagens,
Com o soprar do vento tão alvoroçado
Fluindo ligeiro pelas verdes copas,
Com o dançar das águas tão agradecidas
Em ondas brilhantes que alegram o lago.
Tudo se conjuga na manhã de Maio
Tão longe, tão perto, tão perto, tão longe,
E de fora ficam: brigas, desencontros,
Ódio, desamor, guerras e paixões.
Nada mais existe pois foi apagado
Pelo som do sino, tão perto, tão longe,
Clamando: Eu existo sim, não sou ilusão.
Sou a realidade, o resto é ficção.
E volta a tocar, tão longe, tão perto...
O sino me chama, o sino reclama,
O sino tem alma, o sino me acalma.
Horizonte de som no fim da paisagem
O sino sonante é mais que miragem.
Ilona Bastos
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segunda-feira, 16 de abril de 2012
TEJO
Lindo, largo, ledo Tejo, pelo estuário avanças, magnífico! Não desces, lânguido e mortiço arroio que à foz se escoa vindo morrer... Impetuoso invades, com vigor e sal, em ondas que as margens tocam, vencedoras. De luz, golfinhos e aventuras brindas, profundo, áureo, valoroso, forte, Lisboa, nívea princesa, cidade amada. És guardião fiel de garças, andorinhas, alfaiates, cegonhas e suas crias. Das aves, carinhoso poiso e recanto amigo. Em planícies verdes, tal lençol macio, que suave desliza, refulgindo ao sol, terras alimentas -- fonte de riqueza. Mas é aqui que mais te sinto nosso, neste oceânico ondular azul, luzindo à claridade branca da manhã, Nesta incessante agitação que os cacilheiros cruzam, empenhados, corajosos lutadores contra a corrente, Neste marulhar audaz que nos inspira, nos nomes dos Combatentes recordados, no Mosteiro, no Bugio, em S. Lourenço,
Neste ritmado afagar das pedras lioz do Baluarte do Restelo celebrado e das finas areias de Belém, Neste cenário que se abre, majestoso, povoado de gaivotas a planar, em altos voos a bradar, nos céus, Saudando a nobre gente lusitana e seus feitos de ontem, de hoje e de amanhã, na descoberta dos novos mundos do Mundo!
Ilona Bastos
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Tejo
sábado, 7 de abril de 2012
Elisabeth e Andreas Scholl · Stabat Mater ~ Pergolesi
Vídeo by LA SULTANICA
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