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terça-feira, 22 de janeiro de 2013




Esplêndida desarrumação

Que esplêndida, a desarrumação deste jardim, em que os caminhos e a terra ensopada se cobrem de uma caótica ornamentação de folhas secas e frescas, de vários tamanhos,  formatos e cores – castanhas, douradas, amarelas, encarnadas e verdes –, de flores de romã e eucalipto, e de pequenos chapéus cheirosos, esbranquiçados como se a neve ou o açúcar em pó sobre eles, e apenas eles, tivessem poisado. Numa errância elegante, os patos procuram alimento nas poças, deslizam no lago, ou sacodem as asas, erguendo o peito e esticando o pescoço num equilíbrio majestoso.

Ilona Bastos

 

quarta-feira, 8 de outubro de 2008


Fauna & Flora: As Flores, as Folhas e o Vento
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As flores são lindas!
Reguei-as há pouco e balançam na aragem.
Não as plantei, nem sei como se chamam, embora lhes reconheça os traços, o tom róseo das pétalas, o amarelo dos estames.
Não são bastardas nem párias. São flores de jardim, ou pelo menos de vasos bem guardados e cuidados.
Aqui, à varanda, não sei como chegaram. Mas nesta floreira já nada estranho. Dela surgiram e cresceram as mais belas e variadas plantas, cuja origem desconheço.
Antes assim!
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Na marquise, surpreendentemente, voltam a nascer as orquídeas – já a haste se eleva com naturalidade para a luz da manhã! E neste súbito assomo de vida (desistira já de ver brotar orquídeas destes bolbos discretos…) leio o sinal do renascimento, e fico feliz!
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Na rua, é o vento…
Brando, fresco vento, que leve levanta o meu cabelo e voa.
Vai o pensamento na suave carícia deste vento verde que as árvores agita…
Vento brando, fresco, que é brisa de Outono.
Ali se distrai, nas folhas em dança pela calçada.
Vento que é dourado, vento que é castanho, vento que não estranho, pois meu coração habita.

Ilona Bastos
Lisboa, 18 de Outubro de 2007
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Rimsky-Korsakov - Scheherazade (4/5)

Moscow Symphony - Arthur Arnold, conductor - Live from The Hague

domingo, 28 de setembro de 2008

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Pela música viajo no tempo e no espaço.
No dedilhar desta guitarra transporto-me para a Andaluzia,
refresco-me à sombra de verdes ramos,
ao som cristalino de uma fonte,
num encantador pátio sevilhano.
No repenicar saltitante desta flauta visito os bailes
da Idade Média, da antiga Europa.
Neste coro sublime percorro os claustros de um mosteiro,
atenta ao esvoaçar ligeiro das borboletas brancas
sobre os canteiros, no jardim.
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Ilona Bastos
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Bach - Brandenburg Concertos No.3 - i: Allegro Moderato

Bwv1048, Freiburg Baroque Orchestra - Video by Bacholoji

sábado, 27 de setembro de 2008

Que me perdoem, mas as palavras que agora saboreio não são minhas, são de outros: de Heinrich Boll, nos seus contos irónicos; de Marco Pólo, na narrativa das suas aventurosas viagens. Nestes textos – e noutros, tantos, que por meus olhos pairam, sedutores – encontro consolo para os pensamentos melancólicos que me povoam.


Seja como for, são as imagens, o que neste momento me atrai. É a câmara que me compensa. É o jogo da luz, das cores e das formas, que me prende.
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Ilona Bastos
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No Outono
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Escuta-me! Só sou, verdadeiramente, no Outono.
Só sou, verdadeiramente, quando as folhas
iniciam o processo de amarelecimento nas árvores.
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Começo a ser com as primeiras nuances
a desprenderem-se, brandamente, dos ramos,
a balançarem, quase imperceptivelmente, no ar,
a pousarem, tímidas, a um canto da calçada.
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Cresço no acumular de ousadias douradas pelo passeio.
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Sou nas primeiras manhãs de céu encoberto,
as árvores despojando-se de véus esvoaçantes na aragem...
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Esquece o Verão insensato em que não fui.
Procura-me no Outono.
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Ilona Bastos
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sábado, 20 de setembro de 2008

Seria talvez curioso indagar o motivo por que a minha atenção se detém, agora, nas coisas minúsculas. Por exemplo, porque se foca o meu olhar, deleitado, na sombra da árvore que no alcatrão se estampa e ali dança ao vento - recortadas as elipses dos ramos e das folhas, sobre as quais planam e vão poisar, amachucadas, levemente amareladas, as folhas, elas próprias, num estalido seco e arrastado…


Ainda o Outono não chegou, e já as folhas se espalham pela rua, voejantes.
Hoje debrucei-me, escolhi, apanhei uma série de folhas de diferentes formas e cores, e trouxe-as para fotografar.
Depositei-as em cima da secretária e deixei-as, para ir tratar do almoço.
Quando regressei, um cheiro a clorofila espraiava-se agradavelmente por todo o escritório.
E, a partir daí, foi o prazer de me dedicar às folhas, observá-las cuidadosamente, espiá-las, inquiri-las, surpreendê-las com a lente curiosa da máquina fotográfica.

.Ilona Bastos