quinta-feira, 26 de setembro de 2013

domingo, 19 de maio de 2013


Amigo


Tens de conhecer o meu amigo.
 O seu sorriso é como um raio de sol da manhã
que me aquece o coração e ilumina o espírito.

Diz  olá com os olhos a brilhar, quando me vê. 
E pergunta: Então como estás, meu amigo?

Se estou alegre, ri-se e o mundo à nossa volta torna-se azul.
Sinto-me pássaro, voando em bando, planando livre
pela praia e sobre o mar.

Se estou triste,  fala com carinho.
O seu olhar inteligente afasta as nuvens negras.
Os problemas e a dor tornam-se vagos e distantes.
E damos connosco a caminhar sem medo 
por uma planície verde e tranquila.

O meu amigo irradia luz e bondade 
e o som das suas palavras enche-me de alegria.

Queria tanto ser, também, um amigo assim!


 Ilona Bastos





"Não devemos permitir que alguém saia da nossa presença, sem se sentir melhor e mais feliz."

Madre Teresa de Calcutá

quinta-feira, 9 de maio de 2013


Primavera em mim

O tempo aqueceu, finalmente.
A chuva visita-nos de vez em quando. Agora mesmo está a pingar, quase invisivelmente, gota a gota, a regar as plantas com doçura.
As aves chilreiam pelas ruas. São andorinhas, pardais, melros. Há também patos a grasnar, e uns periquitos-de-colar, encantadoramente verdes, a esvoaçar repetidamente junto à minha janela.
Hoje acordei para as flores amarelas, silvestres, que em grandes tufos ladeiam o caminho de ferro, mesmo diante da nossa casa.
Ao passear o cão, dei-me conta das espigas, etéreas e translúcidas. Espantei-me. Aparentemente sem razão, já que hoje é o dia delas, das espigas.
O céu coberto de nuvens não ilude a presença da Primavera.
Ei-la, que se faz presente, finalmente, em mim!


Ilona Bastos

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013



O caminho


A caminho deste meu canto, a folha que não boiava nem se estampava, antes pairava no finíssimo lençol de água que a chuva depositara na laje do pavimento – claramente verde e recortada, singela e jovem. Ainda, o indivíduo de blusão e cachecol na cabeça branca, que furtivamente se voltava e olhava, talvez para ver se o seguia, que passos eram aqueles a ecoar pelo jardim fora, chapéu de chuva aberto, botas chapinhando na água, olhos observando os patos a bebericar das poças, a abanar as penas, a soltar os seus quásqs enfáticos, sobre o lago onde as gotas de um aguaceiro forte desenhavam círculos, e o sol, subitamente raiando, pintava manchas de luz. E eu, a pensar no vulto diante de mim, a ponderar que podia ser um poeta ou um assassino, ou simplesmente um homem, como todos os outros, a seguir a sua vida...
Antes, fora a senhora de cabelo castanho curto, a contar como lhe fora diagnosticado o cancro no pâncreas - por acaso, em exames de rotina, pois que nenhuns sintomas tivera. E, ainda antes, a idosa de óculos, que dos meus lábios bebia as palavras, com o seu olhar míope e sedento, e as repetia num eco inverosímil. E a outra ainda, que se debatia e lançava num discurso ardente, forçando-me a interrompê-la, com ar sério e porventura abrupto. E agora o que caminha, olhando em frente, falando sempre, em tom baixo e pausado, num dialogo consigo mesmo.
E o que me escreve uma mensagem e conclui com o desejo de “dia fliz”.
E o que me beija nos lábios e combina o almoço, e me vai aconchegar os lençóis, dizer “Boa Noite!”, embalar-me nos sonhos de um sono profundo que a noite acolhe!


Ilona Bastos 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013




Esplêndida desarrumação

Que esplêndida, a desarrumação deste jardim, em que os caminhos e a terra ensopada se cobrem de uma caótica ornamentação de folhas secas e frescas, de vários tamanhos,  formatos e cores – castanhas, douradas, amarelas, encarnadas e verdes –, de flores de romã e eucalipto, e de pequenos chapéus cheirosos, esbranquiçados como se a neve ou o açúcar em pó sobre eles, e apenas eles, tivessem poisado. Numa errância elegante, os patos procuram alimento nas poças, deslizam no lago, ou sacodem as asas, erguendo o peito e esticando o pescoço num equilíbrio majestoso.

Ilona Bastos

 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

foto Ilona Bastos


LISBOA EM AGUARELA


Passeio-me pela cidade em aguarela.
Tão leves, as copas, de finas ramagens
E as manchas ténues das nuvens brancas
Em aguado desvanecer do céu azul claro.

E o verde, onde está, em doces pigmentos,
Delicados, suspensos na transparência do ar.

