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quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Formas leves, amarelas, delicadas
O Outono anuncia-se já, nas folhas esvoaçantes lançadas das árvores.
Daqui, donde me sento, que os ramos não avisto, só o espargir das folhas, a avivar
a paisagem, me surpreende, ou antes, acalma, na reconfortante constatação de
que o tempo passa, as estações se sucedem, nada pára, e também eu seguirei o meu
caminho.
Que bizarria, que paradoxo! Como pode tranquilizar-me a
ideia de que rapidamente avanço para o inexorável fim?
Talvez que o não sinta desse modo – antes como a visão do
rio, cujas águas fluem, velozes, espumosas, para a foz. E quanto mais depressa
correm, maior a sensação de vida – na verdade, a dimensão de vida. Águas
paradas lembram a morte – ainda que a vida pulule no charco, não é a vida sã do
peixe que nada e salta, e chegado ao mar percorre oceanos; não é a vida das árvores
que da margem se debruçam, viçosas, e na água se nutrem, deslumbrantes…
Na mudança constante, no movimento, reside a vida. E é ela
que me surge, subitamente, nestas formas leves, amarelas, delicadas, que o
vento lança sobre a paisagem.
Ilona Bastos
domingo, 2 de outubro de 2011
quinta-feira, 9 de outubro de 2008

É o clamor difuso das folhas das árvores
É a verdura que emoldura as pedras da calçada
É o voar dos toldos brancos na tenda do jardim
É o céu em tons de cinzento que súbito chora
É o aroma silvestre da terra e da relva molhada
É o vento que empurra gabardinas e guarda-chuvas
É o assobio que entra pelas frinchas das janelas
É a corrida das gotas de água no pára-brisas
É o aguaceiro que pára, espantado, e sorri
É o reflexo agitado dos ramos nas poças de chuva
É o fumo das castanhas assadas à saída do cinema
É a nuvem dourada das folhas varridas e amontoadas
É o florir inocente das violetas no vaso da minha sala.
..
Ilona Bastos
Lisboa, 20 de Outubro de 2004
É a verdura que emoldura as pedras da calçada
É o voar dos toldos brancos na tenda do jardim
É o céu em tons de cinzento que súbito chora
É o aroma silvestre da terra e da relva molhada
É o vento que empurra gabardinas e guarda-chuvas
É o assobio que entra pelas frinchas das janelas
É a corrida das gotas de água no pára-brisas
É o aguaceiro que pára, espantado, e sorri
É o reflexo agitado dos ramos nas poças de chuva
É o fumo das castanhas assadas à saída do cinema
É a nuvem dourada das folhas varridas e amontoadas
É o florir inocente das violetas no vaso da minha sala.
..
Ilona Bastos
Lisboa, 20 de Outubro de 2004
terça-feira, 7 de outubro de 2008

Primeira Chuva de Outono
.
.
.
. Na rua em granito, as pedras brilhantes
e as folhas, em suaves descidas
das árvores molhadas,
amarelas, castanhas, douradas…
Nos veios de terra já surgem, pujantes
tão tenras, as plantas agora nascidas
são verdes, bordadas,
vidas renovadas.
Mas como?
Se ontem mesmo as não vi!
. Na rua em granito, as pedras brilhantes
e as folhas, em suaves descidas
das árvores molhadas,
amarelas, castanhas, douradas…
Nos veios de terra já surgem, pujantes
tão tenras, as plantas agora nascidas
são verdes, bordadas,
vidas renovadas.
Mas como?
Se ontem mesmo as não vi!
Foi a chuva que as trouxe, de presente, para ti.
Ilona Bastos
Lisboa, 7 de Outubro de 2008
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
.
Tratei das floreiras do meu jardim.
Recolhi as flores murchas,
espalhei adubo orgânico, feito de folhas,
varri e limpei.
Mas não arranquei os trevos,
que nascem em tufos por todo o lado.
Se destruir os trevos, como posso encontrar
o trevo de quatro folhas que me trará a Sorte?
.
*
PART 2 - AUTUMN - HERFST
Second part of the beautiful video by Esceha57
É no silêncio que germinam os mais belos sons.
Ilona Bastos
.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008

