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sábado, 13 de setembro de 2008

Na contra-capa desta edição antiga da Guimarães Editores, que num impulso decidi sacar da estante para reler, diz simplesmente: “Um mestre do conto americano”.
Refere-se, tal apresentação, a William Saroyan, cujas palavras, ainda agora recordadas, me deixam um nó na garganta.
Este conto, “O Riso”, é certamente de mestre! Como o é “Da terra donde eu venho as pessoas são bem-educadas”, que me fez olhar as Harley Davidson com os olhos do sonho, e cuja lembrança me atraiu ontem à noite para a lombada deste livrito em papel amarelado, que dá pelo surpreendente título de “O Índio do Packard”.
Já anteriormente me interessara por Saroyan, aquando da primeira leitura desta colectânea. Sentira-me, então, profundamente tocada pela sua escrita, e procurara conhecer o autor e a sua obra.
Aprendi, na ocasião, que William Saroyan nasceu em Fresno, Califórnia, em 1908, filho de um emigrante arménio que faleceu tinha William apenas dois anos de idade. Tendo passado vários anos em orfanatos, aos dezasseis Saroyan decidiu ser escritor. E, desde então, até falecer, em 1981, criou uma extensa obra literária, na qual se incluem contos (de carácter essencialmente autobiográfico), novelas, romances, peças teatrais, ensaios e memórias.
Pela peça “The Time of Your Life”, foi-lhe atribuído o prémio Pulitzer, em 1939 – galardão que recusou com o fundamento de que “a riqueza não tem o direito de patrocinar a arte”. Aceitou receber, no entanto, o New York Drama Critics Circle Award.

O seu romance mais famoso é “The Human Comedy”, 1942, no qual se incluem algumas das páginas mais tocantes da moderna ficção norte-americana. A sua adaptação para o cinema valeu a William Saroyan o prémio da Academia para a Melhor História (prémio que deu origem ao Óscar de Melhor Roteiro Original).
Relativamente ao seu estilo, pode ler-se, na Biografia de William Saroyan inserta no Authors’ Calendar do site Pegasos:

“(…) as suas histórias celebravam o optimismo perante as atribulações e dificuldades da época da Depressão. Vários trabalhos de Saroyan basearam-se nas suas próprias experiências, embora a sua abordagem dos factos autobiográficos possa ser considerada poética. O seu conselho a um jovem escritor foi o seguinte:” Tenta aprender a respirar profundamente; a saborear realmente a comida, quando comes; a dormir realmente, quando dormes. Tenta ao máximo estar completamente vivo, com todo o teu poder, e quando te rires, ri perdidamente.” Saroyan trabalhou incansavelmente no sentido de aperfeiçoar um certo estilo de prosa, que resultou cheio de entusiasmo pela vida, com pendor impressionista. O estilo tornou-se conhecido como “Saroyanesque”.”

Pesquisando na Internet, encontrei extensa informação sobre este premiado e aclamado autor, que, através das suas histórias, tão humanas e originais, tocou o meu coração. Navegarei por essas páginas e procurarei saber mais sobre William Saroyan. E, claro, não deixarei de procurar as suas obras nas livrarias.
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Ilona Bastos

George Gershwin, Rhapsody in Blue, com Bernstein ao piano

1ª Parte

segunda-feira, 1 de setembro de 2008


Não era minha intenção transformar este recanto numa galeria de exposições. Mas parece-me agora que me limito a expor aqui as minhas pinturas fotográficas e verbais.
Tentemos um conto...
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A obra-prima

O escultor levou dezoito anos a criar a sua obra-prima.
Ergueu-a a partir do nada, ou seja, utilizando o material simultaneamente mais básico e mais complexo que se pode imaginar.
Ao longo dos anos fê-la crescer, dedicando-lhe os momentos mais inspirados do seu tempo, do seu desvelo, do seu carinho.
Quantas noites não passou sem dormir, desencantando soluções para as dificuldades que a obra lhe suscitava! Quanta alegria não o invadiu, ao reconhecer ter acertado nas opções feitas em cada etapa da sua construção! Quantas lágrimas não chorou ao imaginar, por vezes, que o objecto do seu enlevo poderia não atingir o destino que lhe fora traçado!

Quanto sofrimento, quanta felicidade, quanta angústia, quanto alívio não lhe causou essa ambiciosa obra, cuja finalização, pensava, lhe traria a compensação e o total reconhecimento pelo esforço despendido…
Lateralmente – pois o escultor tinha que ganhar a sua vida – concebia pequenas estatuetas em barro, que vendia em feiras do artesanato e lojas para turistas. Como oleiro, das suas mãos nasciam cântaros e jarros de belíssimas formas e elegantes linhas, encanto dos apreciadores que nelas vislumbravam ânforas gregas ou romanas e sonhos de longínquas ilhas plantadas num mar de azul intenso, coberto de céus com nuvens alvíssimas pincelando extensões grandiosas até ao horizonte.
Quando interrogavam o escultor acerca da sua obra-prima - à qual o próprio se referia, amiúde, como sendo de importância fundamental -, este sorria, feliz, respondendo vagamente: “A minha obra está à vista de todos!”.
Dezoito anos volvidos, o criador deu a obra por concluída. Não que o desejasse, é verdade - na sua ânsia de perfeição, poderia continuar ad eternum a modelá-la, retocá-la, acarinhá-la.
Foi a própria criatura que se assumiu perfeita! Proclamou-se livre, fez uma declaração de intenções e pediu dinheiro emprestado. Mochila às costas, apanhou o comboio, rumou à cidade. E aí se instalou.
Inicialmente, o escultor sofreu tormentos, preocupado com a saúde, a felicidade, o futuro do seu filho…
A passagem do tempo desvendou, porém, ao seu espírito inquieto, a realidade: a obra ganhara autonomia. Por si mesma encontrava soluções, tomava decisões, alegrava-se, chorava, vivia, criava! Criatura que era, tornara-se criador: da sua vida, da sua imagem, do seu percurso, da sua própria obra.
Do espanto à aceitação foi um passo. E actualmente o escultor dedica-se inteiramente a fazer nascer ânforas e sonhos, que o tornam conhecido pelo mundo inteiro.
Não surpreendentemente, o filho é também artista: pinta quadros maravilhosos, que começam a atrair a atenção dos grandes coleccionadores. Não somente o traço, as cores e as texturas, mas também a técnica, revelam uma originalidade que assombra e deleita.

Porém, a sua obra-prima não se encontra exposta nas galerias, nem é objecto de interesse para os especialistas e críticos.Trata-se, com efeito, de uma criatura pequena e activa, com faces rosadas, olhos castanhos e caracóis no cabelo. E o seu nome é Maria.
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Ilona Bastos
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