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quinta-feira, 11 de setembro de 2008


Como gostei da leitura de “Deus é Amor”, a primeira carta encíclica de Bento XVI!

Apreciei, em particular, a primeira parte, de cariz filosófico. Aí se faz a distinção entre “ágape” e “eros” (o primeiro, o amor que dá, o segundo, o que almeja receber), para finalmente se afirmar que o Amor envolve equilibradamente ágape e eros.

Aprendi que o agapante é a flor do amor. Do grego “ágape”. E esse nome, que outrora me parecera tão feio, ganhou outro encanto, nova dimensão, uma certa doçura. Olho então os canteiros de agapantes e vejo berços de amor.


Tenho, agora, uma visão muito mais nítida do que deve ser o Amor entre seres irmãos: ágape é perdão, aceitação, tolerância, envoltos em benevolência.
Esse Amor, como o pressinto, não envolve crítica, nem sarcasmo, nem ironia, nem desconfiança, mas uma infinita bondade! Evidentemente, não inclui cólera, nem revolta, nem ciúme ou inveja, antes, incrível sapiência.
Assim, se o meu irmão me magoa, se é mordaz, ofensivo, malévolo, eu perdoo, porque o compreendo, porque vejo para além da sua acção, reconheço o seu íntimo sofrimento, o seu medo, a sua amargura, as suas perdas, as rejeições de que foi alvo… Posso até reconhecer e aceitar-lhe os vícios, os que não consegue vencer, nem se atreve sequer a combater.
Se tudo isto eu vejo, sem crítica e com bondade, não consigo zangar-me com o meu irmão – antes tenho de ser paciente, abraçá-lo, encaminhá-lo no trilho do Bem.
Compreendo este sentimento e sei que consigo alcançá-lo por vezes. No entanto, falta-me a paciência e, se me testam para além do que me parece possível suportar, reajo vivamente.
Dai-me, Deus, a infinita paciência, e a clarividência para conseguir ver, sempre, sempre mais longe!
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Ilona Bastos

domingo, 7 de setembro de 2008



Allegro, allegro vivace! Avancemos para a vida com alegria, mesmo se a cabeça dói ou o olhar se entristece. Allegro, allegro vivace! Avancemos alegremente para a vida!

Hoje não escrevo, porque é domingo, e ao domingo o meu pensamento fecha. Ao domingo, acordo tarde, com dores de cabeça. Ao domingo vou almoçar com a família. Ao domingo vagueio pela Internet, ávida de algo. Ao domingo estendo a roupa e faço o jantar. Portanto, ao domingo não escrevo, e o meu pensamento fecha.
Posso reler o que escrevi e fazer emendas, mas não escrevo. Posso desenhar letras, com elas formar palavras e articular frases, mas não escrevo. Posso até fingir que escrevo, mas não escrevo. Acabarei inevitavelmente por comer os morangos que sobraram do jantar, mas não escrevo!
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.Ilona Bastos

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quarta-feira, 3 de setembro de 2008