OUTUBRO
Súbita, inesperadamente,
Passo a linha de fronteira
E penetro em Outubro,
O mês sagrado.
.
Ouso sorrir, agora,
Porque chegou Outubro.
Posso largar a bagagem
E acomodar-me bem,
Porque voltei a casa.
As ruas com seus adereços
De prédios antigos,
Sinais luminosos
E árvores douradas,
Tornam-se ternas e familiares,
Porque estamos em Outubro.
.
O cair da noite refresca-nos
E convida ao repouso,
Porque estamos em Outubro.
As letras, nos livros, os traços,
No imaculado branco dos cadernos,
Ganham novo brilho,
Porque estamos em Outubro.
Os nossos pensamentos são leves
E a melancolia carinhosa,
Porque estamos em Outubro.
.
A televisão mostra programas
De uma inteligência envolvente,
Porque estamos em Outubro.
As montras das lojas, na cidade,
Com a sua colecção de roupa quente,
Atraem-me com sonhos e acenos,
Porque estamos em Outubro.
A música soa viva, harmoniosa,
Porque estamos em Outubro,
E o vento sopra confidências.
.
Porque estamos em Outubro,
O castanho e o verde da Natureza
Acariciam-nos o olhar.
Porque estamos em Outubro,
A chuva, quando vier, se vier,
Será festiva e doce.
Porque estamos em Outubro,
A calçada estenderá, diante de mim,
Um espantoso tapete de folhas
Em todos os tons de amarelo,
De vermelho, de dourado,
E convidar-me-á a sair,
A avançar, a criar, a viver…
.
Só porque estamos em Outubro!
..
Passo a linha de fronteira
E penetro em Outubro,
O mês sagrado.
.
Ouso sorrir, agora,
Porque chegou Outubro.
Posso largar a bagagem
E acomodar-me bem,
Porque voltei a casa.
As ruas com seus adereços
De prédios antigos,
Sinais luminosos
E árvores douradas,
Tornam-se ternas e familiares,
Porque estamos em Outubro.
.
O cair da noite refresca-nos
E convida ao repouso,
Porque estamos em Outubro.
As letras, nos livros, os traços,
No imaculado branco dos cadernos,
Ganham novo brilho,
Porque estamos em Outubro.
Os nossos pensamentos são leves
E a melancolia carinhosa,
Porque estamos em Outubro.
.
A televisão mostra programas
De uma inteligência envolvente,
Porque estamos em Outubro.
As montras das lojas, na cidade,
Com a sua colecção de roupa quente,
Atraem-me com sonhos e acenos,
Porque estamos em Outubro.
A música soa viva, harmoniosa,
Porque estamos em Outubro,
E o vento sopra confidências.
.
Porque estamos em Outubro,
O castanho e o verde da Natureza
Acariciam-nos o olhar.
Porque estamos em Outubro,
A chuva, quando vier, se vier,
Será festiva e doce.
Porque estamos em Outubro,
A calçada estenderá, diante de mim,
Um espantoso tapete de folhas
Em todos os tons de amarelo,
De vermelho, de dourado,
E convidar-me-á a sair,
A avançar, a criar, a viver…
.
Só porque estamos em Outubro!
..
.
Ilona Bastos
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Lisboa, 1 de Outubro de 2005
Lisboa, 1 de Outubro de 2005
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Martha Argerich plays Chopin's Nocturne in D-flat major, Op. 27 No. 2Live - April 13, 1972
Beautiful video by kimolerik
terça-feira, 30 de setembro de 2008
O RISO
Semblante sério,
Cabelo grisalho,
Barba branca,
Olhar educado,
Óculos de intelectual,
Idade madura.
Debruçado sobre o livro
As palavras pronuncia
Em tom recatado e poético .
E, quando menos se espera,
Arqueiam-se os lábios em sorriso,
Os sons desdobram-se em riso,
Abrem as asas e voam.
Escancara-se a boca, feliz,
Solta-se a gargalhada,
Uma, duas, três vezes,
Pela sala correndo veloz,
Quase risada feroz,
Em celebração da vida.
..Ilona Bastos
Lisboa, 20 de Setembro de 2004
Beautiful video by Esceha57

Ideia de Vida
Em redor, um silêncio manchado,
pincelado aqui e ali
de portas que se abrem
e são bruscamente arremessadas,
de passos, de falas, de automóveis
que rodam e guincham lá fora...
Através dos vidros,
subtil, quase incolor,
quase transparente,
o balancear das folhas
que as árvores agitam
suavemente...
Mas aqui, nesta sala,
mal soam ruídos ou gestos,
senão o meu roçar do lápis
sobre o papel...
O espaço preenche as quatro paredes
praticamente intacto
de sons e movimentos.
Imóveis, as mesas e cadeiras recortam-se
lineares, elegantes e plenas
das três dimensões.
A porta entreaberta,
a janela, as persianas,
na parede um telefone que não toca,
acentuam esta ideia de espaço,de existência, de vida!
Em redor, um silêncio manchado,
pincelado aqui e ali
de portas que se abrem
e são bruscamente arremessadas,
de passos, de falas, de automóveis
que rodam e guincham lá fora...
Através dos vidros,
subtil, quase incolor,
quase transparente,
o balancear das folhas
que as árvores agitam
suavemente...
Mas aqui, nesta sala,
mal soam ruídos ou gestos,
senão o meu roçar do lápis
sobre o papel...
O espaço preenche as quatro paredes
praticamente intacto
de sons e movimentos.
Imóveis, as mesas e cadeiras recortam-se
lineares, elegantes e plenas
das três dimensões.
A porta entreaberta,
a janela, as persianas,
na parede um telefone que não toca,
acentuam esta ideia de espaço,de existência, de vida!
.
.
Ilona Bastos
sábado, 27 de setembro de 2008
Que me perdoem, mas as palavras que agora saboreio não são minhas, são de outros: de Heinrich Boll, nos seus contos irónicos; de Marco Pólo, na narrativa das suas aventurosas viagens. Nestes textos – e noutros, tantos, que por meus olhos pairam, sedutores – encontro consolo para os pensamentos melancólicos que me povoam.
Não terá já o Outono o mesmo encanto de outrora – quando candidamente confessava “Escuta-me! Só sou, verdadeiramente, no Outono. Só sou, verdadeiramente, quando as folhas iniciam o processo de amarelecimento nas árvores”?
Seja como for, são as imagens, o que neste momento me atrai. É a câmara que me compensa. É o jogo da luz, das cores e das formas, que me prende.
.
Ilona Bastos
.

