sábado, 2 de maio de 2009


Em primeiro plano, a funcionária de longos cabelos negros. Em segundo, uma fila longa e baixa de ficheiros. E sobre estes, em fundo transversal, uma janela larga sobre um retalho de vista lisboeta. Uma linha de edifícios em traça antiga: alguns, pintados de novo, recuperados - brancas, as sancas e as varandas -, as paredes em azul vivo; outros, com aspecto degradado, as fachadas bege a descascar, os ferros das persianas enferrujados, as beiradas a desfazerem-se, enfeitadas de ervas daninhas.

Precisamente sobre estas construções de outros tempos, que os proprietários esquecem e os inquilinos amam ou deploram, voam os pombos, que depois desaparecem por entre as grades rendilhadas de uma varanda alta, prenúncio da mansarda em cuja janela se empoleira, curiosa, movendo activamente a cabecita, uma ave cinzenta, de pescoço verde nacarado.

Ao lado, uma pequena parcela de um edifício mais recente, talvez dos anos sessenta. E em seguida, impecavelmente pintada de rosa, uma construção mais baixa, com as suas janelas de portadas verdes e brancas, os vidros visivelmente lavados e brilhantes, o telhado precedido de um delicioso friso de azulejos em tons de bege, branco e verde.

Depois, outro esquecido dos tempos antigos, enorme, rosado, desgastado pelos anos. Mudo, cego, imóvel, não atrai os pombos nem as gentes. E aí se queda, já do meu lado direito, sem emoção.

Assim termina este quadro-janela que entretém a minha espera na Conservatória, enquanto a dita funcionária de longos cabelos negros fala pausadamente à senhora que, diante de si se senta, rodeada de pastas e papeis.

E o tempo continua a passar.

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Ilona Bastos


Joe Hisaishi Live - Summer ( from Kikujiro )


http://fr.youtube.com/Nomyo

1 comentário:

Elza Fraga disse...

Oi, querida. Brigadim pelo comentário lá no 'Contos',
Acho que mulher se preocupa mais
com a velocidade do tempo,
que com a direção, rsrsrs.
Ando numa fase estranha de ver o tempo voar, antes ele só corria!
Gostei muito desta sua postagem, deliciosa, quase vi o casario que meus olhos não conhecem, os edifícios, a vida pulsante de uma Lisboa que imagino linda!
Bom pra você estar aí, vivenciando
esta paisagem, olhando este mar e estes rios que nos descobriram (ou acharam!)
Eu fico aqui de saudades do que nem vivi.
Bitokitas, minha amiga, e gosto muito de você, sabia?