Fauna & Flora: Aquarela do Brasil

É um belo casal de periquitos! Ele, de uma delicada plumagem amarela, dá pelo nome de Tom Jobim. Ela, de verde vestida, chama-se Adriana Partimpim. Em conjunto, tratamo-los por Pimpins.
A lembrança destes nomes, algo surpreendentes, surgiu-me quando os trazia para o seu novo lar e me recordaram uma deliciosa aguarela, maravilhosamente desenhados e coloridos, em contraste com o cinzento da rua e dos passantes automóveis, adereços grosseiros desta paisagem urbana.
“Parecem uma Aquarela do Brasil”, pensei. E, numa bizarra associação de ideias – afinal, não escolhi Ary Barroso para baptizar as criaturas – entendi prestar homenagem aos dois talentosos artistas brasileiros.
Na nossa casa, os Pimpins vivem na marquise, de onde assistem ao nascer do sol, e se abrigam ao anoitecer. Têm poleiros feitos de ramos de árvores, bebedouro com água e vitaminas, ossos de choco onde afiam os bicos, algumas guloseimas com sementes, frutos secos e mel, comedouros, e uma ampla banheira, para se refrescarem.
Faz-me lembrar uma luxuosa piscina das termas, este recipiente branco, coberto por uma abóbada transparente, onde os periquitos se banham.
A base da alimentação destas lindas aves é uma mistura de sementes de vários feitios e cores, entre as quais me é possível identificar a alpista e o sésamo. Constituem, para mim, um mistério, esses outros grãos redondinhos e brilhantes em vários tons de caramelo, bege e dourado, que os periquitos depenicam com prazer.
Olhando para a comida dos periquitos enquanto alimento, nunca me consciencializei de que é constituída por sementes, ou seja, gérmen, promessa, base de vida.
Assim, foi com surpresa que hoje encontrei, ao lavar a piscina dos Pimpins, uma pequena planta composta por duas tenras folhas ligadas a um só caule, terminando numa pálida e diminuta raiz.
Recuperada do espanto, apercebi-me de que aquele pequeno milagre de vida surgiu da imersão, em água, de uma das minúsculas sementes que constituem o essencial das refeições dos periquitos. Tão simples como isso!
Basta uma semente e uma gota de água para que a vida nasça, exaltada, veemente. E é suficiente um pouco de sol para que se expanda, ilimitada, em raízes, caules, folhas, flores e frutos!
Com que facilidade nos esquecemos da riqueza, complexidade, simplicidade e fascínio do milagre da vida que brota desta bendita Terra, que temos urgentemente, absolutamente, que começar a respeitar!
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Ilona Bastos
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segunda-feira, 1 de setembro de 2008


Não era minha intenção transformar este recanto numa galeria de exposições. Mas parece-me agora que me limito a expor aqui as minhas pinturas fotográficas e verbais.
Tentemos um conto...
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A obra-prima

O escultor levou dezoito anos a criar a sua obra-prima.
Ergueu-a a partir do nada, ou seja, utilizando o material simultaneamente mais básico e mais complexo que se pode imaginar.
Ao longo dos anos fê-la crescer, dedicando-lhe os momentos mais inspirados do seu tempo, do seu desvelo, do seu carinho.
Quantas noites não passou sem dormir, desencantando soluções para as dificuldades que a obra lhe suscitava! Quanta alegria não o invadiu, ao reconhecer ter acertado nas opções feitas em cada etapa da sua construção! Quantas lágrimas não chorou ao imaginar, por vezes, que o objecto do seu enlevo poderia não atingir o destino que lhe fora traçado!

Quanto sofrimento, quanta felicidade, quanta angústia, quanto alívio não lhe causou essa ambiciosa obra, cuja finalização, pensava, lhe traria a compensação e o total reconhecimento pelo esforço despendido…
Lateralmente – pois o escultor tinha que ganhar a sua vida – concebia pequenas estatuetas em barro, que vendia em feiras do artesanato e lojas para turistas. Como oleiro, das suas mãos nasciam cântaros e jarros de belíssimas formas e elegantes linhas, encanto dos apreciadores que nelas vislumbravam ânforas gregas ou romanas e sonhos de longínquas ilhas plantadas num mar de azul intenso, coberto de céus com nuvens alvíssimas pincelando extensões grandiosas até ao horizonte.
Quando interrogavam o escultor acerca da sua obra-prima - à qual o próprio se referia, amiúde, como sendo de importância fundamental -, este sorria, feliz, respondendo vagamente: “A minha obra está à vista de todos!”.
Dezoito anos volvidos, o criador deu a obra por concluída. Não que o desejasse, é verdade - na sua ânsia de perfeição, poderia continuar ad eternum a modelá-la, retocá-la, acarinhá-la.
Foi a própria criatura que se assumiu perfeita! Proclamou-se livre, fez uma declaração de intenções e pediu dinheiro emprestado. Mochila às costas, apanhou o comboio, rumou à cidade. E aí se instalou.
Inicialmente, o escultor sofreu tormentos, preocupado com a saúde, a felicidade, o futuro do seu filho…
A passagem do tempo desvendou, porém, ao seu espírito inquieto, a realidade: a obra ganhara autonomia. Por si mesma encontrava soluções, tomava decisões, alegrava-se, chorava, vivia, criava! Criatura que era, tornara-se criador: da sua vida, da sua imagem, do seu percurso, da sua própria obra.
Do espanto à aceitação foi um passo. E actualmente o escultor dedica-se inteiramente a fazer nascer ânforas e sonhos, que o tornam conhecido pelo mundo inteiro.
Não surpreendentemente, o filho é também artista: pinta quadros maravilhosos, que começam a atrair a atenção dos grandes coleccionadores. Não somente o traço, as cores e as texturas, mas também a técnica, revelam uma originalidade que assombra e deleita.