E as ruas orladas de belos desenhos,
Minuciosas calçadas, floridos canteiros,
De mansos contornos ao sol da manhã.

Candeeiros altos, esguios, alinhados,
Alcandorados balcões e ferros forjados,
O traço elegante dos vultos passantes,
E o sorriso encarnado das sardinheiras,
A espreitar das soleiras, varandas e vasos.  

Passeio-me por Lisboa em aguarela.
Sou imagem efémera, sem cor nem idade,
Pincelada ligeira, um esboço na tela,
Transparência fugaz perpassando a cidade.

Ilona Bastos

domingo, 9 de setembro de 2012


UM SONHO 

Um comboio
Que se afasta,
Outro que chega,
E se aproxima.
Olhos, sonhos,
Sonhos, gente,
Gente nova,
Atrevida,
Gente velha,
Divertida,
Colorida,
Colorida,
Colorida...

Há conversas
E apitos,
E fumaça pelo ar,
Um caminhar,
Um soluçar,
Ritmado,
Fomentado,
Aliviado,
Em redor,
De um comboio
Que se afasta,
Doutro que chega,
E se aproxima.
Olhos, sonhos,
Sonhos, gente,
Colorida,
Colorida,
Colorida...

Ilona Bastos


quinta-feira, 16 de agosto de 2012



Formas leves, amarelas, delicadas


O Outono anuncia-se já, nas folhas esvoaçantes lançadas das árvores. Daqui, donde me sento, que os ramos não avisto, só o espargir das folhas, a avivar a paisagem, me surpreende, ou antes, acalma, na reconfortante constatação de que o tempo passa, as estações se sucedem, nada pára, e também eu seguirei o meu caminho.
Que bizarria, que paradoxo! Como pode tranquilizar-me a ideia de que rapidamente avanço para o inexorável fim?
Talvez que o não sinta desse modo – antes como a visão do rio, cujas águas fluem, velozes, espumosas, para a foz. E quanto mais depressa correm, maior a sensação de vida – na verdade, a dimensão de vida. Águas paradas lembram a morte – ainda que a vida pulule no charco, não é a vida sã do peixe que nada e salta, e chegado ao mar percorre oceanos; não é a vida das árvores que da margem se debruçam, viçosas, e na água se nutrem, deslumbrantes…
Na mudança constante, no movimento, reside a vida. E é ela que me surge, subitamente, nestas formas leves, amarelas, delicadas, que o vento lança sobre a paisagem.

Ilona Bastos

segunda-feira, 13 de agosto de 2012



A PRAIA


Voam pipa, disco,  bola,
Espuma branca, onda do mar.
Rente à areia macia,
Passa a gaivota, a planar.

Um papagaio descola,
Pula o menino, a brincar.
Ao vento, em doce carícia,
 Vela de barco a vogar.

Ilona Bastos

quarta-feira, 8 de agosto de 2012


Voltaire

«- Os homens - disse o anjo Girardo -, tudo julgam sem conhecimento. Tu eras de entre todos os homens aquele que mais merecia ser esclarecido.
«(...) - Os maus - respondeu Girardo - são sempre infelizes e servem para pôr à prova um pequeno número de justos espalhados pela terra; não há mal de que não nasça o bem.
«- Mas - disse Zadig -, se não houvesse o mal e apenas o bem?
«- Então - continuou Girardo -, esta terra seria outra terra; a cadeia dos acontecimentos constituiria outra ordem de sabedoria; e essa ordem, que seria perfeita, só pode realizar-se  na eterna morada do Ser Supremo, de quem o mal não pode aproximar-se. Ele criou milhões de mundos, todos diferentes. Esta imensa variedade é um tributo do seu imenso poder. Não há duas folhas de árvore na terra, nem dois globos nos campos infinitos do céu, que sejam iguais; e tudo quanto vês no pequeno átomo em que nasceste tinha que estar no seu lugar e no seu tempo fixo, segundo as ordens imutáveis daquele que tudo encerra. Os homens pensam que este menino, que acaba de morrer, caiu à água por acaso, que foi por acaso que aquela casa ardeu; mas não há acaso: tudo é prova, castigo, recompensa, previdência. Lembras-te daquele pescador que se julgava o mais infeliz dos homens? Orasmade enviou-to para modificares o seu destino. Ó fraco mortal, deixa enfim de disputar contra aquilo que deve ser objecto de adoração.
«- Mas - disse Zadig...
«Enquanto ele dizia mas, o anjo voava já para a décima esfera. Zadig, de joelhos, adorou a Providência e submeteu-se.»

A Princesa da Babilónia, Voltaire, trad. José Carlos Marinho, Livros de bolso Europa-América