.
No Outono
.
Escuta-me! Só sou, verdadeiramente, no Outono.
Só sou, verdadeiramente, quando as folhas
iniciam o processo de amarelecimento nas árvores.
.
Começo a ser com as primeiras nuances
a desprenderem-se, brandamente, dos ramos,
a balançarem, quase imperceptivelmente, no ar,
a pousarem, tímidas, a um canto da calçada.
.
Cresço no acumular de ousadias douradas pelo passeio.
.
Sou nas primeiras manhãs de céu encoberto,
as árvores despojando-se de véus esvoaçantes na aragem...
.
Esquece o Verão insensato em que não fui.
Procura-me no Outono.
Só sou, verdadeiramente, quando as folhas
iniciam o processo de amarelecimento nas árvores.
.
Começo a ser com as primeiras nuances
a desprenderem-se, brandamente, dos ramos,
a balançarem, quase imperceptivelmente, no ar,
a pousarem, tímidas, a um canto da calçada.
.
Cresço no acumular de ousadias douradas pelo passeio.
.
Sou nas primeiras manhãs de céu encoberto,
as árvores despojando-se de véus esvoaçantes na aragem...
.
Esquece o Verão insensato em que não fui.
Procura-me no Outono.
.
Ilona Bastos
.

.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Reincido...
Folhas!
Verdes, brancas, matizadas,
Amarelas, encarnadas,
Longas, finas, lanceoladas,
Folhas e mais folhas
Em douradas revoadas!
Verdes, brancas, matizadas,
Amarelas, encarnadas,
Longas, finas, lanceoladas,
Folhas e mais folhas
Em douradas revoadas!
.
Ilona Bastos
Maravilhoso Vídeo de wintermood
*
Ilona Bastos
domingo, 21 de setembro de 2008

Prometera a mim própria não postar aqui poemas antigos. Não resisti, porém, ao anúncio de Outono!
Anúncio de Outono
.
Não me engana este vento,
Que não é brisa de Verão.
.
É o Outono anunciado,
Em sopro, pelos canaviais.
.
Sabem-no os pombos, que voam
Em revoadas festivas.
.
Sentem-no as folhas esguias,
Que balançam, de prazer.
.
E comprazo-me eu também,
Expectante do tempo que vem.
.
Ilona Bastos
Lisboa, 1 de Setembro de 2004
Que não é brisa de Verão.
.
É o Outono anunciado,
Em sopro, pelos canaviais.
.
Sabem-no os pombos, que voam
Em revoadas festivas.
.
Sentem-no as folhas esguias,
Que balançam, de prazer.
.
E comprazo-me eu também,
Expectante do tempo que vem.
.
Ilona Bastos
Lisboa, 1 de Setembro de 2004
sábado, 20 de setembro de 2008
Seria talvez curioso indagar o motivo por que a minha atenção se detém, agora, nas coisas minúsculas. Por exemplo, porque se foca o meu olhar, deleitado, na sombra da árvore que no alcatrão se estampa e ali dança ao vento - recortadas as elipses dos ramos e das folhas, sobre as quais planam e vão poisar, amachucadas, levemente amareladas, as folhas, elas próprias, num estalido seco e arrastado…
Ainda o Outono não chegou, e já as folhas se espalham pela rua, voejantes.
Hoje debrucei-me, escolhi, apanhei uma série de folhas de diferentes formas e cores, e trouxe-as para fotografar.
Depositei-as em cima da secretária e deixei-as, para ir tratar do almoço.
Quando regressei, um cheiro a clorofila espraiava-se agradavelmente por todo o escritório.
E, a partir daí, foi o prazer de me dedicar às folhas, observá-las cuidadosamente, espiá-las, inquiri-las, surpreendê-las com a lente curiosa da máquina fotográfica.
Hoje debrucei-me, escolhi, apanhei uma série de folhas de diferentes formas e cores, e trouxe-as para fotografar.
Depositei-as em cima da secretária e deixei-as, para ir tratar do almoço.
Quando regressei, um cheiro a clorofila espraiava-se agradavelmente por todo o escritório.
E, a partir daí, foi o prazer de me dedicar às folhas, observá-las cuidadosamente, espiá-las, inquiri-las, surpreendê-las com a lente curiosa da máquina fotográfica.

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Ilona Bastos
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