Porém, a sua obra-prima não se encontra exposta nas galerias, nem é objecto de interesse para os especialistas e críticos.Trata-se, com efeito, de uma criatura pequena e activa, com faces rosadas, olhos castanhos e caracóis no cabelo. E o seu nome é Maria.
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Ilona Bastos
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sábado, 30 de agosto de 2008


Compreendo a satisfação dos que pensam ter encontrado, na leitura de textos estrangeiros, na visita a solos estranhos, alguma pista do que é a Verdade.
Mas, no meu íntimo mora a convicção de que tanto a encontrarei a ela – à Verdade – nestas ruas familiares da cidade amada, como em quaisquer outros locais distantes.
Não o fez Fernando Pessoa, sem quase sair de casa?
A Verdade encontra-se tanto nas prelecções elaboradas do sábio de Oxford, como no discurso chão do agricultor alentejano. Tanto nos Campos Elísios ou no Tibete, como nas pedras molhadas da rua das traseiras.
Só é preciso saber vê-la, saber lê-la, saber escutá-la. E se a não encontrarmos aqui, não a encontraremos em mais lado nenhum, com certeza.
Compreendo, também, o encantamento perante a inteligência revelada pelos tais sábios estrangeiros. Nada me é tão agradável como o odor da inteligência: da palavra superiormente dita, do raciocínio lucidamente delineado, do clima supra humano que se gera quando a inteligência mostra os seus traços, exibe as suas formas, revela o seu corpo! Cria-nos a ilusão de que nos encontramos mais próximos da Verdade!
Mas trata-se de mera ilusão – agradável, doce, deliciosa ilusão!

Pequenas centelhas, aqui e ali, inesperadamente, trazem-nos à vida: ontem, imprevisivelmente, a “Janela indiscreta”, de Alfred Hitchcock; hoje, Sonnenblummen”, de Manfred W. Juergens.
Contrariamente ao que muitos pensam, a Arte é essencial à nossa sobrevivência.

Que estranha, mas bela, visão!
As folhas jovens, de um verde pálido (perfeitos, os recortes das suas tenras faces), espalhadas profusamente pelo empedrado negro.
Se não houve vento, se não houve chuva, se o Outono vem longe, como se compreende este cenário belo mas inusitado?

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Ilona Bastos

terça-feira, 26 de agosto de 2008


Esta manhã praticamente não vi ninguém, para além de ti, que me beijaste meio adormecida.
Quando levei o cão a passear, havia apenas um homem a subir a rua, assobiando, e uma mulher, ainda jovem, a sair de um automóvel e a dirigir-se ao salão de beleza, no edifício da esquina.
De resto, só o cão - com quem converso como se de uma criança se tratasse. E o cão responde como uma criança. Olha-me com o seu olhar meigo, ora atento, ora espantado, ora desconfiado.
O cão também tem desconfianças, sublinhadas pelo subir das orelhas, pelo abrir da boca, expectante, pela pose do corpo, em sentido, pelo pescoço voltado para cima, para mim, como quem pergunta: “A sério?!!”


Agradam-me estas ruas, mornas e desertas, inundadas de sol!
Não sei se mais aprecio o silêncio, de sons e movimentos, se a vaga nostalgia do bulício, que subjaz à quietude da tarde.
Até o ronronar do autocarro, a meu lado, e o olhar perdido dos passageiros, voltados para a janela, ou o arrancar súbito dos automóveis quando o sinal se torna verde, tudo me causa uma sensação de agradável descontracção estival.
Como as sombras das árvores, são plácidos os poucos cidadãos que pelo passeio se deslocam, alongando passadas calmas e metódicas na calçada.
Só a brisa fresca, ao fim da tarde, vem acordar as ruas adormecidas. Agitam-se, então, as copas, - por vezes com violência -, e os ramos, ao brilho da luz dourada, dançam freneticamente, embravecidos.
Pouco depois, chega a hora do crepúsculo - o vento amaina, a tranquilidade é total. E das janelas ouvem-se os ruídos de vozes e de bater de tachos e panelas, na preparação do jantar.
É assim, o mês de Agosto na cidade.
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Ilona Bastos